Reaprender a ser só não é tarefa das mais naturais, embora devesse. Nascemos todos pelados, carecas e banguelas, devíamos achar a coisa mais prosaica do mundo caminhar sozinho. Mas não. Acostumamo-nos a ser casal. Quem é, sabe do estou falando: os olhares que dizem mais que mil palavras, o colo que encaixa ao acalento sem precisar pedir, as histórias vividas, as risadas e brigas que, juntas, escrevem toda uma história de vida comum que, para quem a protagoniza, passa a ser a história de vida de cada um desde o primeiro dia que algo falou mais alto e deu-se o encontro. Contudo, nem todo mundo tem vocação para Barbie, Princesa da Ilha e assim muita história linda de amor acaba com um final menos cor de rosa. Diz Rodrigo Amarante em "O vento" - que eu amo demais - que se a gente já não sabe mais rir um do outro, meu bem, então o que resta é chorar. Chorar é uma boa. Lava tudo, expurga a dor e ensina a recomeçar. Limpa o caminho, a íris e ajuda a enxergar lá frente, pois, sim, há de haver um "lá na frente".
Reaprender a ser só não é tarefa das mais fáceis. Vejo gente aí se atrapalhando um bocado a conviver na sua exclusiva companhia depois da quebra. Pudera. Rompem-se relações e quebram-se sonhos. Quebram-se sonhos e o chão desparece debaixo dos pés. Caminhar sozinho e sem chão. Nada, nada fácil. Quem tem que ensaiar a caminhar sozinho enfrenta desafio de peixe grande: olhar-se no espelho sem o par não é apenas constatar que o amor foi embora, que a paixão se esgotou, que o encanto acabou. Olhar-se sozinho diante do espelho e ter que respirar fundo para recomeçar sem a mão dada de sempre é também ter que encarar a incapacidade e a falta de aptidão de cada um para o conjunto, para a concessão, para a generosidade que reside no tal ceder, tônica da convivência entre duas pessoas. E quando a questão cinge-se em reconhecer que você fracassou, amigo, ah, isso não é nem um pouco legal, nem no escuro, nem debaixo da cama, tampouco diante do espelho.
Reaprender a ser só não é mesmo tarefa das mais simples. Tem a cama que passa a ser grande demais, o lugar à mesa vazio impondo-se como um fantasma toda noite, o buraco desocupado do porta-escova de dentes te encarando toda manhã a debochar da tua incompetência. Ela se foi, ele se foi. E você ficou. Ficou sozinho e sem chão. Sozinho, sem chão e com uma baita vontade de chorar. Pois chore. Chorar é uma boa. Lava tudo, expurga a dor e ensina a recomeçar. Limpa o caminho, a íris e ajuda a enxergar com mais clareza o caminho a ser traçado, só que agora sem mão dada a ninguém. Pra quem nasceu pelado, careca, banguela e aprendeu a andar de joelhos e depois, já bípede, levou muitos tombos até erguer-se totalmente, voltar a caminhar de braço solto é desafio que parece perfeitamente factível. Diz a música dos "The Magic Numbers": Love is just a lie, it happens all the time. Enxugue o rosto, respire fundo, ensaie um passo a frente e pegue a sua senha. E em breve você estárá de braço dado novamente.
por Juliana Jacyntho, em 23.8.08
notícia non grata

Chove, o céu é cinza e o dia da semana é domingo. O telefone toca e anuncia que um conhecido, rapaz jovem, talentoso e esportista, foi embora dessa vida após um atropelamento. O rapaz nem era muito próximo de mim, mas uma notícia assim me engasga e muito. Uma vida boa brutalmente interrompida. Interrogações. Incertezas. Dó. Angústia pelo vazio que fica diante da constatação de quão vulneráveis somos nós.
Na Rede, leio a notícia de que o acidente foi causado por um outro rapaz, embriagado, ainda mais jovem que o meu conhecido que partira. Outra vida desperdiçada, cujos sóis serão contemplados, daqui em diante, muito provavelmente, se justiça houver, sob um prisma quadrado.
Chove, o céu é cinza e o dia da semana é domingo. O entalo na garganta remanesce, mesmo não sendo o rapaz tão amigo meu assim. Além do entalo, do susto, do choque, me vem à cabeça um punhado de orações à vida, à família de quem se foi e uma vontade grande e forte de mandar às favas toda a banalidade de problemas rasos que cercam o nosso dia-a-dia, pois problema é sentir a dor de perder alguém amado demais rasgando a carne e afastando pra bem longe a paz, é enxergar que os momentos alegres não voltam mais e que somente ficarão na memória. Deste problema confesso querer muita, muita, mas muita distância. Quem ousaria discordar... mas não nos é dado o privilégio de ter esta certeza na vida. E então vem o medo, a perplexidade, o silêncio.
Se outro jeito não há, se a certeza é a de que um dia, uma hora, de algum jeito, todos vamos embora, cito aqui Mark Twain, para finalizar este desabafo, e conclamo a todos: "tentemos viver de tal modo que, quando morrermos, até o homem da agência funerária lamente a nossa morte".
Se é para acabar um dia, que seja depois de momentos muito bem vividos. De palavras muito bem ditas e escritas. De abraços fortes e sinceros. De beijos apaixonantes e acalorados. De amores francos. E olhares e sorrisos abertos e felizes demais. Nem ter esta meta em mente me conforta, confesso, mas temos que seguir em frente, ainda que com medo. Tenho medo sim. Não de ir, mas de ficar. Não de ir, mas de deixar rastros de dor e sofrimento. Não de simplesmente ir, mas ir de forma brusca e violenta. Não de ir, mas simplesmente ir e nada deixar para contar história.
Viver é uma arte. Sabe-se que a arte sempre conviveu com certas doses de insanidade. Pois, para mim, confrontar-se com a morte, mesmo que de longe, é a loucura do artista. Hoje, a obra posta é uma tela pintada com muitas interrogações diante de mais uma baixa no exército dos bons, de forma brusca demais, a desafiar a minha limitada compreensão. Como se não bastasse a densidade de tudo isso, ainda chove, o céu é cinza e o dia da semana é domingo. Mas não me sinto confortável para reclamar por um sábado de céu azul ensolarado. A morte me encabula.
por Juliana Jacyntho, em 3.8.08
a bola da discórdia

De onde você acaba de chegar caro amigo blogueiro, caro leitor assíduo, caro internauta que caiu aqui por acaso? Pois eu acabo de chegar de uma reunião de condomínio. Você sabe exatamente o que isto significa? Significa que gastei as últimas duas horas sentada numa cadeirinha de plástico branca em meio a um bando de desconhecidos que tentavam até ser simpáticos, simplesmente porque ocupamos o mesmo teto. Uns, de fato, devem ser simpáticos de verdade. Outros, contudo, até tentavam praticar a arte da cordialidade com os demais, mas o sorrisinho nervoso entregava com força a falta de intimidade com o cortado: como eu, eles também estavam bem contrariados por estarem ali, perdendo algumas horas do descanso noturno que nós, aquela raça que costuma praticar o esporte de trabalhar, endeusa e roga a Deus para que logo chegue: é a hora da taça de vinho na mão, revista ao lado, novela na TV e o amor entrelaçado. Ai, que desperdício.
E a pauta foi variada. Pode ter animais de estimação, cães, gatos, aves barulhentas? Cão de grande porte não pode. Mas o que é cão de grande porte? Ah, maior que um labrador. Sorry? É importante padronizarmos as lanternas da varanda. Claro, concordo plenamente, deve ser tudo padronizado. Então. Tem até um apartamento que colocou uma bola enorme na varanda! Não pode. Êpa, mas é o meu. A bola é minha. Na minha varanda. Pause. Tudo bem, retiro a bola, sem briga, sem choro, sem vela. Problemas deixo para o dia que corre até as 19h. Chego em casa e quero não. Retiro sim a bola. Mas a pulga não se cala.
Retiro sim a bola. Mas ora bolas. Sou brasileira, casada, advogada, vacinada sou também, embora me falte na carteira a estrelinha anti-Rubéola, e eis que não tenho o reles direito de decorar a minha varanda a meu bel e exclusivo prazer? Soa ou não estranha esta ingerência da coletividade sobre a minha esfera de direitos de exercer a minha porção personal-decorator Tabajara? É invasão demais, é confusão demais, é cafonice demais. Em quê uma pobre luminária japonesa de papel de arroz agride tanto os meus queridos vizinhos recém-adquiridos? Talvez ela os faça lembrar que na varanda deles falta um pouco de bom gosto?
Não, talvez não. A minha bola japonesa da varanda, que amanhã terá que procurar um novo abrigo na minha nova casa, incomoda simplesmente porque é diferente. Ser diferente não é tarefa fácil. Ser carioca em Curitiba, ser paulista no Rio de Janeiro, ser negro na Virginia, ser branco em Uganda, ser advogado no IME, ser engenheiro no Fórum, ser diferente requer diplomacia, gentileza, jogo de cintura. Mas minha bola é redonda, ela não tem cintura.
Padronizar é uma maravilha, desde que seja para melhoria. Padronizar nivelando por baixo é que me causa uma repulsa incontrolável. Tolhir a liberdade e a criatividade alheias debaixo do próprio teto é cafona demais. Gosto não se discute, mau gosto menos ainda. Intolerância, então, a gente simplesmente ignora e tenta não medir esforços. Mas cafonice, ah, a cafonice... A cafonice a gente chega bem perto, constata, e simplesmente dá risada. Dá risada por saber que, ainda hoje, apesar de esdrúxulo, há gente no mundo que acha que tem o poder de opinar sobre a porcaria da lanterna da varanda do vizinho. E até tem, ninguém mandou viver em regime de co-domínio. Mas o pior: faz desse poder a razão de viver, o grande evento de sua semana, o elixir do seu mês. E essa falta de ter o que fazer é cafona demais.
A retirada da minha bola japonesa da minha varanda não me afeta para além do que registro aqui nestas linhas, lamento porque a fachada será menos bela a partir de amanhã. Mas não é este o problema. Me assusta a futilidade, o provincianismo e a banalidade que ronda os espíritos humanos. E a um bom punhado destes bons espíritos eu hoje chamo de queridos vizinhos e desejo-lhes bom dia, boa tarde e boa noite. Boa Noite. Durma com um barulho desses. Durmam com o barulho da cafonice que reside no fato de espreitar a vida alheia e achar que isso é uma postura bacana. Afe, onde é que foi parar a elegância e o bom senso? Talvez não estejam por aqui nesta vizinhança. Incomodado que se mude.
Oh, yeah. Lessons learnt. A incomodada aqui se mudará um dia. Só que, da próxima vez, vou para uma casa onde eu ossa plantar não só meus amigos, meus discos e livros, como também a minha bola japonesa de papel de arroz na varanda, iluminando a minha liberdade de poder colocar exatamente o que eu bem entender nas tais quatro paredes que são, afinal de contas, minhas. Minhas. Abaixo à intolerância.
por Juliana Jacyntho, em 25.7.08
circulando a ignorância

Millôr Fernandes curiosa e ironicamente escreveu na Veja de 28 de maio: quanto mais lemos, mais estudamos, mais nos informamos, mais ignorantes ficamos. Nossa ignorância é alimentada pelo nosso grau de informação. Eu sei o que não sei, ele diz. Bacana quando ele descreve o descarte de livros que não deseja mais guardar: joga-os fora, no lixo, certo de que muitos que pelo lixo passam resgatarão o livro antes mesmo do lixeiro aparecer para recolhê-lo e que então, aí, se dá a mágica do acaso da circulação das mensagens que aquele livro traz. O livro irá engrossar a 'ignorância' de quem ali no lixo o escolheu e sorrateiramente catou-o do limbo. Como estou de mudança, dia desses me peguei diante do dilema sobre o quê fazer com alguns livros que não queria mais guardar. Uns porque não me interessavam mais - ou nem chegaram a, outros porque não me marcaram e que poderiam dar espaço a outros recém-adquiridos. Fui pega por um pudor danado que me impediu, com força, de jogá-los no lixo.
Sempre escutei que jogar livro no lixo é ignorância, um pecado, com tanta gente precisando de instrução e cultura por aí... Tem hábitos na vida que trazemos conosco desde todo o sempre: vêm da criação, vêm da nossa história, eles não querem saber, eles vêm vindo com a gente. Ei-nos aqui. Acabei doando os livros para uma instituição de caridade. Sei não se as criancinhas e idosos lá assistidos irão interessar-se por regras de felicidade no trabalho ou formas inteligentes de enriquecer casado. Talvez seguir a dica do Millôr seria uma forma mais sincera de descarte e mais generosa com o conhecimento e com a graça que reside no acaso de ser escolhido por quem realmente se interessa por mim - em sendo eu o livro. Cliquem na figura para ler Millôr. Descartem com sinceridade os livros que já não caibam no espaço afetuoso que existe entre o alcance da mão e o canto da estante. Juro que, da próxima vez, eu tentarei.
por Juliana Jacyntho, em 22.7.08
Letal combination. Shining through é um filme de 1992, lançado aqui no Brasil com o nome de "Uma Luz na Escuridão". Pegue um pouco de história geral ambientada na 2ª Guerra Mundial, figurinos da década de 40, Michael Douglas em incrível boa forma (idos tempos) e Melanie Griffith toda apaixonada e misture tudo. Supense, espionagem, guerra e romance na veia. Corta pra cena no Ball Room, Leland afastando um pretê da mocinha dizendo: "eu vou interceder". Ao fundo, uma típica crooner entoa I'll be seeing you, in all the old familiar places... Para diversão, sem pretensão. Não é à toa que assisti este filme umas dez vezes há alguns anos atrás. Reencontrá-lo no Youtube foi um mini-flashback contente. Aliás, e a propósito, esta semana mal começou e está com um carão danado de Ninety's week fever, ok, ok, já volto a 2008.
por Juliana Jacyntho, em 22.7.08
W A N T E D !
Une touche de Naf Naf: Criado em 1991 pela Naf-Naf, grife francesa casual wear em parceria com a L'Oreal, usei muito esse perfume quando tinha uns quinze anos. Por curiosidade, fui procurar na net para ver se encontrava um frasquinho. E não é que encontrei?. No E-Bay por cerca de US$ 150.00. Pelo que vi, é vintage, coisa rara de achar. Mas confesso que amarelei de comprar pelo e-bay. Mercado livre eu até encaro, mas leilão no estrangeiro... sei não, vai que o perfuminho não chega? Minha porção roda-presa falou mais alto que a shopper compulsiva saudosista... Salvei a foto para posteridade, e também pra ver se a frouxa aqui cria coragem e dá o 'lanço'. Aliás: a embalagem, eu já não me lembrava, tem polka-dots e letrinhas coloridas, tal como este humilde blog. Freud explica. =) Boa semana!!!
por Juliana Jacyntho, em 21.7.08
quando o amor mora ao lado
Casou-se muito cedo. Entediou-se tão cedo quanto. Mas seguiu e saiu por aí destilando um mix desvairado de tédio e ódio. Tédio pela sem graceira suportada em casa, todo santo dia. Ódio por não conseguir virar a mesa, virar a página, virar uma pessoa simplesmente feliz. E satisfeita. Foi quando sofreu um terrível ataque cardíaco. Ódio demais + Tédio demais = mistura letal. Almost. Faltava-lhe leveza, paz. Faltava-lhe gentileza e cor. Faltava-lhe uma vida boa, só boa e pra chamar de sua, dissociada da falência caseira que experimentava e que lhe consumia as paciências... e o seu coração então colapsou. Mas não lhe faltou sorte.
Recuperando-se, recobrou a razão: em casa, conversou. Decidiu que não poderia mais arrastar a história de paixão adolescente vida madura afora, pediu a conta e deu com o mundo pela frente. Nights, porres homéricos, amores de minuto. Curtiu não. Achou aquilo tudo meio, assim, meio pesado, meio barbárie, meio não era seu estilo. Estilo? Resolveu tentar outras fórmulas. Agências. Pessoas estranhamente encalhadas a procura do par perfeito. How Bizarre. Curtiu não. Achou aquilo tudo meio demodé, meio delator da falta de traquejo pra tal da pegação, falta esta regada por anos e anos de inércia [in]voluntária ante a velha e boa paquera, que ao engessado matrimônio não resistiu. Paquera. [Deve existir algum termo mais moderno para isso hoje] - pensou. Pensou em recorrer aos amigos. Blind dates. Muitos. Jantares, happy hours, almoços, até chá das cinco. Gente chata, gente interessante até a terceira dose, gente que lhe instigava a ter pensamentos cruéis: se você é tudo isso mesmo, porque está diante de mim vendendo-se com tamanha eloquência, tal como se fosse a última fatia do último abacaxi suculento da feira? Curtiu não. Começou a surtar e achar que, sabe-se lá, talvez a idéia do novo eu não era assim tão boa...
No apartamento alugado, com o conforto que a grana dos quarenta e tal enfim, ao menos, lhe propiciava, pôs-se a pensar sobre o que faria dali em diante. Sentiu solidão, medo, ansiedade. Sentiu saudades, um misto de culpa e arrependimento. E a tal sensação de liberdade, que merda, por que não deu as caras? Repensou o rompimento, repisou seus sentimentos, repartiu com seu novo eu a angústia de querer revelar que sentia saudades da dita prisão em que vivia. Quis o tédio de volta, que fosse, o ódio, que voltasse, quis de volta tudo o que conhecia e o que lhe era familiar. Arrumou a mala com as poucas roupas que tinha trazido, pegou as chaves do carro e na escolha do caminho não pestanejou: voltou pra casa, de onde não deveria ter saído, refletiu ao volante. Lá chegando, qual não foi sua surpresa: seu ex-par bailava, contente e feliz, nos braços de outro alguém. Diante da cena, pôs-se a chorar, copiosamente.
A sintonia do par era impecável, a feição de alegria de ambos era invejável, a atmosfera do ambiente era leve e perfumada. Super harmonia. Sem que o casal percebesse, entrou na sala. Diante do susto, a dança foi interrompida e os três ali, diante da lareira, se entreolharam sem saber ao certo o que dizer. Não havia o que dizer, só sentir: ainda chorando, ele abraçou sua mulher e também o seu filho, o mais velho, de dez anos, o belo rapaz que, segundos antes, conduzia a mãe com muita destreza e charme naquela melodia doce do bolero que tocava. Destreza e charme estes herdados do seu pai, que enfim acabara de voltar pra casa com a certeza de que, não importa quão dura possa ser a rotina de décadas a fio com a mesma pessoa, não importa se tudo ao redor parecer acinzentado pela mesmice: ele agora tinha a certeza de que se empenharia com todo o afinco para não deixar nunca mais morrer o encanto daquele fim de tarde em que pôde rever o sorriso mais reluzente de toda a sua vida brilhar novamente: o da sua mulher. Era ela. Sempre foi. Sempre ali tão perto. Era ele. Sempre deixava de ser. Sempre tão distante. Nosso amigo resolveu, naquele dia, nunca mais ausentar-se da sua própria vida.
por Juliana Jacyntho, em 14.7.08
Joss Stone não é só prodígio, talentosa e dona de uma vozeirão. Ela é doce. E zen. Um frio do cacete em Curitiba e ela ali, zen, no palco, de vestido de alcinha e pé no chão. Durante o show tomou chá, fina. Dava umas risadinhas para a platéia, super simpática, mais parecia uma criança, assim, de tão à vontade. Ao fim do show, distribuiu rosas para o público. Um encanto. E ainda canta, como canta. Uma graça. Eu dancei e cantei como há muito não fazia. Fiquei ainda mais fã. Super valeu.
por Juliana Jacyntho, em 19.6.08
com quantos paus de canela se faz um lar
Uma casa se constrói com cimento, tijolos e bons braços obreiros. Um orçamento apertado, um cronograma apertado, um coração apertado pela ansiedade de querer ver tudo pronto. Pó, barulho, bagunça. Cheiros nada aprazíveis de cigarro, argamassa, suor e até a ansiedade de querer ver tudo pronto exala um odor qualquer que também não agrada. Um tijolinho sobre o outro. Longilíneas estruturas metálicas. Carrinho que sobe e desce cheio de entulho que sai e volta com mais tijolinho. Piso assentado. Azulejo no banheiro. Água correndo. Chave na mão. Chaves na mão, pé direito à frente, dá licença, seu porteiro, é hora de recomeçar.
Quem se muda estranha a nova atmosfera que envolve, cercada de um quê de mistério, o invólucro novo que apelidamos de minha casa, minha nova casa. Uma sensação freak qualquer sugere abandono: minha casa não é mais minha, eu agora pertenço a esse lugar com cheirinho de construção e demão de tinta? Quadradinho amado e esperado por meses, gestação sofrida, cadê o acalento? Cadê o cantinho preferido, os cheiros familiares? Cadê minha revista predileta, meu RG, meu talão de cheques? Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: - Em que espelho ficou perdida a minha face? - Em qual das vinte malas ficou perdida minha camisola mais confortável? Em qual das cem caixas espalhadas pelo chão da sala ficou perdido o saca-rolhas para o desabrochar do vinho de comemoração?
Pão para quem tem fome. Quem casa quer casa. Mas não só. Um casa, tal como descrita no parágrafo que inicia esta breve prosa, é apenas um exemplar do bom trabalho daqueles que se dedicam à engenharia civil, à empreitada, à arquitetura. Um casa lato sensu, uma casa de verdade se constrói com muito mais paus que aqueles previstos nos cálculos aritméticos de quem bolou a fundação do prédio que aqui foi erigido. Cheiros, lembranças afetuosas, experiências sensoriais, isso sim constrói uma casa de verdade - Lar doce Lar.
Pode ser doce ou salgado, com cheiro de alecrim, hortelã, sândalo ou alfazema. A verdade é que uma casa não passa a existir tão somente com a obra acabada. Sem que se asse um bolo, sem que se queime um incenso, sem que se tome um bom banho de espuma e de perfume; sem que se faça uma faxina da boa, daquelas que a flanela e o álcool lavam até a alma; sem que se ponha as almofadas e os travesseiros ao sol para espantar os males da inércia do 'guardado'; sem que se molhe uma planta, sem que se coloque a tocar um bom disco, sem que se cante bem alto; sem tudo isso, amigo, não tem casa não. Sem um brinde, sem um vinho, sem um queijo, sem um beijo, sem uma oração, não se sentirás em casa. Por isso, irmão, assine o termo de entrega das chaves e se entregue, sem medo, à árdua e deliciosa tarefa de dar ao quadrado de concreto a sua cara, o seu jeito, plantando nele os seus pés, suas memórias e mais um belo pedaço da sua história.
por Juliana Jacyntho, em 26.5.08
sobre cartela de cores e de pessoas
Sou franca, sincera e transparente tal como um copo d'água. Não sei sorrir para o que desprezo, não sei endossar aquilo com o que não concordo, não consigo mesmo aplaudir o que me causa repulsa. Não sei como fazer para esconder ou disfarçar quando me decepciono, quando estou triste eu murcho. Ou choro. Quando estou alegre, eu brinco. Ou pulo. E ponho-me a fazer palhaçadas e desfiar tolices só para que outros sorriam comigo - minha alegria é generosa, ela quer sempre companhia.
Talvez por tudo isso eu não consiga conviver com gente bege. Gente que, ao te olhar, não sabe o que é travar um franco eye contact. Gente que não se esforça para entender o que você diz. Gente que não se importa se quem está à frente é você ou uma samambaia, nem nota a diferença. Gente bege que não diz a que vem, onde vai, gente que parece não saber até hoje por que razão veio ao mundo. Gente que com esta mesma cara de "não sei o que estou fazendo aqui" acorda, levanta, passa o dia inteirinho, volta pra casa e dorme, tudo com a tal da mesma cara. Nem um sorriso, nem uma levantada de sombrancelha. Nem um berro, nem um grito. Nem um abraço, nem uma risada, quiçá um aperto de mão. Gente que traz na testa não um ponto de exclamação, mas sim uma interrogação em negrito. Nada fácil conviver com esta gente.
Não é fácil ter que interagir com quem não age, mas se arrasta. Não é fácil jogar uma piada ou conversa fora com quem não se esforça para compreender, nem o óbvio. Não é fácil contra-argumentar determinado assunto com aquele que, de tão enclausurado no seu bege mundinho, acha mesmo que, em tudo, 'o problema são os outros'. Gente assim tem que aprender a se colorir. De preto, de azul, verde ou vermelho, de qualquer cor que o valha. Mesmo de branco, quem sabe, muito mais cor na paz do seu vazio que o bege neutro e entediado que ilustra a face daqueles que se escondem em vão.
Gente assim tem que se permitir viver em sentido lato, dar a cara a tapa, participar. Bater e afagar, posicionar-se e recuar, pois é assim que a gente escreve e colore a nossa história. É assim que a gente se colore e se diferencia da horda bege, que segue engrossando quantitativamente o coro dos insignificantes de espírito e enfraquecendo qualitativamente as relações humanas, tirando do sério os copos d'água do nosso mundo de meu Deus. Ergo meu copo d'água transparente e proponho um brinde. Um brinde às diferenças e ao quanto elas nos ajudam a amadurecer. Outro brinde ao poder existente em cada um de nós que permite o impulso, a virada de jogo e o direito de se reinventar se assim desejarmos. Que este poder conduza os beges a se transformarem em pessoas amarelas de bolinha turquesa, ou alguma outra feliz mistura. E que este mesmo poder nos municie de paciência, enquanto a tal coloração alheia não vem.
por Juliana Jacyntho, em 11.4.08
Copyright © 2008 Balanço de Dez em Dez - desde 05'2004. Todos os direitos reservados. Lei Federal 9.610/98 - Lei de Direitos Autorais |