Apenas mais um trajeto rodoviário
O sol se põe. Nós, ardidos de tanto sol, nos dirigimos ao ponto em que o ônibus que nos levaria ao nosso destino paradisíaco passaria. Mochilão nas costas, câmera atravessada no peito. Estamos todos prontos.
E a condução dá partida. Executivo. Vamos combinar que ônibus executivo para uma microcidade pode ser exagero. Não se a microcidade for conhecida nacionalmente como a praia que tem o pôr do sol mais lindo do Brasil. Não se a microcidade for conhecida internacionalmente como paraíso dos windsurfistas, que pra lá migram em bando, inflacionando e impulsionando a economia do lugar.
A microcidade, portanto, acreditem, pede e comporta o ônibus executivo. Sem falar que o trajeto capital-microcidade seria de seis horas. Ou seja, executivo na veia, ma non troppo. Cabe aqui lembrar que a última hora de viagem é feita de jardineira, jabiraca ou marinete, como queiram. Aberta, com direito à bagagem amarrada no teto e sacolejos mil.
Mas todo o trajeto vale a pena.
Vale a pena pelas paisagens inesquecíveis da microcidade, pelo calor do povo daquele estado, mas mais ainda pelas descobertas experimentadas no caminho.
É a música regional que não nos deixa dormir no radinho de pilha do motorista e que, de tão engraçada, marca a viagem.
É a família que, num lugarejo no meio da estrada, se despede do patriarca pedindo a benção, beijando-lhe a mão e embarca no ônibus executivo, com televisão, ar condicionado e poltronas reclináveis. Nesse momento, o menino humilde se encanta e, sem saber, me emociona, quando aponta para a tevê e dispara, admirado: "Ói o filme, ói"!
Poucos quilômetros depois, perto dali, o Executivo passa por uma praça e nossos olhos fecham em cena que, para nós daqui de baixo, parece até conto: um grupo de umas dez pessoas assistia a uma televisão comunitária. Televisão comunitária na praça!
Tanta diversidade cultural assim, tanta diversidade social assim, meu Deus... Esse Brasil engole a gente.
Por isso, mais uma vez e sempre: é preciso caminhar e observar outras realidades, outras vivências.
A vida é isso. Aprender com as diferenças, se encantar com o desconhecido, absorver o modo de viver de cada tipo de pessoa, de cada tipo de povo, de cada tipo de lugar.
E crescer com isso tudo. E achar bonito por ser diferente. Apenas e tão somente.
por Juliana Jacyntho, em 7/29/2004 06:32:27 PM
Cara de pau de quem ama assim...
Desde a última hora em que cheguei da cidade, um versinho qualquer nota escutado pelo meus ouvidos enquanto passava por uma barraca de Cd's pirata ecoa no meu cérebro.
"Cara de pau, êta amor cara de pau! É tão bonito! Esse amor é bom demais!"
Fiquei, cá com meus colares, me perguntando: o que é um amor cara de pau?
Cheguei à rasa conclusão de que é o amor bate e volta, aquele em que não se pára junto, aquele em que, um dia, faz os amantes jurarem amor eterno para, minutos depois, mandarem-se, cada um, um ao outro, para o inferno.
Como um amor cara de pau desses pode ser tão bonito, pode ser bom demais? Que me desculpem os autores da letra de tal música, que desconheço, mas paradoxo maior não há.
Amor bonito é aquele de cara lavada, sem segredos, sem agruras. É o amor que te proporciona viagens homeopáticas para as nuvens e, no retorno, ainda está do teu lado para te dar colo. Esse amor, sim, é bom demais.
Amor bonito só comporta cara de pau se for para dar risada, fazer o outro se divertir, sentir cólicas de tanto gargalhar. Essa é a única cara de pau que o amor bonito deveria admitir.
Não a cara de pau que faz o outro não ligar após um jantar gostoso; não a cara de pau que impulsiona o outro a te ignorar sem motivo; não a cara de pau que move o outro a trair e magoar como se tivesse vindo ao mundo com esse direito. Isso não.
Essa cara de pau não. Amor cara de pau assim merece é levar um pé. Não merece a nossa dedicação.
por Juliana Jacyntho, em 7/28/2004 05:07:47 PM
Heróis do Mundo Moderno
Diógenes e Sílvia estão, ambos, na casa dos seus quarenta anos. Há um ano e meio, casados há doze e sem filhos, cansados da vida estressante que levavam numa cidade do Sul do país, resolveram apostar as fichas num sonho: morar num vilarejo nordestino, pedaço do paraíso. Mas, ainda assim, vilarejo.
Diógenes me conta que quando deu por si, na sua cidade, estava gordo, estressado, fora de forma e infeliz. Hoje, quando se olha no espelho, enxerga um cara bronzeado, saudável, em forma e satisfeito com a mudança.
Hoje, negócio próprio e gerenciamento de trinta e poucos funcionários pra trás, empregado como garçom em um clube de dia e numa pizzaria à noite, Diógenes se enxerga feliz. Sílvia trabalha no caixa do mesmo clube de dia e, à noite, descansa. Ou passeia. Ou os dois. Juntos, levantam caixa suficiente para custear uma vida regada, de acordo com os padrões da cidade grande.
Diógenes e Sílvia apostaram alto na realização de um sonho. E já venceram. A certeza de felicidade estampada no rosto já é prova dessa realização, dessa vitória. O que vai vir nos próximos meses ou anos não mais interessa. Eles já venceram. Eles são felizes hoje. Isso, sim, interessa.
Quantos Diógenes e Sílvias espalhados pelo mundo estão à espera de um clique mental para fazer valer o seu próprio sonho? O que lhes falta? Coragem? Grana? Talento?
Acomodação é o grande mal do século. Às vezes não estamos satisfeitos com o que conquistamos, nem com o cenário em que vivemos mas, mesmo assim, nos fazemos de rogados acreditando que já tá tudo muito bom, pra quê pedir mais da vida? Ou, ainda: pra quê pedir algo totalmente diferente do que eu, hoje, experimento?
Para viver. Viver mais. Viver melhor, talvez.
Ou apenas para poder afirmar para você mesmo: eu fui e fiz. A consequência de ter sido ou não uma vitória vai depender da perspectiva de cada um. Superar um obstáculo pessoal já é, por si só, uma vitória interna, independentemente da colheita de louros, que, é claro, também é sempre muito bem-vinda.
Diogénes e Sílvia são os heróis desse mundo moderno, assim como tantos outros que conseguiram implementar mudanças positivas em suas vidas e que, hoje, olham ao seu redor e constatam: "fiz a escolha certa quando decidi seguir a minha vontade, sem ceder a apelos outros que não os emanados pela minha cabeça e pelo meu coração".
Um viva pra essa gente!
por Juliana Jacyntho, em 7/26/2004 11:16:39 AM
O bom filho à casa torna.
Confome prometido no anúncio abaixo, voltei. Até mais cedo do que o previsto: no finzinho do dia vinte e cinco e não no dia vinte e seis como muitos esperavam. E voltei cheia de idéias, cheia de vontades, cheia de sonhos. Tudo louco para ser colocado em prática. Tudo louco para não ser largado ao relento da inércia ao qual tantos e tantos sonhos são relegados.
Sonhos e desejos de amplitude monstra.
Sonhos e desejos que podem até mesmo mudar o rumo de nossas vidas.
Mas enquanto a força motriz da mudança não se manifesta, ainda, vou implementando mudanças aqui. Planos menores mas não menos importantes.
Acabou o Balanço de Tia Lídia, fixo às segundas. Mas os textos, lidianos ou não, continuarão a ser salpicados por aqui.
Acabou o BMM: Balanço Mental Masculino às sextas. Ele sairá na proporção que os textos chegarem. Às sextas, aos domingos... sabe-se Deus quando.
Tudo isso em nome de uma só coisa: Liberdade! Coisa que andei respirando nos últimos dias até a última ponta. E gostei. Quero ter liberdade no meu blog também. Afinal, é disso que isso aqui trata. Ou pelo menos, tenta.
por Juliana Jacyntho, em 7/25/2004 09:47:55 PM

por Juliana Jacyntho, em 7/16/2004 06:45:51 PM
... seis imagens, então, valem mais que o quê? Umas seis mil palavras?
De qualquer forma sou adepta demais das palavras para abrir mão de usá-las em ocasião tão importante.
Comunico que vou, mas volto em breve. Mas lá, caros amigos e leitores, quero não saber de computadores (não é que rimou?)
Mas o Balanço estará aqui. Cuidem direitinho dele. E façam comentários, porque ele gosta! Tem alguns balanços novos aí embaixo. Até a volta!
por Juliana Jacyntho, em 7/16/2004 06:45:36 PM
Olha o nosso BMM aí!
Hoje, dispenso apresentações. Ele mesmo saiu na frente se apresentando. Portanto, faço minhas as suas palavras:
"Juliana,
Tudo bom? Me chamo Renato, sou administrador de empresas, moro aqui no Rio, e leio o seu blog quando dá. Não pude deixar de ler o post "Características impublicáveis". Apesar do tamanho, li todo e gostei muito.
Visito o seu blog há pouco tempo e quando eu tenho uma folga aqui no escritório eu dou um jeito de visitar esses seus links. Já vi que tem muito cara aí fazendo propaganda de suas puladas de muro. Propaganda não, quer dizer, não me interpretem mal. Mas vocês saem contando o que viveram nas suas puladas de muro.
O negócio é o seguinte: eu sou casado há quatro anos. Tenho um filhinho de oito meses, o Pedro, bonitão que nem o pai. Conheci minha mulher no final da faculdade. Namoramos por cinco anos e assim que a grana deu, a gente se casou. Quero escrever uma parada pra essa coluna sua de sexta, em homenagem a nós, homens casados e felizes. Sim, nós existimos! Embora a maioria de vocês, mulheres (e alguns caras também), insistam em pensar o contrário. Lá vai...
Casado e Feliz
Por Renato
"Quando jovem eu pensava que nunca ia me casar. Quem sabe depois dos quarenta, queria mesmo era aproveitar a vida, pegar quantas mulheres eu pudesse (ou conseguisse?), sair pra beber com os amigos, zuação mesmo, coisa de garoto.
Minha vida foi isso mesmo até conhecer a mulher que viria ser a mulher da minha vida.
Eu tava no último ano da faculdade, ela no segundo ano. Fomos apresentados pela irmã de um amigo meu, que estudava com ela. Saca quando você olha pra mulher e pensa: essa mulher vai ser minha? Toda gostosinha, simpática pra cacete, sorrisão aberto... minha mulher sempre foi muito gata.
Eu ainda não sabia a profundidade desse "minha", nem a sua duração, mas queria aquela menina pra mim: por uma noite, por um mês, sei lá. A primeira vez que ficamos foi numa choppada da faculdade. E aí eu pirei. Que uma noite, um mês que nada! Eu queria aquela mulher do meu lado pra minha vida inteira.
Foi uma namorada perfeita e hoje é minha mulher. Perfeita. E mãe perfeita. É claro que todo mundo tem defeitos, não estou dizendo que ela não os tenha. Mas ela é perfeita pra mim, é perfeita porque é o que eu sempre quis do meu lado.
Nunca traí, nem no namoro, nem no casamento e se vocês acham que eu sou um bicho de sete cabeças por estar revelando isso tudo aqui, vocês se enganam. Tenho muitos amigos que pensam que nem eu: querem encontrar uma mulher maneira a quem possam respeitar e dividir tudo nessa vida: a cama, as contas, as alegrias e as adversidades. E digo mais: nunca traí porque penso que estar com ela sempre foi uma opção, melhor opção da minha vida.
A todos vocês, obrigado pela atenção. Só queria dizer nessas linhas que eu sou casado sim e sou feliz assim: beijo a mesma mulher há nove anos e é ela que eu quero beijar e abraçar até os meus últimos dias".
por Juliana Jacyntho, em 7/16/2004 06:08:25 PM
Por Tia Lídia*
"Quase não compareço nesse adorável blog hoje, meus caros.
Perdi boa parte da minha tarde na fila do banco. Muitos de vocês hão de perguntar:
-- "Mas, Tia Lídia, a senhora não tem sessenta e poucos anos? Não teria direito à fila para idosos?"
Eu responderia:
-- "Sim, senhores. Mas não acho justo utilizar-me dessa prerrogativa quando a fila para pagamentos conta com uma variante de 20 a 35 pessoas e apenas dois caixas se revezam na tarefa de atender a todo esse pessoal".
A idade traz benefícios como fila especial em bancos, meia entrada em cinemas, zoológico, parques, transporte urbano gratuito. Mas o que a idade deveria trazer e não traz para todos é bom-senso!
Tenho sessenta e poucos, não noventa e nove dobrando o Cabo da Boa Esperança... Ando bem, minhas articulações ainda respondem, não tenho do que me queixar.
Sei que "furar a fila" é um privilégio que nos é concedido por lei, mas não acho justo com os demais. Por isso, perdi a tarde. Antes perder parte da tarde do que perder o bom senso".
* Tia Lídia é jornalista aposentada, hoje trabalha como freela, escrevendo colunas e crônicas para jornais, revistas e blogs, como o Balanço! Ao ingressar na faculdade de jornalismo foi uma vanguardista, já que suas contemporâneas focavam suas atenções em casar, procriar e viver para casa, marido e filhos. É casada com Zé Humberto, namorado da época da faculdade: anos e anos de cumplicidade, amor e respeito. É irmã de Lédia, a sortuda. Tia Lídia mora no Rio de Janeiro, em algum lugar do meu cérebro. Mais aqui!
por Juliana Jacyntho, em 7/12/2004 05:45:16 PM
O BMM dessa sexta chega quase no sábado, mas ainda em tempo.
Dessa vez, o nosso colaborador é o jornalista e apresentador de reality show nas horas vagas Pedro Bial. Sim, ele mesmo.
Não, ele não é meu amigo. Não, ele não me mandou esse texto por e-mail. Está em Crônicas de Repórter, 1996, 2ª edição, Editora Objetiva, p. 160/161, um livro semi-velho que possuo, no caminho para o amarelamento.
Mas acalmem-se! Isso não significa que O BMM fechou as portas para os escritores por esporte.
Não, não, não! Vocês são nossos astros principais. O Bial, aqui, é só uma estrela importada que me socorre, aplacando a distância entre mim e meu PC, moradia dos arquivos enviados por vocês, escritores principais, já que estou em trânsito.
Mas, de repente, o Bial inaugura uma nova proposta: quem sabe, de quando em vez, publicarei aqui um textinho de um famoso no BMM? Sendo bom, é sempre bem-vindo. Sendo instigante, é sempre bem-vindo. O debate e a inquietude de idéias, quando provocados por um texto, são sempre bem-vindos.
E para os rapazes, permanece o convite: a coluna está aberta aos seus textos, vale qualquer assunto que desperte um balanço mental por parte de vocês, o e-mail está logo abaixo, utilizem ou não pseudônimo e esperem a publicação na ordem de recebimento, que agora está para daqui a quatro sextas-feiras... e aturem as celebridades furando fila, afinal são eles que me socorrem quando não estou em casa.
Por Pedro Bial
Não é Proibido Fumar
" Pior que mulher feminista é homem feminista. No repertório demagógico destes, uma afirmação se destaca e se repete de forma irritante: a mulher é superior ao homem!
A frase é proclamada com o orgulho incomparável dos que se auto-humilham. Mais ou menos como as famosas últimas palavras de Lamarca: sei quando perco.
Dizer que a fêmea é superior ao macho não me parece diferente de outras generalizações tão estúpidas quanto preconceituosas, como afirmar que o negro é pior que o branco ou que os baixinhos são mais traiçoeiros que os altos.
Quem anda querendo bajular feministas deveria se ater a um ponto em que as mulheres parecem de fato insuperáveis: a versatilidade.
Obrigadas, através dos milênios, a dominar a arte da dissimulação para alcançarem seus objetivos, as mulheres se tornarem versáteis mesmo. Mudaram de função e papel com rapidez e agilidade impressionantes.
Eu, que ao contrário de Chico César nunca fui mulher, estou penando por minha cintura dura na hora de alternar ou exercer simultaneamente diferentes papéis.
Na verdade, não era sobre nada disso que eu queria falar. O assunto da crônica de hoje seria o cigarro Este canudo ardiloso de prazer, como ensinou Oscar Wilde, vicia por nos trazer o que mais perseguimos: a insatisfação.
Longe de mim defender o hábito de fumar, perto de mim defender um e cada um dos fumantes. Eu inclusive.
A proibição do cigarro em quaisquer ambientes fechados é um tropeço fascista do governo. Os direitos dos não-fumantes só existem se os fumantes tiverem seus direitos. A histeria antitabaco é tamanha que mesmo antes da lei estabelecer punições para os que a desobedecerem, restaurantes já cumpriam com ardor e paixão.
Além disso, beira o mau gosto fazer todo esse estardalhaço acerca do cigarro neste país em que os motoristas até hoje não aprenderam a dirigir. Aqui, os carros são guiados como se estivessem cruzando um deserto. Cada automóvel se move como se não houvesse nenhum outro veículo por perto.
E mais: juntando a barbárie de nosso trânsito com a questão da discriminação de fumantes, uma questão muito mais dramática emerge. Se é para controlar o comportamento de viciados e salvar vidas, está na hora de fazer valer a lei que proíbe a condução de veículos por indivíduos alcoolizados.
Pois o número de vidas perdidas estupidamente pela combinação de bebida e volante ainda supera, e muito, as estatísticas de morte por causa do fumo.
Vamos aprender a dirigir, a beber e a fumar.
Cada coisa no seu tempo, e lugar".
por Juliana Jacyntho, em 7/9/2004 10:42:53 PM
Limites
Até onde vocês se permitiriam ir para chamar a atenção? Chamar a atenção do seu namorado, dos seus amigos, dos passantes em geral?
O que se passa na cabeça de uma mulher quando abre o armário para se vestir? "Quero me sentir confortável e bonita ao mesmo tempo"? "Quero que todos olhem pra mim"? "Quero ser a mais cheguei do evento"?
Pois ontem tive uma amostra-grátis do que a falta de bom-senso, a insanidade ou a secura por se sentir linda, leve e loura pode produzir numa mulher.
Fecha na cena: 105 kg distribuídos em 1,60m. 3 camadas de pneus se distribuindo na região abdominal. Cabelo louro-farmácia-amarelo-ouro-doirado. Tudo isso adornado por uma fuseau de lycra rosa pink, minissaia jeans por cima e blusa de lycra justa rosa pink, fazendo conjuntinho.
O que pensou aquela mulher ao se vestir? Estava ela se sentindo sexy, poderosa, tipo tô podendo? Talvez sim. Mas o namoradinho do lado não parecia tão empolgado. Nem ela, num momento, encolhida num banquinho do parque. Talvez por frio.
Tudo errado. Talvez eu tenha percebido tudo errado.
Talvez o conjuntinho rosa de lycra fosse o último grito da moda no armário daquela moça e a intenção dela era a de sentir o máximo sim. E daí?
Que importa se rosa pink chama a atenção até de quem está do outro lado do mundo? Que importa se o corpitcho dela não comportava aquele tipo de vestimenta? Que importa se o evento do qual aqui se trata era uma exposição agropecuária? Que importa?
Importa se sentir bem. Se aquilo tudo foi pra isso, palmas para ela! E ainda foi pra casa acompanhada.
por Juliana Jacyntho, em 7/8/2004 08:49:50 PM
Ainda sobre identidade...
Hoje à tarde fui parar em um Bingo (isso mesmo que você leu: Bingo!) de uma associação de ex-alunas de um tradicional colégio de freiras daqui da minha cidade, e a reunião se deu nesse colégio.
Minha intenção foi acompanhar a minha avó que, gentilmente, me convidou no dia anterior. Minha avó não é ex-aluna do tal colégio, mas muitas de suas amigas são. Como é um grupo de senhoras bem gente fina e engraçadas, resolvi me juntar ao grupeto, agradaria à minha avó e me divertiria também. E acho que foi o que, de fato, ocorreu.
No início, não pensava assim. Pensava:"ïsso aqui tá chato, quero ir embora e escrever um post sobre essa cena"...
A cena era: chegamos trinta minutos atrasadas. Já tinham cantado duas pedras (pôxa vida!). A "cantora" interrompeu tudo para nos receber. Colocaram minha avó na mesa das amigas que eu disse que são senhoras super gente fina e me colocaram em uma outra mesa, com senhorinhas gente fina também mas que eu nunca tinha visto na vida.
Comprei duas cartelas, me servi de um punhado de feijão e mandei brasa no exercício do meu pé frio!!! Não acertava uma... Até que uma das minha novas colegas de mesa enfatizou: "que ótimo isso aí, hein? Você não acerta nem uma fileira... que sorte, hein? Ótimo assim, minha filha, azar no jogo, sorte no amor". Aquela senhorinha simpática sabia o que estava dizendo. Sorri, concordei e parti pra segunda rodada.
Novamente, não acertava uma. Decidi, então, ficar de olho nas cartelas das minhas parceiras de jogo, cada uma com umas três, quatro cartelas... Foi quando então minha colega, novamente, se virou pra mim e disse: "ajuda mesmo, minha filha, nem enxergo direito. Quando cantam sessenta, eu escuto setenta, me ajuda aí! Você não sabia que ia ter uma idosa ao seu lado"? Disse ela, rindo. Eu respondi: "Imagina! A senhora está ótima!" E estava mesmo. E muito bem humorada. Nessa rodada, fiquei por duas! Aliás, por dois! Dois feijões!
Na terceira, eu já estava entendiada. Foi quando minha amiga (já posso chamar assim) fez a pergunta... a pergunta que não quer calar...
-- "Você também é ex-aluna?"
Me senti um peixe fora d'água instantaneamente e fui logo respondendo, me justificando: "Eu não, mas todo mundo da minha família estudou aqui". E não deixava de ser verdade. Algumas tias estudaram lá, todos os meus primos hoje estudam lá. Hoje aquele colégio é referência em educação talvez até fora da cidade. Senti uma pontinha de vontade de ter estudado lá, de fazer parte daquele grupo, que contava com mulheres da minha idade, da idade da minha mãe e da idade da minha avó.
Queria ter aquela identidade. Mas não tenho. Estudei em outro colégio que, na minha época, era um dos melhores e o mais forte concorrente do colégio em questão. Mas que, hoje, não mais existe. Falta essa identidade. Sou órfã do pátio do recreio e das depêndencias do colégio, onde passei dezesseis anos da minha vida. Tá, fica tudo guardado na memória, dirão vocês e eu concordarei.
Mas o meu colégio acabou. O problema é que não posso fazer parte de uma associação de ex-alunas que se reúne no próprio colégio, pra comer salgadinho, tortas e doces, jogar um bingo básico e rever as colegas de sala, e também suas filhas e suas netas.
Nossa associação de ex-alunas ia ser sem-teto. Quero não. Queria que fosse lá na casa da Rua Formosa, casa antiga, linda, com bandeira hasteada, onde estudei no primário, onde às segundas-feiras cantávamos o hino, onde tinha a cantina do Seu Mílton em que eu tomava guaraná Taí com uma bala de maçã verde na boca porque achava que tinha gosto de jambo (tipo louca desde criancinha, vai dizer!)
Ficou a vontade. O programa que poderia ser furado me rendeu sensações boas, saudosismo da época de colégio, admiração por ver aquele grupo unido, em contato, mesmo anos e anos depois de terem estudado juntas. Mas a pergunta não queria calar...
Entrei no carro e não aguentei: "Vó, por que eu e Douglas (meu tio mais novo, três anos mais velho que eu: onde ele estudava, eu estudava atrás) não estudamos aqui, se as meninas (as irmãs mais novas da minha mãe) estudaram??? Minha avó, simples e objetiva, respondeu: "Não sei não..."
Mas eu sei. E a resposta nada tem de enigmática. Todos nós começamos no concorrente, o meu colégio. Ele só tinha classes até o primário. Foi quando então as meninas foram fazer o ginásio e o segundo grau no colégio do bingo. Eu e o meu tio continuamos no mesmo colégio, pois o ginásio e o segundo grau foram inaugurados a tempo.
Putz... E o quê vocês tem a ver com tudo isso? Muitos devem estar se perguntando.
Nada, absolutamente nada (exceção de alguns ex-alunos do meu colégio, que também lêem o Balanço)! Mas me permitam esse momento de saudosismo que esta curta temporada na minha cidade fez inflar na minha cabeça.
por Juliana Jacyntho, em 7/7/2004 07:58:21 PM
Signos "presuntinhos" de riqueza...
Quem leu, ontem, a coluna do Joaquim Ferreira dos Santos no Segundo Caderno de "O Globo", em que ele fala sobre a expressão "fofíssimo"? Quem não leu e ainda quer ler, ainda está em tempo.
Como são recorrentes essas expressões distintivas de um grupo, de uma profissão, de uma classe social!
Ao ler na coluna sobre ex-expressões que, ainda há pouco, tomavam conta do vocabulário da mulheres, cariocas principalmente, e que, hoje, caíram no buraco negro do esquecimento, lembrei-me daquilo que se convencionou chamar signos presuntivos.
Signos presuntivos de riqueza, signos presuntivos de poder, signos presuntivos de pertecer a determinado grupo, a determinada tribo.
Nesses signos presuntivos, sinais distintivos, se encontra também o vocabulário. Fofo, fofíssimo, que fof's e outras variantes distinguem determinado grupo. Mulheres, na certa. Data venia e outras rebuscagens do gênero denotam que o interlocutor é advogado ou exerce outra carreira no mundo jurídico. Data venia, tudo bem, na verdade, quer dizer que, além de advogado, o cara é demodé, old fashioned, out, tá por fora.
Assim como uma mont blanc no bolso da camisa quer dizer alguma coisa.
Assim como um rolex no pulso também quer dizer alguma coisa.
Nem podemos negar, também, que carregar uma louis vouitton a tiracolo também traz, embutida, uma mensagem qualquer. Como uma Lacoste, uma Ralph Lauren, quando se ocupam de vestir seus donos. Como um Jaguar, quando o leva para o trabalho (trabalho? talvez o dono de um jaguar nem precise mais disso...)
Que tipo de mensagem querem esses objetos transmitir?
Que tipo de mensagem querem os donos desses objetos transmitir quando envergam signos presuntivos de riqueza e de poder?
"Ei, você aí! Eu sou rico, tá vendo"? Ou então: "Ei, você aí! Eu não sou rico mas pareço... e daí que ainda estou pagando a quinquagésima terceira prestação da minha beemevê"?
Ou seria, talvez: "Ei, você aí! Eu tenho bom gosto, tá vendo? Valorizo coisas que têm qualidade"! Ou seria, ainda, talvez e apenas: "Deu pra comprar com o dinheiro que tinha. Gostei e achei bonito, resolvi usar".
Acredito que todas as alternativas acima estão corretas. Todas as alternativas acima são passíveis de sair da boca dos mais variados passantes da Garcia D'Ávila à Oscar Freire.
A bolsa não tem culpa, o carro também não, muito menos o relógio ou a canetinha, coitada. Eles são apenas objetos. Caros, mas objetos.
Se há, nesse mundo, pessoas que fazem do uso desses objetos a sua maior razão de viver, a sua melhor qualidade enquanto ser humano, a culpa é, lamentavelmente, dessas pessoas. Ou da vida que andaram levando, que se encarregou, com o passar dos dias, de esvaziar o cérebro que Deus lhes deu.
por Juliana Jacyntho, em 7/6/2004 06:14:51 PM
Por Tia Lídia
"Muitos de vocês andaram dizendo nessa semana que passou que crescer não é tarefa fácil. É verdade. Não é.
Quando pequenos e estávamos no colégio, pensávamos que o maior problema da vida era a prova de matemática. Também não estávamos enganados. Era, sim, um grande problema. Afinal, receber um bom grau nos exames talvez fosse a única responsabilidade de cada um naquela época.
Quando tivemos que decidir qual profissão seguir, qual faculdade escolher, preencher os formulários de admissão nas universidades e passar noites de ansiedade pelo temor de não ser aprovado no vestibular, também não foi fácil. É verdade.
E então todos nós nos formamos. E a vida adulta começou.
Uns casaram-se, tiveram filhos, mais contas para pagar. Logo, procuraram trabalhar cada vez mais, para honrar os compromissos de família e outras responsabilidades. Outros demoraram mais a constituir família, mas a busca pelo primeiro emprego, pela realização profissional, pela certeza de terem feito a escolha adequada no mercado de trabalho era a mesma, angústia comungada por todos da época.
Eu, por exemplo, sofri.
Logo que saí da faculdade, arrumei um emprego em um jornal de grande circulação. Zé Humberto também estava empregado, mas juntos, ganhávamos pouco. Tanto que só resolvemos ter filhos sete anos após casados.
Me perguntava se teria feito a opção correta: se teria agido certo seguindo um sonho, o de ser jornalista, ou se teria agido errado, preterindo profissões que, segundo a minha mãe, "pagavam melhor". Meu pai... Bem, meu pai achava que lugar de mulher era em casa. Mas bati muito de frente com ele para que permitisse que eu fizesse a faculdade.
Nos primeiros anos, foi duro. O salário, pequeno, só foi "dar com folga" quando eu já tinha uns oito anos de casa. Mas, em compensação, eu saía de casa para o trabalho com disposição, todos os dias, com prazer, todos os dias. Escrever sempre foi uma paixão. E fiz dessa paixão o meu sustento.
Hoje, já aposentada, vejo meus sobrinhos se queixarem das opções que fizeram profissionalmente.
Dizem que a vida adulta começou dura, pois não sabem nem se querem continuar na primeira profissão que escolheram.
Um quer largar a engenharia e se tornar publicitário. Outra, embora empregada em ótimo escritório de arquitetura, não se sente satisfeita com a rotina de trabalho. E nem têm filhos. E nem se casaram ainda. Mas essas são suas responsabilidades hoje.
Tudo passa, meus queridos. Aflição e angústia passam, desde que um dia sobreponha-se a outro e que, neles, vocês se mexam.
A vida só não ajuda e mostra as oportunidades para aquele que dorme. Mantenham-se acordados! Não desprezem suas vontades, seus desejos, seus sonhos. A vida é feita de praticidade, mas também de sonhos, de idealismo, de paixão! Sem eles a vida tem seu conteúdo esvaziado.
Entreguem-se às suas paixões, atendam aos seus anseios, não se prendam por padrões estabelecidos em casa, na rua, pelos colegas. A resposta às suas insatisfações está dentro de vocês. E eu sei que vocês, em breve, encontrarão a resposta e se encontrarão profissionalmente. Estarei aqui esperando. Passem em casa para me contar a boa-nova!
Mas lembrem-se: cada idade traz uma responsabilidade.
A vida demanda responsabilidade para o cumprimento de todos os nossos deveres. Um tipo de dever hoje, outro tipo amanhã, sem tréguas.
Sim, é assim. É assim que crescemos e nos tornamos seres mais bonitos e mais capazes. É só assim que vamos sentir aquela sensação boa de dever cumprido, de capacidade, de realização.
Ansiedade e medo ontem, Coragem hoje, Sorriso de satisfação e colheita de louros amanhã. E amanhã não é tão longe. É amanhã mesmo".
Tia Lídia é jornalista aposentada, hoje trabalha como freela, escrevendo colunas e crônicas para jornais, revistas e blogs, como o Balanço! Tia Lídia mora no Rio de Janeiro, em algum lugar do meu cérebro
por Juliana Jacyntho, em 7/5/2004 03:09:57 PM
Mais uma vez, na primeira hora da sexta-feira, o meu, o seu, o nosso BMM! E estreando banner novo!
E hoje é a vez do nosso colaborador Mauro Edaier que, morando longe de casa há mais de cinco anos, fez uma pausa no trabalho para um breve balanço mental... e nos contou tudinho!
Boa, Mauro, adorei. Seja sempre muito bem-vindo!
Por Mauro Edaier
Onde eu estou? Ou por que estou aqui?
"Existem momentos na vida em que não entendemos por que estamos onde estamos. Ou até entendemos, mas é por um motivo tão material, que nos questionamos.
Nessas épocas, as lembranças, as imagens e os cheiros dos lugares que fizeram o que somos hoje nos voltam à mente, com uma sensação de realidade que me impressiona.
Os últimos dias têm sido belos dias de inverno. Lembram-me o inverno na minha cidade natal. O friozinho da manhã, o mar espelhado visto da janela da sala de aula, o calor agradável no pátio do colégio no começo da tarde... A sensação de que a vida deveria ser sempre assim.
Mas não é.
Quando nos damos conta, estamos longe de tudo isso. Longe do barulho das ondas, longe da tarde quente que passa lenta, e, ainda, mais longe daqueles que nos importam.
Fui pra onde a vida me levou, mas não completamente. Minha cabeça volta e meia esta lá.
O "lá" não é necessariamente a mesma cidade. É o lugar onde encontramos o que nos formou, nos moldou do jeito que somos e também onde estão as pessoas que mais amamos.
Para mim, estar "lá" é poder aliviar o stress de um dia de trabalho, passeando na beira do mar. É poder andar descalço na areia, mesmo que não o faça quase nunca, a impossibilidade de fazer é que me incomoda. Tomar uma cervejinha no fim da tarde, vendo o mar com quem você mais gosta. E isso é como diz a propaganda: não tem preço.
Mas são também estes mesmos sentimentos que nos ajudam a enfrentar o dia-a-dia.
Saber que o fim de semana vai chegar e você vai velejar sob o belo sol do outono, saber que as férias virão e você estará com quem mais te importa, de pé descalço na areia, com o sol ardendo, vivendo este momento de contemplação, podendo sonhar que, um dia, você viverá todos os dias desta maneira.
Mas enquanto isso... voltemos ao trabalho! Até porque ninguém disse que seria fácil".
por Juliana Jacyntho, em 7/2/2004 12:20:29 AM
Cidade igual não há.
O Ministério dos Transportes adverte: a beleza do entardecer do Rio pode causar sérios danos ao seu veículo! Portanto, atenção!
Inverno carioca, termômetro marcando uns vinte e cinco graus, o céu laranja disputa espaço com a lua cheia, linda, brilhando lá em cima.
Você, hipnotizado por cenário tão belo, não sabe se olha para o mar, que te acompanha em todo o trajeto, para o sol se pondo, para a lua que já apareceu ou para os milhares de veículos que insistem em frear na sua frente... Talvez esteja aí a resposta que desvenda o mistério dos engarrafamentos típicos no fim de tarde carioca: a beleza do Rio!
por Juliana Jacyntho, em 7/1/2004 06:04:13 PM
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