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Escuro e gatos pardos

Lúcia se produziu toda para aquela noite. As amigas convidaram-na para ir a uma boate recém-inaugurada e ela, prontamente, aceitou. Não é todo dia que podemos ir com um grupo de amigas a uma boate recém-inaugurada recheada de bocas desejosas de outras bocas para beijar, pensou Lúcia.

Lúcia e suas amigas chegaram na boate antes da pista de dança abrir, o que só aconteceria à meia-noite. Claro, pista aberta antes de meia-noite não dá ibope, ninguém está no ponto. Ainda.

O relógio marca onze e meia. A turma toda já está pra lá da segunda frozen margarita. Todos sentem uma moleza nas pernas, um sorriso insistente nos lábios, olhares de lince começam a vasculhar o ambiente.

A cadência das músicas recebe outro tratamento, agora mais dançante. As pessoas em volta ganham um brilho especial, uma aura encantadora. As luzes abaixam. A pista começa a encher e todos para lá migram para soltar seus demônios. Lúcia idem.

Dance, Techno, Trance, Pop. É quando Beto esbarra em Lúcia.

"Desculpa, gata. Imagina, não foi nada. E aí, qual o seu nome? Lúcia. Hein? Lúcia! Hã... que nome lindo! A dona é mais linda ainda. Ah, imagina! São seus olhos".

E os dois seguem dançando juntos. E dançam. Dançam. Mais perto. Olho no olho, um sorri de um lado, o outro retribui. Beto passa a mão pela cintura de Lúcia e traz o corpo dela para perto do seu. Eles se beijam. E beijam e dançam. E nessa sequência alternada permanecem nas próximas quatro horas e meia.

Cinco da manhã. A música desacelera. Lúcia já se sente cansada e tonta, muito tonta. Beto continua empolgadíssimo, pulando, cantando, agarrando a sua namorada instantânea. Doce dá nisso.

Em instantes, a música pára. As luzes se acendem. Lúcia olha para Beto e Beto para Lúcia.

Será que vai rolar uma comidinha?, pensa Beto. Ai, meu Deus! Quem é esse ser? Que bizarro, quero ir pra casa, pensa Lúcia. E é para onde ela vai, com as amigas, após despedir-se de Beto com um último beijo, não mais tão apaixonado como os primeiros que haviam dado.

Na noite, todos gatos são pardos. Uns mais, outros menos. Na dúvida, prefira ambientes bem iluminados. E bom divertimento.
por Juliana Jacyntho, em 8/31/2004 06:24:55 PM





Chamada da vida. Casal feliz: Presente!

Vocês já repararam na quantidade de livros, revistas, filmes e outros veículos de informação - e neles incluo as conversas de bar, que levantam a bandeira da traição como um comportamento padrão a ser repetido por todo casal que vive junto há mais de cinco, dez anos?

É desanimadora a descrença que se cultivou ao longo de todos esses anos na cabeça de homens e mulheres acerca da possibilidade de ser feliz dentro de um casamento com todas as implicações trazidas pelo instituto: amor, sexo, cumplicidade, cotidiano, repartição de problemas e alegrias, maus e bons humores. Hã? Faltou o ingrediente traição? Não, respondo eu. Não faltou não.

Desde quando traição é componente obrigatório dentro de uma relação a dois? Desde quando trair virou condição sine qua non para reacender a chama da paixão no casamento?

Se a relação já estava mal das pernas, se já não havia mais envolvimento entre os seus protagonistas, por que não sentar, conversar, abrir o jogo, as frustrações, o coração, a insatisação, antes de buscar paliativo em cama alheia? Não deveria o respeito que se nutre pelo outro falar mais alto que o desejo por um terceiro? Sim, se respeito houvesse.

Há quem defenda que infidelidade conjugal não pode ser taxada de traição. Traição seria expressão deveras forte e agressiva para classificar o comportamento daquele que procura prazer e satisfação dos seus desejos fora do seu casamento ou de outro relacionamento estável, com vistas a atingir sua própria felicidade. E para buscar a própria felicidade, então diria, vale tudo.

Desculpem os partidários de opinião diversa, infidelidade é traição. Fere com força e agressividade. Ao trair, fere-se a confiança que aquele que dorme ao teu lado todos os dias em você deposita. Ao trair, fere-se a confiança que você mesmo um dia depositou na sua capacidade de ser leal e de sentir-se em paz consigo mesmo. Infidelidade e traição oferecem a mesma idéia: mentira, vulnerabilidade, corda bamba. É o rompimento de um vínculo de credibilidade que, se esgarçado, não se reestabelece.

Trair não pode ser a regra. Quer dizer então que estamos todos fadados a encontrar príncipes e princesas encantados na próxima esquina, caírmos de paixão, resolver dividir a vida e viver felizes para sempre. Mas atenção! O "para sempre", pessoal, é só no iniciozinho, ok? Passados cinco anos, você talvez não note que seu marido está ao seu lado querendo carinho; você talvez não note que sua mulher cortou o cabelo e está, toda animada, esperando um elogio seu; vocês se olharão como estranhos porque é isso que o dia-a-dia faz com pessoas que dividem o teto, problemas e contas a pagar. Não há desejo que resista. A carência se instala, a tentação de trair se mostra mais forte e quando você percebe: puf! Você estará dividindo a cama com sua secretária e sua mulher com o professor da academia. Quase uma suruba.

Respondam com sinceridade: é nisso que a gente tem que acreditar para não 'se iludir' com o sonho de um relacionamento a dois de qualidade? Alto lá!

Abaixo aos discursos engessados. Abaixo à standartização dos relacionamentos. Tem gente que trai sim, pelo visto 'tá cheio', mas tem casal fiel e satisfeito nesse auditório ou não tem?

Quero escutar quem é feliz e quem se empenha para que isso se faça possível. Quero ver casais apaixonados com dez, vinte, trinta anos de convivência. Ah, eles são exceção? Quero a exceção, então.

Felicidade não vem sozinha não, gente. Tem que cavar. Tem que cultivar. Tem que se empenhar. Gente precisa ser conquistada e reconquistada a cada dia da vida. Isso sim é um belo desafio. Se a rotina fez um casal apaixonado comportar-se com desdém e indiferença, eles têm mesmo que buscar a sua felicidade. Reaprender a ser só poderia ser um bom recomeço.
por Juliana Jacyntho, em 8/30/2004 07:38:40 PM





Abriu? Entre sem medo

Sabem o desespero que sentíamos quando, pequenos, cometíamos a travessura de mexer naquilo que não nos pertencia e que não sabíamos como funcionava e, numa simples apertada de botão a coisa pifava nas nossas ingênuas mãos?

Um computador do irmão mais velho, um estojo de maquiagem da mãe, um relógio do pai, enfim, objetos que despertavam a nossa curiosidade e o espiritozinho de porco adormecido dentro de cada um de nós.

Hoje, crescidos, continuamos apertando botões da vida por curiosidade e, às vezes, o desespero da infância se repete. Ao ser disparado, o botão faz soar um alarme ensurdecedor e uma luzinha vermelha intermitente de alerta: estamos em terreno desconhecido. E agora?

É uma situação nova em casa, no trabalho, na faculdade. É um novo relacionamento amoroso, uma nova amizade, um novo chefe. É uma nova empreitada profissional, exigindo de nossa capacidade criativa o maior empenho já requisitado nos últimos anos. Tudo isso acompanhado do famoso friozinho na barriga. Ansiedade. Apreensão.

Quem inaugura um novo canal de comunicação na vida não deve se deixar entregar ao desespero ou à insegurança, supondo que não saberá domar o desconhecido. Uma vez familiarizados com a nova situação, a ansiedade perde a razão de ser, a apreensão vira fumaça, a nossa auto-confiança se eleva e nos faz sentir prontos para um novo desafio, para uma nova porta aberta.

O desconhecido, hoje, é o nosso chapa de amanhã, aquele que poderemos cumprimentar com um leve tapinha nas costas, perguntar como vai tudo e já deixar agendado um almoço ou um choppinho no fim da tarde. Ou seja, já, já, ele é de casa.
por Juliana Jacyntho, em 8/30/2004 06:23:39 PM





Estraga-prazeres, fora!

Ah, os românticos... Encantam-se com Paris em vinte e nove polegadas. Encantam-se com o piano e a gaita que servem de fundo musical. Encantam-se com o champanhe borbulhando nas taças de cristal e os arranjos de rosas vermelhas que adornam o salão. Choram com o final feliz. Vibram com o beijo apaixonado.

É quando chegam no recinto o Áspero, o Duro e o Amargo. O Áspero diz: pra quê perder o seu tempo fantasiando? Fantasias não levam a lugar algum! Acorda!

O Duro escuta e endossa: vai procurar o que fazer, Romântico! Se existe alguma coisa na vida que dignifica a existência humana é a nossa capacidade de produzir. Pare de sonhar e mãos a obra, seu cabeça de vento!

O Amargo concorda e acrescenta: não vejo nenhuma graça em curtir a felicidade dos outros. Se eu não tenho momentos alegres, não me importo com os alheios. Pára de ser besta, Romântico!

Pobres Áspero, Duro e Amargo. Pobres de espírito.

Eles não são dignos de pena apenas por tentar apagar a chama dos desejos glamourosos do Romântico. Eles despertam compaixão por não serem capazes, eles mesmos, de sonhar com a beleza e a leveza da vida.

São desafortunados porque acreditam piamente que não são dignos de protagonizar momentos mágicos. Nem eles, nem ninguém ao seu redor. São infelizes crônicos que não têm a capacidade de auto-elevação às alturas, apenas através da própria imaginação.

Após tantos conselhos ásperos, duros e amargos, o Romântico pôs-se a deletar tudo o que escutou e, calmamente, dedicou-se, mais uma vez, à sua arte de contemplar, sonhar e desejar momentos mágicos no seu dia-a-dia.
por Juliana Jacyntho, em 8/27/2004 10:41:03 AM



Contra-senso

Não aprecio despedidas de vida em dias cinzentos. Não aprecio despedidas de vida em dias de sol. Simplesmente não aprecio essas despedidas. Como você. Como todos os que nos cercam.

Ninguém quer saber onde vai dar toda essa história. Ninguém quer ser lembrado, seja num dia cinza, seja num dia azul, que, um dia, vamos todos embora. Embora para o céu, embora para o inferno, embora para o purgatório, como acreditam alguns.

Ninguém admite que o destino, esse senhor egoísta indecifrável, bata à porta de nosso vizinho e anuncie: vem comigo, sua missão foi cumprida. Tempo esgotado.

E daí que você não se despediu de seus pais? E daí que você não beijou seu amor? E daí que você não comeu aquela torta de chocolate deliciosa que amava? E daí que você não ficou acordada para ver o rostinho do bebê que tinha acabado de trazer ao mundo? 'Eu não tenho nada a ver com isso, tenho que te levar comigo', diz o destino que se autoproclama Deus.

Postura lamentável a desse senhor, a de não conceder uma prorrogação neste jogo, não permitindo ao atleta bater uma bolinha a mais.

Para não correr esse risco, qual seja, o de levar um não na cara quando eu pedir 'Senhor, quero ficar mais um pouco', é que levanto uma bandeira aqui e agora: os dias que já vivemos com paixão serão inspiração para todos os seguintes.

Não hesitarei em dizer 'te amo'. Não pensarei duas vezes antes de abraçar e beijar meus familiares e amigos. Quero olhar tudo em minha volta e sorrir. Quero tomar água de côco e ver o mar e o pôr-do-sol laranja. Quero viver e ser feliz, enquanto meu visto de permanência não expira. Vem comigo?

Ah, impermanência... nunca por nós será aceita. Nem tampouco compreendida.

Para Silvinha, esteja você onde estiver.
por Juliana Jacyntho, em 8/25/2004 11:57:23 PM





Cinzinha básico

Dias cinzas são mal quistos do Oiapoque ao Chuí, na Itália e no Canadá, na China e no Japão. Para quem é do hemisfério norte então, socorro: o cinzinha básico deles de sempre é até apontado como causa de depressões sérias e, por vezes até, suicídios.

Céu azul, ao contrário, é louvado com palmas, sorrisos, praias e parques lotados. Convida a uma caminhada, uma escalada, uma namorada, uma esticada na grama ou na areia. Os nativos das terras de constante céu azul se mostram extrovertidos, bronzeados, alegres, iluminados pela luz solar que os acompanha desde a hora em que põem o pé para fora de casa até o último fiozinho dourado que resta ao entardecer.

Essa fama gostosa do dia de sol ofusca o brilho do cinzinha básico. O cinzinha básico tem seu brilho sim, como não? Dias cinzentos, chuvosos, frios e carregados convidam à introspecção. Convidam à uma sentada para um livro e um café. Um não, dois. Talvez um terceiro, acompanhado de um muffin com pingos de chocolate derretendo na boca.

É no dia cinzento que não precisamos levantar sorrindo, cheios de disposição. É no dia cinzento que não temos obrigação de seguir os padrões saudáveis da vida moderna que pregam academia e dieta. É no dia cinzento que não precisamos ir à praia ou ir ao parque para aproveitar o azul do céu. É no dia cinzento que ninguém tem a obrigação de ser feliz.

E porque precisamos de dias tristes e dias mais ou menos para saber valorizar os maravilhosos dias ensolarados de céu azul que a vida nos proporciona, que registro aqui o meu carinho especial pelo cinzinha básico. Necessário, chique, sóbrio. Assim como o famoso 'pretinho básico' que tanto sucesso faz no guarda-roupa nosso de cada dia.
por Juliana Jacyntho, em 8/24/2004 06:23:07 PM





A pátria de collant

Que pátria de chuteiras que nada! Na tarde de hoje o Brasil inteiro vestiu o collant junto com Daiane dos Santos.

Daiane, campeã mundial do aparelho solo na ginástica artística, cometeu algumas falhas no momento de sua apresentação e, para a tristeza de muitos brasileiros que pela vitória ansiavam, não subiu ao pódio.

Incrédulos com o desempenho que a delegação brasileira vem apresentando em Atenas, todos desejávamos mais uma medalha de ouro, de prata, de bronze, qualquer coisa que viesse enriquecer o nosso quadro, tão pobrinho, nesses jogos olímpicos gregos, escassez de títulos que nos deixa até desconfiados se os deuses andam de mal com o verde-amarelo.

Os jornalistas que cobriram a apresentação da ginasta brasileira puseram-se a entonar o mesmo coro ao fim da prova: não foi o dia de Daiane. Havia muita pressão pela vitória. Todo atleta falha, mesmo os campeões. Mas o quinto lugar já foi um ótimo resultado! Pareciam buscar consolo.

Sabemos que não foi um ótimo resultado. A própria Daiane também. Mas ela foi lá e fez o seu melhor. Mesmo assim, numa fração de segundos, um desequilíbrio qualquer e um passo indesejado para trás fizeram a vitória mais distante. Alguém treinou mais, alguém não teve o joelho operado há dois meses e, assim, como desdobramento lógico, esse alguém levou o ouro.

Para a gaúcha Daiane, hoje, não deu. Não rolou. Ela não foi bem. Mas nem por isso ela deixa de ser admirável. Prova disso foi a serenidade e a sensação de dever cumprido por ela apresentadas em entrevista, logo após a competição. Madura. Consciente. Agradecida. Positiva. Em paz, mesmo diante do burburinho das câmeras.

Diante de uma derrota na vida, pedirei hoje nas minhas orações noturnas, quero ser igual a Daiane dos Santos. Vitoriosa. Espirituosa. Uma guerreira. Com todas as implicações que o nome traz. Lutar, vencer, perder, mas continuar. Ser vitorioso é fazer parte do seleto clube daqueles que sabem enxergar que, não importa quão alta foi a queda, a sua trajetória de vida não se resume apenas àquele momento. Somos e podemos muito mais do que um só momento.
por Juliana Jacyntho, em 8/23/2004 05:20:58 PM




Créditos da foto

Todo dia é dia de índio

Manchete de jornal anuncia: Matou a família e virou índio! Como assim, cara pálida?

Andréia matou a família de susto e foi para um tribo indígena. Jovem mineira de vinte e quatro anos, estudante da faculdade de Letras, Andréia largou tudo para viver um grande amor. Apaixonou-se pelo cacique Kotoki e com ele foi viver no seio de sua tribo Camaiurá, localizada na região do Alto Xingu, interior do Mato Grosso. Kotoki, já casado com outras três esposas, caiu de amores pela mineirinha de pele branca, longos cabelos louros e olhos azuis.

Noticiada por um jornal de grande circulação nessa semana que amanhã termina, a história de Andréia intriga o homem comum: largar o que conhece como mundo, deixar de falar o idioma pelo qual foi alfabetizada, dividir o homem que ama com outra mulher (três outras!), abdicar do conforto e das comodidades da cidade grande... Afinal, de que tamanho é esse amor?

Interessados no caso, antropólogos puseram-se a estudá-lo e concluíram que a moça mineira vem se adaptando muito bem, portando-se como uma verdadeira primeira-dama da tribo ao receber visitantes brancos. Andréia estaria fazendo a ponte entre as duas culturas.

Amor que demanda a anulação cultural de um de seus protagonistas por completo já nasce com meio pé na cova. Pede para durar pouco. Pede para ser apenas uma linda e louca história a ser contada no futuro.

A individualidade de cada um é o que mantém aceso o interesse mútuo. Andréia apaixonou-se pelo que havia de diferente em Kotoki, algo que chamou sua atenção. Kotoki, provavelmente, apaixonou-se não só pelos atributos físicos diferentes da amada, mas também pelas qualidades trazidas na pessoa que Andréia é: fruto da cidade grande.

Estaria Andréia abrindo mão ad eternum da sua rotina cosmopolita para fazer um intercâmbio a prazo certo na aldeia indígena, enquanto curte uma paixonite típica da juventude? Ou estaria a moça decidida a incorporar a alma guerreira dos Camaiurá, propondo-se a comer beijus e peixe para toda a sua vida, deixando para trás sua família, seu curso, sua cidade, sua história, mas, enfim, vivendo uma nova história de vida na qual ela acredita? Muitas as possibilidades de resposta.

Quantos seriam capazes de grau tamanho de concessões para viver um amor assim? Desapegados de plantão, apresentem-se!

Àqueles nem tão desapegados assim, acalmem-se! Acaso acordem perdidamente apaixonados por uma indiazinha, um cacique ou um pajé, mantenham-se firmes na esperança! Pelo visto, esses amores interculturais não vivem só de concessões não. Andréia e o novíssimo computador instalado na sala de reuniões da tribo Camaiurá que o digam.
por Juliana Jacyntho, em 8/20/2004 11:53:50 PM




Créditos da Figura

Freak-show

A noitinha cai. É aquela hora em que estamos chegando do trabalho cansados, com fome, loucos por um banho relaxante e uma longa esticada de pernas. Uns o fazem diante da televisão. É aí que começa o problema.

Um programa traz vários homens e mulheres que nunca vimos na vida falando rápido demais, quase que se atropelando. Muitos deles terminam suas frases com um 'Deus te abençoe'. Tudo bem. Não conhecemos o tal do homem mas aceitamos a benção. E o programa continua.

Um fisiculturista dublê de humorista ressurge do anonimato e exclama: 'saúde é o que interessa, o resto não tem pressa! Issa'! Em seguida, um outro aparece na tela berrando 'chame o bombeiro'! Incêndio? Onde? Mas não pára aí. A variedade de lunáticos ou 'candidatos a' no tal do programa ainda nos brinda com o Pelé da praia, berrando não na praia, mas nos nossos ouvidos, dentro de casa. E também o surfista quarentão que reúne a sua tribo em sua volta e, em coro, bradam: Fulano é 'o cara'! Tem ainda aquele outro fulano que 'demorou mas abalou' e, por último, mas não menos notável, o Profeta, com direito a uma virgem barba branca.

Trata-se de novo humorístico lado B no sábado à noite? Poderíamos perguntar, curiosos. Mas infelizmente, não.

As figuras bizarras acima citadas são candidatos a vereador na cidade do Rio de Janeiro nas eleições municipais desse ano. E o programa non-sense que viabiliza a entrada dessas pessoas no nosso dia-a-dia é o programa eleitoral gratuito. É vergonhoso. Nessas horas, só rogando clemência à Nossa Senhora da Tevê Paga!

Saúde interessa, mas o resto tem pressa sim. Aliás, tem pressa enorme, 'é pra ontem'. Alguém avisa a esse senhor candidato que, embora segurança pública não seja atribuição do governo municipal, tem gente morrendo nos morros, vítima do tráfico de drogas, aliás, não só nos morros. As praias e lagoas estão mais poluídas a cada dia. A falta de investimento na política de transportes públicos e construção de vias alternativas impede o ir e vir do cidadão sem que ele tenha que perder minutos ou até horas do seu dia entocado dentro do carro. E tantas outras coisas que afetam a qualidade de vida da gente.

Não temos que chamar bombeiro nenhum. O vendedor carismático da praia não pode acreditar que será um bom político apenas pelo seu sorriso simpático. A 'galera' loura e bronzeada que aponta o surfista quarentão como 'o cara' não nos diz nada com isso. É 'o cara' que faz o quê? Que vai fazer o quê? Estamos interessados em propostas concretas, não em enigmas, por favor!

E o Profeta, se fosse bom nisso mesmo, teria previsto, com seus ultra-poderes, que o carioca pode ser maleável, sorridente, amigável, um povo simpático. Mas burro, tá longe. Que cariocas, paulistas, mineiros, baianos e brasileiros, em geral, não se deixem idiotizar fazendo parte desse processo eleitoral pastelônico, dando o seu voto pra essa gente. Se eles têm talento para o humor, que procurem o programa de tevê adequado para tal.
por Juliana Jacyntho, em 8/19/2004 11:50:36 PM





Mergulho no raso

Já ouvíamos desde pequenos que mergulhar no raso é prejudicial à saúde. É um supercílio aberto, é um corte no nariz, é, sabe-se lá e que Deus nos livre, uma lesão na medula nos impossibilitando a execução de nossos movimentos.

Escutar uma pessoa sábia é como mergulhar num mar profundo. Quem não se encanta com aquele que tem a capacidade de formular as frases corretamente? Quem não se encanta com aquele que tem o dom de concatenar as idéias de forma coerente e concisa, que apresenta fundamentos para defender o seu ponto de vista, ainda que com ele a gente não concorde? É um processo de construção belo, digno de admiração e aplausos.

Os executores desse processo nem sempre trazem na bagagem graduação em curso superior nem nada. Às vezes, são graduados apenas na escola da vida, mas seduzem porque sabem, com as palavras, tocar com sutileza a nossa curiosidade e deter nossa atenção. Só abrem a boca quando sabem o que estão afirmando. Não saem dando uma de Ofélia por aí apenas a troco de receber acenos de cabeça de sua platéia.

Escutar um falso-sábio é como mergulhar no raso: pode ser igualmente prejudicial à saúde. Detona a paciência, estressa, funde a cuca. Não pela complexidade do seu discurso, antes fosse, mas pela verborragia. Pela capacidade de fazer afirmações bambas, sem haste. Pelas risadas amarelas e solitárias após o término de cada frase. É o 'mala' in concert.

Dar pitacos sobre o desconhecido pode causar máculas irreparáveis na nossa credibilidade, não é mesmo? Nessas horas o silêncio é de ouro, cravado com diamantes. Jóia preciosa a ser guardada no cofre, com segredo e alarme. Isso e o que mais se fizer necessário para que a mudez estratégica nos resguarde do ridículo de não estar agradando e ser o único no recinto que não enxerga esse fato.
por Juliana Jacyntho, em 8/18/2004 07:46:35 PM





Quando o poder não lhe cai bem

Coisa que mexe com a cabeça de um homem é o poder. Mexe para o bem, mexe para o mal. Há quem saiba administrá-lo, utilizando-se do seu poder de forma dosada e pensada. Há aqueles, porém que metem os pés pelas mãos e abusam, perdem a noção de ética e respeito alheio diante da força que conquistaram.

É o poder político. É o poder familiar. É o poder de persuasão. É o poder de sedução.

É o governante que não sabe exatamente o que está fazendo ali naquele lugar e extrapola os limites legais, viola os próprios princípios pregados durante a campanha, condena toda a sociedade ao retrocesso. Tudo através da má utilização do poder que lhe foi conferido pela mesma sociedade. Mas o poder era para organizá-la, não, ao contrário, desorganizá-la. Mas o governante, diante do poder, não mais se lembrava desse detalhe.

É o poder dos pais sobre o filho, mal exercido quando chegam em casa nervosos, sobrecarregados com o dia de trabalho estressante que experimentaram e, diante dos questionamentos da criança, esbravejam, gritam, assustam, o que poderia ser evitado se eles tivessem o cuidado de enxergar que o poder-dever de educar deveria vir sempre revestido de carinho, atenção, paciência, dedicação, ensinamento. Mas talvez entre um uísque e outro, entre uma aula de spinning e outra, eles tenham se esquecido disso.

É o homem dotado de poder de persuasão que dele abusa, induzindo os que o cercam a agir conforme a sua vontade e o seu interesse. Manipula. Ao invés de viver, joga. Confunde a vida com um tabuleiro de Banco Imobiliário. Se tivesse canalizado esse seu poder para o bem poderia mover montanhas a favor do progresso da sua cidade, do sucesso de sua comunidade. Mas não. Por ilusão, achou que poderia subir ao topo sozinho, utilizando mentes vulneráveis como degraus.

É a mulher que se sabe atraente, se sabe sensual e que joga charme como ninguém e desse poder se utiliza para se dar bem na vida. Um olhar mal intencionado aqui, uma saia curta ali, e, numa só noite, faz um desavisado carente que se acha o esperto assinar um cheque milionário em branco, nominal àquela recém-conhecida que, em breve, será a respeitável Sra. futura mamãe de um filho seu.

Esses são apenas poucos dos muitos exemplos de desvirtuamento dos poderes que a vida concede a todos nós, todos os dias. Saibamos nós administrar a nossa quota de poder de forma coerente, justa, séria. Que não seja um de nós o escolhido para engrossar esse rol patético que apenas contribui para a involução da nossa espécie.
Brindemos ao contrato de parceria celebrado entre o nosso 'eu poderoso' e a vergonha na cara! Tim-Tim!
por Juliana Jacyntho, em 8/17/2004 11:14:29 PM





Começa assim

Do começo. Um talvez já tivesse até cruzado com o outro na rua, num café, num boteco recheado de mesas de amigos tomando um chopp após o trabalho. Nem notaram. Nem notariam, poderiam até mesmo estar acompanhados de Outro alguém.

Mas depois daquele dia, Outro alguém virou história. História boa pra contar e relembrar, tão somente. Ou história ruim pra não ser relembrada porque doiria. Mas história, abrindo caminho para que novo capítulo fosse escrito no livro da vida de duas pessoas. É quando elas se cruzam novamente.

Ela, chegando do trabalho, exausta, descabelada, usando um terninho sério que ela não usaria em situações de conquista. Ele, voltando de uma corridinha na praia, suado, com uma camisa de malha velha e esgarçada e um bermudão em estado ainda mais deplorável. Mas, ainda assim, aconteceu.

Chamou a atenção. Olho no olho. O desejo aflorou. Interesse mútuo. O terninho, para ele, pareceu sedutor. A roupa velha de corrida, para ela, mostrou-se igualmente adequada.

Três anos depois desse encontro, um bebê e um casamento no meio, hoje eles concluem que não importa o momento, não importa o lugar, não importa o que você estiver vestindo, tudo converge.

Você pode estar exausta, com a maquiagem derretendo. Você pode estar suado usando um tênis sujo. Indesejavelmente, você pode estar com uma alface entre os dentes, depois de um almoço corrido no trabalho justamente naquele dia em que trocou de bolsa e esqueceu de pôr o seu kit-higiene.

Ainda assim, se for para acontecer, tudo convergirá para o encontro.

Se for o dia de encontrar o homem ou a mulher da sua vida, não duvide: nem que seja na última hora da jornada, o destino dará um jeito de colocar vocês dois frente a frente. E fará com que vocês percebam a importância de momento tão especial. Sim, porque coisa rica assim não passa despercebida não.

Aí, então, relaxe. Não maldiga a alface, o rosto brilhante, o cabelo que parecia ter vida própria, o tênis sujo.

Tudo terá ocorrido do jeitinho que era para ter sido. Perfeito. Especial. Engraçado. Seu. De vocês dois, agora. Mas é preciso acreditar. Felicidade assim não aparece para quem não acredita que ela é possível.
por Juliana Jacyntho, em 8/16/2004 08:03:03 PM




Créditos da figura

Arma muda e eficaz

Já diz um sambinha cantado com maestria pelos componentes da Velha Guarda da Portela: "o desprezo é uma arma perigosa, é pior que uma seta venenosa".

Dói passar por alguém que lhe foi caro nessa vida e não ser notado, não ser contemplado com um simples olá. Dói não receber desse alguém um telefonema no dia do seu aniversário, desejando parabéns, tudo de bom. Nossa, como dói.

Como dói ser desprezado, mas como dói ainda mais desprezar. Para desprezar alguém é preciso que, antes, ele seja prezado. Um prezado amigo, um prezado amor.

Não deve ser fácil a tarefa de ignorar a presença de alguém que, antes de te ferir e merecer sentimento tão árido, era um amigo considerado fiel. Não deve ser fácil fazer de conta que aquela pessoa é apenas mais um fantasminha vagando sem destino. É, não deve ser.

Estando na posição de desprezador ou desprezado ou mesmo de terceiro voyeur, acho que todos concordamos que pode até doer, mas o desprezo funciona.

Funciona como puxão de orelha, se ministrado em gotas, quando damos uma mancada na vida. Funciona como arma classuda de resposta para quem de nós esperava explosão e barraco.

É, para o ofensor, o recado de insignificância: "você não vale o esforço exigido pelo meu corpo para formular uma frase. A você, o silêncio".

Ui! Não é cruel? Sim, é verdade. Também é verdade que a vida é bela. Mas tem dias em que ela acorda e se olha no espelho e se acha muito despenteada e cheia de olheiras.

Raivosa, ela belisca espíritos de porco, que aprontam. Esses que aprontam merecem respostas, cruas ou não. O desprezo é apenas uma delas.

Portanto, revide cru e cruel num mundo de ataques cozidos, premeditados e igualmente cruéis ou mais é que nem ladrão que rouba ladrão: cem anos de perdão. Eis a nossa absolvição.
por Juliana Jacyntho, em 8/13/2004 08:48:32 PM





Palco democrático

Tem gente que nasce para ser coadjuvante mesmo. Será? Se dobra a caprichos alheios, se anula por um parceiro, engole tantos sapos e se penitencia tanto por isso que nem cem anos de análise lhe tirariam o peso da culpa. Culpa de se submeter, de ser subserviente a todo tempo, o tempo inteiro.

Esse perfil, na maior parte do tempo, cede sem querer ceder. Escuta sem querer escutar. Serve sem querer servir. Se dobra contra sua própria vontade. Então porque o faz? Necessidade de se sentir útil. Incapacidade de dizer não. Acata ordem alheia por que acha que tem a obrigação moral de acatar, mas não porque assim deseja.

Esse comportamento é nocivo para os dois lados: para quem se acostuma a tirar proveito daquele menos articulado, revelando-se um tirano, e para o menos articulado, que vai cultivando uma bomba-relógio de indignação engasgada, travestida de resignação. Se um dia explode, abre fogo numa escola, numa sala de cinema. Abre as portas para o fim da própria vida.

A vida é um palco democrático, todos temos o direito de brilhar, todos temos o direito a um lugar ao sol, todos temos o direito de ser protagonistas dessa peça chamada dia-a-dia, nem que seja por parcos quinze minutos.

Se você anda engasgado com o abuso emocional alheio, cuspa-o e se livre desse fardo! Fuja de quem te suga para as profundezas, emerja e conquiste o seu lugar na ribalta. Mas lembre-se: uma vez lá, não pise em capachos, não pise em tapetes persas, não pise em ninguém. Flutue, elegantemente.

Se você anda montando no lombo das gentes engasgadas, cuidado! Recue. Amanhã, ao invés de rei você pode ser o trono e a sensação de estar por baixo, tolerando o peso do outro, poderá não ser das mais agradáveis. Se há um consenso nessa vida é o de que ela adora dar voltas. Voltas e mais voltas. E numa dessas, tudo pode mudar.
por Juliana Jacyntho, em 8/12/2004 11:05:30 PM





Estamos em 2004, certo?

Ou fui teletransportada junto com o Michael J. Fox sem comunicação prévia? A notícia corre pelos quatro cantos da cidade: Eles voltaram! Quem? Os anos oitenta, assombrando a todos com suas ombreiras, maquiagens fortes, cabelos emplastrados de gel e polainas de lã.

Ouvi dizer que o responsável pelo ecoar do canto saudosista seria o filme sobre a biografia do Cazuza. Menos, penso eu aqui com meus pijamas. O próprio Cazuza ia achar isso tudo uma falta de criatividade só. Além do que um filme sozinho não teria o condão de ressucitar toda uma década. Outros interesses, por óbvio, pautam esse boom oitentista.

O Noites Cariocas, projeto que realiza shows no Morro da Urca foi relançado, com grande sucesso. O Circo Voador, berço do rock parido pela geração anos oitenta foi reaberto. Gravadoras prensam novamente coleções da época como "A arte de". Cria-se uma demanda e o público, carente de novidade, aceita.

Não é que os anos oitenta foram demais, bacanérrimos, poço de cultura. Os atuais, dentro de suas possibilidades, também são. Há gente nova e boa cantando e querendo ser ouvida. Há comida boa querendo ser degustada. Há novos barzinhos que estão lotados e merecem nossa visita. A moda de hoje é bonita também. Mas sabe-se lá porque cargas d'água convencionou-se que os anos oitenta iam ser revisitados e considerados cult em 2004. E talvez nem o seja durante o ano inteiro. 2004 tem pressa, assim como todos os anos dois mil.

Talvez esteja aí a resposta para o saudosismo. Cansados da pressa, do descartável, da rapidez com que as coisas e pessoas vêm sendo substituídas, amigos descrentes estão migrando pra trás. Só que, ao lado dessa ditadura da mudernização, há encanto, há balanço, há brilho, há miolos em ebulição. Aqui em 2004. É só olhar pro lado com mais cuidado, mais paciência.

Recordar é viver e dessa máxima eu compartilho, desde que com reservas. Somos do nosso tempo. Somos responsáveis por estes anos dois mil e eles estão aí para serem vividos. Agora. Hoje. Ficar com o dedo grudado nessa tecla rewind vai é impedir que nosso filme ande. Sem essa.
por Juliana Jacyntho, em 8/12/2004 01:36:31 AM





Fora daqui, excesso de mim!

Incrédula fiquei e assim permaneci, ontem, ao constatar a variedade de programas produzidos na televisão paga que propiciam a gente comum, como eu e você, a realização de um sonho.

Ser pianista, falar francês, integrar uma companhia de balé russo, publicar um livro? Não, não são destes sonhos que os programas em questão tratam. Tratam de estética, de cirurgia plástica, de padrões de beleza e comportamento.

Um protagonista vem ao programa fazer a tão badalada cirurgia de redução de estômago. Mais que beleza, ele quer saúde e qualidade de vida.

Outro vem consertar o nariz que a natureza lhe deu e que ele considera desarmônico com "o seu todo". Uma quer próteses de silicone, pela segunda vez. Outra quer aspirar gramas de gordura que indefinem sua silhueta. E por aí vai.

Quem se submete a uma intervenção cirúrgica plástica quer ficar bem consigo mesmo. Quer poder se olhar no espelho e sentir tesão pela sua própria pessoa, o que lhe trará auto-confiança.

É um afago na auto-estima, no próprio ego. É apenas o exercício de um dos deveres mais importantes de cada um de nós: o amor próprio, embora muitos disso se esqueçam e a cabeça começa a pifar. Faz bem quem se faz bem.

Os programas, na sua totalidade, se comprometem em satisfazer o desejo de cada participante e, ao mesmo tempo, se comprometem em satisfazer a curiosidade mórbida de quem aos seus episódios assiste.

Parece um circo.

Tudo é mostrado, sem cortes. Cheios de cortes, aliás!

É uma incisão sem dó no seio, outra profunda no lábio. É serrote no meio do nariz. É sangue pra todo lado, capaz de fazer Tarantino morrer de inveja.

E a gente ali, se entretendo com mais um programa de televisão, saquinho de batata chips e copão de coca-cola na mão, sedentos de curiosidade para ver a comparação entre o antes desgovernado e o depois repaginado.

A partir de quando nessa vida severina o desconforto alheio passou a valer como entretenimento? Me respondam, porque esse capítulo da novela eu perdi.

Se alguma motivação legítima nos impulsiona a conferir esse tipo de programa, só pode ser a de querer assistir o sofrimento que compensa, o final que dá certo e que traz satisfação. O tão conhecido e batido final feliz.

No fundo, entre bisturis, pontos cirúrgicos e sorrisos engessados, somos todos uns românticos incuráveis.
por Juliana Jacyntho, em 8/11/2004 12:21:05 AM





No fim dessa rua, uma avenida

Escolhi um disco da Rita Lee para me entreter no trânsito hoje. Muito bom, como sempre ela é. Mas fiz questão de fazer uma espécie de terapia de choque com meus ouvidos: coloquei uma das músicas no modo repeat. E fiz bem.

Um dos versos dessa canção dizia que a vida é, digamos, uma malha viária. Você percorre uma rua e chega ao final. Só que aí vem a grande surpresa: depois dessa rua aparece uma grande avenida a ser percorrida. Quem ousa discordar do sábio letrista? Eu não.

A vida nos coloca diante de situações que exigem jogo de cintura, diplomacia, disciplina, sorrisos, inteligência, boa aparência, conteúdo e muitos outros atributos.

Quando pensamos que preenchemos os requisitos e "está tudo dominado", lá vem a vida nos avisar que não há tempo para descansar não. Novo desafio bate à porta. Novo sonho quer ser implementado. Novo obstáculo pede superação. E lá vamos nós de novo iniciar o trajeto.

Há aqueles que se recostam na poltrona e bendizem o conhecido rotineiro. Não conheço muitos.

Outros, em contrapartida, anseiam por mudanças a todo tempo, anseiam por novas ruas e avenidas a serem percorridas, ou mesmo por novos veículos que viabilizem o percurso da mesma avenida só que com mais desempenho ou com mais conforto ou com mais economia. Economia de erros.

Será que é da natureza humana a inquietação, a busca pelo novo, pelo surpreendimento de si mesmo?

Acredito que sim. É a superação de nossos próprios limites, é o teste da elasticidade de nossas capacidades que trazem brilho aos olhos, rubor à face, vontade de seguir em frente. Nenhum ser humano pode ser condenado ao tédio ou a acreditar que já percorreu a rua inteira da sua vida.

Todos temos o direito a dobrar as esquinas e topar com novas pistas de asfalto liso, canteiros floridos e placas sinalizando: Reduza! Felicidade a 50 km.

Todos temos o dever de não esmorecer se, ao dobrarmos a esquina, toparmos com pistas esburacadas, enlameadas e assustadoras. Essas pistas são apenas boas estradas camufladas que também nos levam à felicidade e mais: revelam nossa vocação natural de lutar e, no fim, dar certo.
por Juliana Jacyntho, em 8/9/2004 06:21:26 PM





Mas não nos passem no pão.

Escuto uma música. Meu olhos se enchem e não suportam o volume d'água. Transbordam.

Se topo com um pirralho de cinco anos vendendo bala no sinal, eles transbordam. Se te olho nos olhos, transbordam de novo. Programa de tevê homenageando aquele ator de setenta e sete anos de quem ninguém mais se lembra? Transbordam também.

Tem dias que transbordo, não caibo em mim. De tanta felicidade, de tanta saudade, de tristeza sem motivo ou motivada.

Há épocas que propiciam o choro, concordo. É uma despedida, ainda que breve seja o reencontro. É o dia das mães pra quem não tem uma. É o dia dos pais pra quem não o tem mais. É o dia dos namorados para quem o cotovelo dói. É Natal, é Ano Novo.

É uma vitória, é um beijo apaixonado. É um colo, uma TPM que chega sem avisar ou que avisa semanas e semanas antes, através desse código lacrimal.

É uma perda irreparavél, um ganho sonhado em anos. Choramos por muitos motivos. Uns mais, outros menos. Uns se escondem, não admitem ser vistos. Outros choram quase que pedindo "prestem atenção em mim"!

Há aqueles que riem do próprio choro, não compreendem porque choram. Se riem, é porque choram por coisa boa, senão não haveria lugar para o riso. Ou é porque choram de nervoso, eu conheço gente assim. Gente que, diante de uma situação preta, ri quando não sabe se ri ou se chora, opta pelo primeiro. Ou pelos dois.

Dizem que chorar faz bem, lava a alma, põe os demônios pra fora. Pode ser. Pode ser engraçado, pode ser doloroso, mas passa, disso sabemos.

Enquanto não passa, respeitemos o momento. O nosso e o alheio.

Derreto eu, Derreta você, Derretamos nós, manteigas desse mundo. E que nenhum estraga prazer venha com a faca e o pão na mão abafar esse nosso momento de faxina interna.
por Juliana Jacyntho, em 8/6/2004 02:13:28 PM





Empacar por um dia vale a pena

Quantos de nós já não fomos flagrados imersos num período de maresia intermitente, numa inércia inexplicável em que o único comando de nosso cérebro para nossos músculos é: "só mais um minutinho, já vou, daqui a pouquinho eu faço isso"?

Não estamos sós. A maioria da população se encontra sempre ocupada com suas obrigações diárias e prazos a serem cumpridos. Sonhos e projetos reclamam realização. A cabeça acompanha ou pelo menos tenta acompanhar toda essa demanda, é necessário. Mas tem dias em que as engrenagens parecem não querer funcionar. Trava tudo.

Trava o dispositivo criatividade. Trava o dispositivo paciência. Trava o comando "vou me exercitar mesmo debaixo dessa chuva". Trava. Apenas duas alavancas se exibem dispostas a funcionar: a da contemplação. E a da observação. E talvez a do levantamento da caneca de café. Afinal, as idéias têm que brotar, ainda que hoje não sejam colocadas no papel, quem sabe amanhã?

O ápice desse descanso mental chega ao escurecer. Mas que contradição! É só fechar os olhos que nossos sonhos trazem de volta o turbilhão de idéias. "Amanhã temos trabalho!", diz um neurônio. "É, e dessa vez, sem corpo mole", replica outro, entediado.

O Chefe deles, satisfeito, brada: "Boa noite a todos, valeu a pena! Não se esqueçam que ainda nos resta aproveitar os parcos minutos desse dia em que paramos para olhar o mundo. E como é bom olhar o mundo. Que amanhã chegue logo, nos sentimos prontos novamente"!

E o amanhã chega logo em seguida e nos ensina que a vida pode ter muitas verdades que não conhecemos, mas ontem uma delas nos foi apresentada: a de que todos precisamos de um dia em branco para respirar e nos inspirar para fazer do seguinte um outro dia bem colorido. Simples assim.
por Juliana Jacyntho, em 8/5/2004 03:56:42 PM





Por Tia Lídia*

Ana, a mulher de pulôver laranja

Costumo ir, religiosamente, às segundas feiras, à feira livre que tem em meu bairro. É o momento de encontrar vizinhos queridos, conhecidos nem tanto, momento de observar, coisa que vocês sabem, queridos, adoro fazer.

Pois então. Nessa segunda-feira gelada me dirigi à minha tão prezada feirinha. Enquanto desdobrava minhas atenções em escolher alguns tomates vermelhinhos e pimentões amarelos e conversar com o Juca, feirante que já é de casa, uma pessoa me chama a atenção.

Sentada no meio-fio, embaixo de uma placa de estacionamento, a mulher de meia-idade, suja, descabelada, mas vestida com um impecável pulôver de lã laranja, vê a vida passar. Todos por ela passam, ninguém se incomoda com sua presença. Ninguém a incomoda ao passar.

Eu paro e resolvo observar.

Ela se levanta, encosta numa Kombi. O motorista a repele. Ela sai andando. Segurando um saco preto de plástico ela retorna para sua placa.

Inquieta e curiosa, me aproximo. Pergunto qual o seu nome e o que faz ali. É quando ela me responde:

-- "Me chamo Ana. Sou descendente de uma importante família real européia a qual não sei precisar exatamente a origem. Como meus irmãos, sou filha bastarda de um antigo imperador, riquíssimo e poderoso. No entanto, pelas vicissitudes da vida, cá me encontro: sem teto, sem comida, sem amigos ou família. Mas não me abalo. Aceito meu destino com resignação".

Qual não foi a minha surpresa ao ouvir as palavras daquela mulher. Português correto, dicção perfeita, olhos de um azul profundo que, se olhados com retidão, eram capazes de hipnotizar. Pergunto à Ana se ela precisa de ajuda. Ela me diz:

-- "Não sinhora, num carece não. Tô só esperando meu marido voltá da catada com mais uns amigo, pra mó da gente rumá pru caminho de casa".

Me espanto! Onde foi parar aquela mulher que, há minutos atrás, falava bem e se dizia um exemplar da nobreza européia? Fiquei pensando eu, incrédula. Desconfiei até se aquilo não se tratava de uma brincadeira.

Foi quando o Juca, sorrindo, veio em meu socorro:

-- "Ô Dona Lídia, não perca não seu tempo com essa mindiga doida... Ela baixou aqui hoje, ainda de madrugada, enquanto a gente tava montando os trailer, a gente tá tudo achando que ela tem dupla personalidade, sabe"?

Acatei a informação de meu conhecido. Olhei mais uma vez para Ana, se é que esse era mesmo o seu nome, e ela sorria. Cheirava o pulôver laranja que, aos meus olhos, parecia bem lavado, e sorria. Sorria como se não estivesse presente àquela cena.

Voltei para casa com meus tomates, meus pimentões e meus miolos fervendo de curiosidade: "Qual a verdade sobre aquela mulher"? E se sua história de nobreza for verídica? Ou era ela a mulher humilde de origem pobre, semi-analfabeta, que aguardava o marido catador de papel? Não sei. Não tenho como responder nem a mim nem a vocês.

Do alto dos meus sessenta e poucos anos, só uma coisa posso dizer da cena que presenciei: o olhar alheio fixo no vazio marca a mente da gente. Quero sempre poder continuar olhando fixo em alvos certos, expressando-me em palavras escritas e faladas com a mesma precisão. Obrigada, Senhor, pela minha lucidez. Conserve-a até o fim dos meus dias que grata serei.

* Tia Lídia é jornalista aposentada, hoje trabalha como freela, escrevendo colunas e crônicas para jornais, revistas e blogs, como o Balanço! Gosta de escrever sobre os outros e suas vidas. Mas às vezes escreve sobre a dela também.Tia Lídia mora no Rio de Janeiro, em algum lugar do meu cérebro.

Post-scriptum: Novas fotos no Vejam Viram, para quem ainda não viu.
por Juliana Jacyntho, em 8/4/2004 03:24:50 PM





É um pra lá, um pra cá*

Toda separação é dolorida, ainda que bem resolvida. Prefiro as bem resolvidas. Aquelas em que se olha nos olhos sim, em que se diz tudo o que se tem pra dizer sim, em que se abraça e é abraçado com carinho porque se respeita o tempo em que o outro permaneceu na sua vida sim. Cena de separação que nos faz entender que aquilo é, de verdade, um ponto final.

No dia seguinte, pode doer. No dia seguinte pode trazer alívio. Se doer, passa. Se trouxer alívio, acreditem, já passou a dor. Talvez porque tenha doído suficientemente o bastante enquanto estavam os dois juntos. E se já doía tanto enquanto estavam juntos é porque talvez não podia mais ser chamado de amor, embora um dia acreditassem piamente que aquilo era. Amor. Não era não. Pelo menos não um desses exemplares que nos fazem enxergar o futuro como possível.

Pode ter sido um amor com tempo certo de duração. Amor necessário ao crescimento e amadurecimento de ambos. Amor-ponte. Ponte que, se atravessada, aguça os sentidos e nos leva a um outro amor. Este sim, de verdade. Este sim, pra todo o sempre, quem sabe?

E, de repente, nos enxergamos aptos a recomeçar. Toda uma outra história. Tudo de bom de novo. Com uma outra pessoa que se torna extremamente importante na nossa vida.

Então rezamos e pedimos para que não sejamos protagonistas de uma nova cena de separação. Não, não. Não com esse novo amor que queremos pra vida inteira.

*Agradeço à Patileine a inspiração. Esse texto começou numa janela de comentário do seu muito bom Meninas de 30

# Outra coisa:

Sei que sou fã e minha opinião é suspeita. No entanto, quem ainda não leu a coluna da Martha Medeiros "O fantasma da Ex" no site Almas Gêmeas (link ao lado) está perdendo. Pedagógico.

# Só uma outra coisinha:

Tem novas fotos no Vejam Viram! Passem lá!
por Juliana Jacyntho, em 8/3/2004 02:12:23 PM





Que amizade é essa, meu irmão?

Ontem assisti a um filme anglo-alemão de guerra. A guerra, na verdade, era apenas pano de fundo para que fosse contada a história de dois grandes amigos, pilotos tchecos, que se apaixonam pela mesma mulher. Um deles se apaixona por ela primeiro. Mas entre eles há o abismo de uma enorme diferença de idade.

O bolo desanda quando esse piloto novinho tem a brilhante idéia de levar o seu instrutor e melhor amigo para conhecer a tal mulher por quem ele andara caído de paixão. A mulher se apaixona pelo melhor amigo e os dois se envolvem, tudo isso pelas costas do piloto mais novo.

O piloto mais novo descobre. Fica passado, quebra a cara do amigo, bebe noites a fio, passa noites em claro. O amigo pede perdão. Ele faz que não entendeu e não perdoa. E seguem assim: um bom dia cá, um boa noite lá.

Até que um dia, em combate, o avião do mais velho cai em alto mar e o seu bote inflável, após inflado, estoura. O piloto mais novo, tentando não se envolver com a cena, ensaia, apenas, um comunicado com a base pelo rádio para que fosse enviado socorrro. É quando percebe que os fios de seu rádio estão danificados. O pedido de socorro nunca seria recebido e a ajuda para o seu ex-amigo, ali, em apuros, nunca seria enviada. O que ele faz?

Infla o seu próprio bote, voa raso e rente ao mar para atirá-lo ao ex-amigo em apuros. É quando a asa do seu avião bate na água e um acidente fatal lhe tira a vida. O ex-amigo, ali, em alto mar, fica sem entender o que o ex-pupilo acabara de fazer. Só entende o brilhantismo do ato quando emerge das profundezas um bote amarelo inflado, prontinho para salvar-lhe a vida. E nele ele sobe. E nele ele chora a perda do amigo e se emociona com gesto de tamanho altruísmo.

Amigos assim que levam na cara e oferecem a outra face ou a própria vida eu não sei se tenho. Nem sei se quero ter. Nem sei se sou um deles. Mas foi um filme bonito.
por Juliana Jacyntho, em 8/2/2004 12:29:10 PM



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