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E para estes seqüestradores, não tem cadeia?

A primeira vez que tive contato com a expressão "sequestro emocional" foi há um tempo, assistindo a uma entrevista na televisão paga. Lembro-me que, na época, o assunto me despertou muita curiosidade e me pus a perceber situações onde o tema personificava-se. Em pesquisa na web, encontrei uma definição: "quando alguém é submetido a uma violenta emoção, fica furioso e pode cometer atos irracionais. Depois, dirá que “perdeu a cabeça” e que sentiu como se ela estivesse explodindo. Essas explosões emocionais são conhecidas pelos especialistas como “seqüestros neurais” ou “seqüestros emocionais” e também chamados de “seqüestros da amígdala”. Mas não era sobre isso que falava a entrevista que vi, mas de pessoas que, utilizando-se de mecanismos de manipulação, está sempre por perto apoquetando a vida de alguém, que não consegue se liberar da mala. Num primeiro momento, pensei tratar-se da tão batida chantagem emocional, técnica horrorosa de atingimento de objetivos através do constrangimento e plantio de algo não menos horroroso chamado culpa, utilizada, ainda que inconscientemente, por pais, filhos, casais e amigos que, vez ou outra, se pegam exigindo atenção. Parece que todos temos dias de carentes profissionais e maiores abandonados, o que não é crime algum. É só chatice passageira. O crime é outro.

Sequestrador emocional dos bons é aquele que se diz seu amigo mas que vive te relembrando uma derrota que você mesmo já se esqueceu, vive arrumando um jeitinho persuasivo de plantar uma dúvida infeliz na sua cabeça. Ele é meio grosseiro nas palavras, meio estraga-prazeres, mas sempre afirma "estar sendo muito sincero". É aquele tipo que se esquece de você quando tudo vai bem, mas não perde a oportunidade de ser seu "conselheiro-mor" quando tudo vai mal, sempre com teorias de divã prontas, que se encaixam com o momento. Com seus conselhos, ele faz você pensar que ele é necessário, mas no fundinho tem um quê de invejoso. E de destrutivo. Parece que se alimenta da derrota alheia, talvez porque ele próprio e sua vida sejam isso: uma derrota. Quando você se esquece da existência do infeliz: trim-trim! Toca o telefone e é ele, querendo, mais uma vez, apoquentar sua paz.

Você enxerga que a postura desse seu amigo te incomoda. Enxerga mesmo que nem seu amigo o coitado é de verdade. Mas algo não te permite reconhecer isso, talvez o tratamento que este amigo te dispensa: ele se mostra uma ótima companhia quando sente que não está agradando, intimidando que você diga, em alto e bom som: sinceramente, sua presença e seus telefonemas não me acrescentam, seus palpites sobre minha vida não me interessam e, além disso, acho que você transmite uma Senhora energia negativa. Portanto, vá de retro, misifi! Você engole tudo. Não consegue dar o fora no sujeito, seqüestrado que está. E opta por tolerar esta presença seca-pimenteira-disfarçada-versão-2004 no seu dia-a-dia.

Pena? Vergonha? Falta de jeito para falar umas verdades? Política da boa vizinhança? Talvez. E a culpa não é sua de não conseguir se desvencilhar desse tipo de gente. Eles não dão folga, não abrem brechas, não dão chance ao descarte, sempre muito atentos. Mas eles não são para sempre. Uma vez descoberto o porquê de mantermos pessoas assim na nossa rotina, mais fácil será o afastamento. Vale meditar sobre o dia em que o incômodo causado pelo sequestrador for maior que a sua boa vontade em permitir que ele ainda participe de sua vida. Neste dia, lembre-se de se livrar deste encosto, do seu jeito: seja dando um fora, seja na sutileza, seja falando, seja escrevendo, seja sumindo. Vale tudo, contanto que o desabafo saia da garganta. Sejam palavras, sejam gestos, não interessa. Interessa que o meio escolhido seja eficaz para demonstrar sua insatisfação e para infomar a ordem de despejo a estes seres pequenos que insistem em rastejar ao redor do seu jardim. Fora. Cadeia neles.

Para seqüestradores emocionais a cadeia é a liberdade: é todo o mundo lá fora. Fora de nossas vidas.
por Juliana Jacyntho, em 9/30/2004 01:21:27 PM





Estão servidos?

Relacionamentos para nosso coração são como refeições para nosso estômago.

Podemos falar aqui de casamentos nouvelle cuisine, namoros fusion, uniões rabada (ou seria roubada?), encontros strogonoff e tantos outros. E não só o campo dos amantes remete à gastronomia. Temos amizades que também se identificam com pratos saborosos ou indigestos, de acordo com o prazer proporcionado pela companhia alheia. Somos todos uns pratos.

Queremos amores românticos e perfumados à luz de velas. Queremos, portanto, culinária francesa: tudo preparado com cuidado, dispensando atenção para o mínimo detalhe, de forma a impressionar o maior número de sentidos: olfato, visão, paladar. Sabor, apresentação e textura impecáveis. Um luxo.

Uns querem amores modernos, um mix de romantismo com larga do meu pé de vez em quando. Também nos restaurantes da cidade encontramos opções assim: ingredientes pinçados de um sem número de culturas e mesclados num mesmo caldeirão. Um mexidão cultural. Um amor mexidão. Mexe dali, mexe daqui, até ficar azeitado, com todas as engrenagens funcionando em sintonia satisfatória.

Não poderíamos deixar de lembrar, é claro, dos itens neutros na cama e na cozinha. Pratos e amores beges: simplinhos, satisfazem, mas estão longe de causar algum tipo de frisson dentro da gente. Digam aí: é o miojo, o strogonoff de frango, o feijãozinho sobre o arroz soltinho. Não são uma beleza? Podem ser. Mas também pode ser que um dos comensais queira experimentar algo mais picante ou mais elaborado de quando em vez, deixando o miojinho triste e desapontado. Coisas da vida. Vida que nos oferece opções para todos os gostos e paladares.

Paladar. Quando este sentido tão caro nos foge, é que a situação fica preta. Para o estômago, para o coração, para a paciência. Eu pedi pato ao molho de frutas silvestres, não rabada. Ainda assim, lá está você: saboreando uma rabada básica na falta do seu canard aux fruits. Ansiedade? Fome? Desespero? Será que seu coração - e o seu estômago - não poderiam ter esperado o prato certo? Resposta: às vezes não.

Às vezes nossos órgãos no pregam peças, induzindo-nos a experimentar pratos, pessoas e sensações que não estavam no nosso script, e disso só nos damos conta quando sentimos aquele mal-estar típico que segue a orgia alimentar. Sal de fruta? Sim, uma dose por favor, mas só por hoje.

Amanhã o remédio é outro e o nome dele é perspicácia.
por Juliana Jacyntho, em 9/29/2004 01:50:04 PM



A Turma indesejável dos is

Às vezes a preguiça puxa a gente pelo pé. Não nos deixa saltar da cama na hora certa, não nos permite uma refeição matinal saudável e gostosa, nos força a sair de casa com cara de transantontem. Nós? Nos dobramos à sua força ou pedimos licença.

Às vezes a preguiça não está só. À ela se junta uma tal de indisciplina que faz com que saiamos adiando tudo o que pode ser postergado, ignorando a máxima que já conhecemos há tantos verões: não devíamos deixar para amanhã o que podíamos ter feito hoje. O estrago é maior quando a indisciplina convoca toda a sua turma: insatisfação, inércia, impontualidade, todos presentes! Que turminha non grata. Vão chegando e se instalando, tal como vermes invisíveis. Quando nos damos conta, o susto! Perdemos as rédeas do nosso dia-a-dia? Não. Pedimos licença, mais uma vez.

Seguimos pedindo licença para todos os maus-hábitos que insistem em travar o desenvolvimento sadio e produtivo de nossos dias. Pedimos licença e seguimos, numa boa. Se a permissão de passagem não nos for concedida, pestes encravadas que são estes is indesejáveis, forçamos a barra, acordamos a pulso, lutamos contra esse grupo mal educado e insolente que resolveu nos ter como hospedeiros. Sim, porque é insistindo que ganharemos a batalha contra esta turma do mal, esta turma do 0x0, esta turma que dá risada a cada passo para trás que damos inconscientemente.

A mulher acordou notavelmente mais cedo do que andava acostumada. Sozinha. Vestiu-se com calma, tomou seu café da manhã regado, com pães, frutas e mel. Saiu para o trabalho na hora certa, pela primeira vez em alguns meses na sua vida. Almoçou. Bebeu três litros d'água durante a jornada. Pela primeira vez depois de uma longa temporada de is indesejáveis, ela pôde olhar-se no espelho, ao fim do dia, e concluir que domou a sua rotina.

Como esta mulher fez todos podemos fazer. Todos podemos vencer o nada diário que atrapalha a evolução de nossas vidinhas. Gente não nasceu para ficar estacionada, nem para acionar marcha ré e andar para trás. Só se quiser. Is, caiam fora! Quem manda aqui é a gente e nossa vontade de viver e produzir quer passar, com licença.
por Juliana Jacyntho, em 9/27/2004 09:00:47 PM



Subiu o Escadinha (Ou será que ele desceu?)

A maior celebridade do tráfico de drogas dos anos oitenta - se é que podemos falar em celebridade no tráfico sem parecermos levianos - foi executada hoje com tiros no peito e na cabeça. Escadinha cumpria pena em regime semi-aberto. Trabalhava de dia e, à noite, voltava para o presídio para tirar o soninho dos justos e batalhadores. Seu processo de ressocialização e recolocação na sociedade foi interrompido por projéteis de arma de fogo, disparados por um motoqueiro.

Quantos nesta platéia acreditam na reintegração social dos condenados que hoje engrossam a população carcerária do nosso país? Um? Dois? Um grupo quixotista de treze pessoas? Quantos? Apresentem-se, pois.

Será que algum mortal ainda pensa que isso vai dar certo um dia? Otimismo sim, venda nos olhos não. O sistema penitenciário brasileiro é vergonhoso, assim como muitas outras instituições que não fazem jus à sua finalidade primeira: valorizar o cidadão e contribuir para o avanço das comunidades. Presídios superlotados, agentes subornados, condenados com PhD em malandragem, malvadeza e crueldade. Regalias. Isso não parece receita de sucesso.

A morte do traficante Escadinha na manhã de hoje nos traz muitas mensagens.

Uma delas é a de que o crime, de fato, não compensa. Prova disso é a perseguição que o delinquente sofre para o resto dos seus dias, temendo a morte violenta e precoce. A segunda delas é a de que nosso modelo prisional não retira o bandido do seu métier. O cara sai da grade, mas o crime ronda. Não importa se o condenado está em regime semi-aberto; não importa se o condenado está em livramento condicional; não importa se o condenado já cumpriu seus trinta anos inteirinhos enjaulado. O crime continuará rondando a sua vida, rondando a vida de todos que dele chegarem perto. Dessa jaula ele não se livra jamais, sem estigmas baratos, é fato.

Outra mensagem, ainda mais importante, é a de que quem delinque escolhe uma vida. Favelas e comunidades carentes estão cheias de pessoas que cortam dois, três dobrados por dia para sobreviver com dignidade, sem cogitar a hipótese de sacar um treis-oitão e assaltar o primeiro passante. Logo, tráfico de drogas, roubos, furtos, entre outros crimes, não são a última opção de ninguém, são escolha. Escolha de gente burra.

Gente burra e que não valoriza a própria vida, da sua família e dos seus amigos comete crimes, entra para o tráfico, estraga a vida e assina a sentença de morte quando delinque. E talvez nem se dê conta. Gente burra assim se ilude acreditando que vai vender o pó e vai ter vida para gastar o lucro no Caribe, com barcos e mulheres gostosas. Ou ali no baile funk da favela mesmo, com bebidas e mulheres gostosas. Mal sabem que não terão vida para gastar a grana que sempre desejaram.

Para gente burra assim, educação. Quem sabe estudando e se informando eles tratam de mudar a linha do próprio destino. E para aqueles que, mesmo tendo acesso à luz do conhecimento, resolvam sair por aí horrorizando, torturando, roubando, desviando verbas, subornando, aceitando, matando e espalhando um rastro de medo e insegurança pelas vizinhanças todas, que eles recebam a resposta penal merecida. E já que o Estado não se mexe quando não lhe interessa, que seja a vida que lhes dê esta resposta. Vida que eles próprios escolheram um dia.
por Juliana Jacyntho, em 9/23/2004 05:12:06 PM



Tribalismo e Encontros

Há dois verões atrás escutamos incessantemente versos que diziam já sei namorar, já sei beijar de língua, tô te querendo como ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também. Foi o boom do Tribalismo, onda implantada pelo disco lançado por Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes.

Todo mundo cantou, uns escreveram sobre. Tachou-se uma geração de tribalista: aquela que beija na boca e é feliz, sem compromissos posteriores de fidelidade consigo mesmo e com o outro. A geração da liberdade total, do fico com um hoje e outro amanhã, de acordo com meus interesses. Beijar na boca e sair por aí sem assinar nota de culpa não é privilégio dessa geração. Não é nem anos noventa, nem anos dois mil. Que o digam nossos pais, nossos tios e nossos amigos que curtiram o fervor das descobertas dos anos sessenta e setenta. Mas como toda geração pede rótulo, foi dado a César o que dele era: o selo de Tribalista, beijador incondicional, amante profissional das possibilidades do coração ou da atração física, apenas. E atração no verão é algo que ganha dimensões exacerbadas nesse nosso país tropical.

Mas uma música inocente e bela, mais outonal que ensolarada também nasceu através da mesma parceria que cantou a beijação, trazendo mensagem que simboliza a fase posterior do dito tribalismo: a do encontro ideal. Não ganhou tantos holofotes como a irmã solteira e saidinha, mas teve o seu momento de glória quando coroou o romance de uma casal lindo, jovem e apaixonado de uma novela das oito e foi endosso para muitos corações apaixonados. Os seus versos diziam: você é assim, um sonho pra mim, eu penso em você desde o amanhecer até quando eu me deito. O meu melhor amigo é o meu amor. Era o encontro idealizado cantado sem rodeios, sem rebuscagens. Linguagem simples utilizada para dizer a verdade do amor: queremos homens apaixonados, mas queremos amigos. Homem cheio de atributos, dentre eles, ouvidos e ombros, para que nos escutem e nos apóiem. E os homens querem mulheres assim também.

Ser amigo de verdade e ser amante é bonito, é dar certo. Se um dia você constatar que a pessoa que você ama é também um amigo do peito, queira-o para sempre na sua vida e se empenhe em fazer com que ele queira o mesmo. Como é que você vai perceber quem é esse 'dois em um' tão desejado? Volte ao início do texto. Beije. Beije muito. Viva todas as formas de amor que a vida te proporcionar. E aprenda a selecionar o joio do trigo. Se depois da tempestade vem a bonança, é depois da beijação que vem o encontro. Não subestime ninguém. Não superestime ninguém. Apenas viva, se entregue, seja sincero com seus sentimentos e os alheios. Deixe a energia fluir. E se dê o direito de escolher e ser escolhido.

Um belo dia, recostada no colo daquele que você ama e respeita e com quem, hoje, você pode contar a toda hora, você se lembrará, achando graça, da sua fase dita tribalista. Fase em que você viveu, experimentou, sofreu, cresceu, se deu bem. Fase em que você estava apenas apostando na felicidade e no encontro que viria no futuro, mesmo sem saber.
por Juliana Jacyntho, em 9/22/2004 10:01:19 AM



Calculadoras ambulantes

O homem moderno talvez já não se dê conta de quantos números a sua vida exige que ele memorize, são calculadoras que perambulam ruas a fora, num repetir de algarismos sem fim.

É senha do banco, é senha para confirmar a senha do banco, é senha do e-mail, é senha pra todos os lados. Sem senha nos dias de hoje, acredite, você não faz as coisas acontecerem. Antes fossem só senhas. Mas não. Ainda tem o telefone de casa, o telefone celular, o telefone comercial, o número do fax. É o cadastro de pessoas físicas na receita federal, o famoso cpf, neto do cic. É o Registro Geral - RG, é a carteira profissional, o título de eleitor, o passaporte, a carteira nacional de habilitação para dirigir veículos automotores. Ufa, quantos números! Quantos números para representar uma só pessoa.

Temível o dia em que seremos chamados não pelo nome, mas por números, como, aliás, já anda ocorrendo por aí: o 1202 já votou? O 1202 quem? O proprietário do apartamento 1202 do Condomínio Parque das Flores, Sr. José da Silva. Que José da Silva, que nada! É 1202 e vamos andando logo com esta assembléia. O 1203 está presente? E é assim que assistimos à despersonalização de nossas relacões cotidianas sem dó nem perdão.

É tudo mecânico, é tudo automático, é tudo sobre números. É tudo impessoal. Ninguém diz bom dia ao vizinho quando ingressa no elevador, sequer sabe o seu nome, apenas se ocupa de apertar o número do térreo ou da garagem. Ninguém cumprimenta o jornaleiro, aliás, muitos nem às bancas vão mais, preferem a comodidade da assinatura e as benesses que o seu código de assinante lhe proporciona; preferem a rapidez das notícias online, através da simples digitação da senha de acesso ao seu servidor banda larga com muito mais conteúdo.

Quem sabe a solução seja sair por aí balbuciando senhas outras que não essas numéricas que andam nos perseguindo? Senhas como amizade, aperto de mão, abraço carinhoso. Cartas escritas à mão, com selos comemorativos, canetas coloridas e adesivos. Cordialidade. Cartão postal enviado por um amigo que viaja pela Europa. Pão fresquinho às seis da manhã no balcão da padaria. Cavalheirismo, que vale para homens e mulheres. Jornal do dia na banca e o sorriso encorajador do jornaleiro português. Bom dia, Boa Tarde, Boa Noite, para todos, quando chegamos ou saímos dos lugares (e elevadores inclusive).

Marcação numérica é vida de gado. Essa, só na música do Zé Ramalho, na realidade queremos não. Vida automatizada é coisa de robôs, o que também não somos. Ou pelo menos não deveríamos ser. Somos humanos e queremos olhares francos. Seria pedir muito?
por Juliana Jacyntho, em 9/21/2004 01:55:25 PM



Passiflorando

É um parente que se vai. É um emprego que se vai. É o dinheiro que se esvai. É uma nova oportunidade que mostra os olhos pela porta entreaberta. É uma mudança de cidade. Motivos para preocupação e ansiedade o mundo moderno traz para todos, todos os dias.

Antes mesmo de serem colocados diante do problema que pede solução uns preferem sofrer por antecipação e mal sabem que, com este mau hábito, estão encurtando a própria vida: alguns neurônios se enfraquecem com essa pressão precoce desnecessária.

Para esses apressadinhos que não deixam nem os desafios da vida correrem no curso normal, passiflorini na veia. A sua vida e o seu bem-estar são maiores que qualquer problema, principalmente se ele ainda não é realidade, se ele ainda está por vir ou, pior, se ele é apenas uma suposição da sua cabeça.

Ei, você aí! Já parou para perceber que você pode estar matutando e sofrendo por um evento da sua vida profissional ou pessoal que, de fato, ainda não se concretizou? Se não está ocorrendo agora, pode ter ocorrido um dia. Se lembra como você se julgou bobo e inocente por ter ansiado e se cobrado tanto por algo que, ao final, se revelou tão fácil?

Pois parece que cada um de nós já se pregou essa peça um dia. Mas que baste apenas um só dia para entendermos que não adianta sofrer por antecipação por nada nessa vida severina. Soluções aparecem se problemas insistirem em brotar em nosso caminho. Tudo na sua hora. Estaremos afiados no dia, acreditem, mas não precisamos pensar nisso agora. Um bola por vez.

Enquanto isso, vamos cuidando da cabeça, do corpo e da alma. Assim, quando gritarem lá de trás vai que é tua, estaremos prontos. Faremos bonito, não decepcionaremos a platéia e nem a nós mesmos e só existirá uma preocupação, essa sim real e atual: matar a bola no peito, chutar ao gol com vontade e correr para o abraço, com orgulho, obrigada.
por Juliana Jacyntho, em 9/20/2004 01:37:56 PM





Cidade dos homens ou dos porcos?

Acabo de voltar de mais uma jornada pelo centro da cidade do Rio de Janeiro. Comigo, "santinhos" de políticos, embalagens de biscoitos, folhas secas caídas das árvores e toda sorte de papéis dividiram a mesma calçada.

De onde será que vem o mau hábito de descartar o nosso lixinho particular no meio da rua? Seria uma decorrência da falta de educação das populações de baixa renda, diriam uns. Mas também tem rico por aí lançando casca de tangerina comprada no sinal pela janela do carro, retrucariam outros.

Parece então que o mau hábito de sujar a cidade que vem sendo cultivado pelo carioca não tem a ver com a classe social a qual ele pertence. Seja pobre, seja rico, seja pós-graduado ou analfabeto, a preocupação com a limpeza pública tem a ver com limpeza particular: com higiene. Tem a ver com amor pela cidade. Tem a ver com respeito pelo serviço do gari, pois sabemos que não seremos nós os encarregados pela limpeza pós-porquice.

Tem, ainda, aqueles 'socialmente conscientizados' que afirmam estar contribuindo para que o gari tenha trabalho: se a cidade não estiver suja, ele não terá o que limpar, dizem os falsos cidadãos, esquecendo-se da sujeira natural que a cidade produz e que já é resíduo suficiente a ser removido. Tentam, com essa frase infeliz e um sorriso amarelo, disfarçar o seu arrependimento, mas a latinha de refrigerante já está no chão, paciência.

Realmente. A cidade está suja. Sujíssima. E não deveria ser a Comlurb a entidade responsável pela limpeza que se mostra necessária, mas a Suipa, que teria a árdua incumbência de recolher de nossas esquinas os porquinhos sem dono que perambulam pela ruas do Rio.

Quem sabe, assim, poderíamos respirar aliviados e orgulhosos por caminhar em calçadas adornadas com flores, ao invés dos passeios de hoje, meras filiais do Lixão. Parafraseando Ancelmo Góis, é duro viver numa cidade assim (e eu não estou falando de São Paulo).
por Juliana Jacyntho, em 9/16/2004 06:31:47 PM



Santo Nelson da Sabedoria

O público precisa rever seus conceitos. É, nós mesmos: o público. Nós consumidores de livros, discos, filmes, programas na tevê, peças teatrais. É chegada a hora de meter o pau. É chegada a hora de desenvolvermos o nosso senso crítico e externá-lo quando preciso.

Ninguém escreve tão bem que não mereça um só leitor, que seja, apontando um caminho contrário daquele oferecido no texto. Ninguém canta tão maravilhosamente bem que não possua uma música pichável sequer em seu repertório. Nenhuma obra, nenhum artista, nenhum formador de opinião foi alçado ao Olimpo dos Deuses Incontestáveis. Todos querem ouvir o público e o que ele tem a dizer: elogios e críticas, doam a quem doer.

É direito do escritor externar seus sentimentos e pensamentos em crônicas, contos, romances, notícias. Ao passo que é direito do leitor concordar ou não. Nenhum autor tem a pretensão de ser unanimidade num universo tão vasto de leitores e idéias diferentes. E, cá pra nós, o público não pode ser presa tão fácil assim.

Às vezes nos afeiçoamos a determinado artista, a determinado formador de opinião e saímos elogiando tudo o que ele diz ou faz, seja válido ou seja besteira. Não tenhamos dúvidas de que Caetano compôs e gravou músicas ótimas, mas também contabiliza uns blefes na sua carreira. Não tenhamos dúvidas de que nem todos os textos de Drummond são perfeitos e traduzem o que queremos ouvir.

Não vivemos mais na época em que o público se ocupava apenas em absorver e aplaudir, sem emitir uma opinião sobre o que assistia. Somos da época da política do pão e do circo e do ovo, este último lançado pelo mais inflamados quando o artista não está agradando. Os formadores de opinião não são donos da verdade que só emitem palavras que devam ser endossadas, nem têm essa pretensão, em sua grande maioria.

Eles esperam do público atenção: para o endosso ou para a crítica. Falem bem ou falem mal, mas me leiam, me ouçam, me assistam, pensam eles. Prestigiem meu trabalho: enriqueçam o debate! O próprio autor da obra deve querer isso: o enriquecimento do debate, através de críticas construtivas e pontos de vista divergentes, o que contribui para que todos nós, leitores e autores, cresçamos e aperfeiçoemos nossos sentidos.

Talvez seja por isso que Nelson Rodrigues tenha concluído um dia que toda unanimidade é burra. Quem pensa, discorda de quando em vez, não sai por aí acenando com a cabeça dizendo sim para todo absurdo que saia da boca de um notável.
por Juliana Jacyntho, em 9/15/2004 09:29:08 PM



Familiazinha complicada

O Despeito é irmão da Inveja. São primos-irmãos da Cobiça, que teve melhor educação.

Dizem que a inveja é a arma dos incompetentes: se você não pode fazer, nutre um desprezo torto por quem consegue fazer as coisas da vida e um desejo forte de que aquele ser tão habilidoso quebre o salto. A Inveja sabe-se incapaz, nutre o descrédito como se fosse o único propósito de sua vida. Ela não escutou, durante a sua infância e sua adolescência, você me enche de orgulho, filha! Ela escutou: você não pode, você não tem, você não é! E cresceu desejando que outros mortais não pudessem, não tivessem, não fossem. A inveja é destrutiva, daí porque seja um sentimento banido do rol de sentimentos publicáveis. Ninguém assume sentir inveja de alguém. No máximo, uma invejazinha do bem, sabe-se lá que raios isso queira dizer.

A Cobiça, por outro lado, nasceu como a Inveja: de olho na grama do vizinho, mas esse mau-hábito não foi estimulado. Bem educada por sua família, a Cobiça aprendeu a lutar, a se esforçar, a correr atrás daquilo que sempre desejou para si mesma e, por isso, pôde concluir: sou capaz. A Cobiça sabe que tem habilidades magníficas. A Cobiça sabe que goza de oportunidades brilhantes no dia-a-dia, mas tem uma queda voyeurística pela vida alheia, pelas conquistas alheias, pelos feitos alheios: ela deseja o que os outros constroem e adquirem. Toma o vizinho por modelo. Se esforça para adquirir o que ele possui. E consegue. E confraterniza com o vizinho quando já está no mesmo patamar que ele. A Cobiça não deseja que o paradigma perca aquilo que ela considera objeto de desejo. Ela quer igual, para ela e para o outro. Uma espécie de socialismo moderno.

O Despeito é um pobre coitado. Enquanto sua irmã Inveja circula pelas altas e baixas rodas sociais lançando olhares de seca-pimenteira em seus alvos e rega com água abundante a sua má-fama mundial, o Despeito sofre em silêncio em razão de sua visão míope de mundo. Ele acredita que é lindo como o Rodrigo Santoro mas acha que o próprio anda meio acabadinho. Ele pensa ser tão inteligente quanto o Jô Soares, mas acha que o próprio engana de vez em quando. O Despeito pensa que é sem ser e nutre um desdém louco por aqueles que, efetivamente, são. Bonitos, inteligentes, bem sucedidos, não interessa. O barato do Despeito é jogar pedra nessa gente que insiste em dar certo na vida, roubando o seu lugar na ribalta.

Como vocês podem ver, educação é tudo no mundo. Berço não é só parte da mobília de um casal que aguarda a chegada do primeiro filho. Berço é acalento, é o afago diário que se dá na auto-estima de uma criança, fazendo com que ela cresça acreditando que é capaz, que é bonita por dentro e por fora, que sua honestidade e integridade de caráter são valores caros e que a vida que a espera saberá recompensar a retidão com paz de espírito. E é assim que passamos a ter um mundo repleto de mulheres bonitas e alegres, e homens charmosos e de bem com a vida, circulando contentes pela cidade. Todos munidos de bom senso e patuá no bolso.
por Juliana Jacyntho, em 9/14/2004 07:36:17 PM



Conforme-se, baby, conforme-se!

Joana foi fazer uma entrevista de emprego. Não encontrou a empresa no endereço que lhe forneceram. Fez e refez o caminho indicado três vezes, parou em um posto de gasolina, pediu informações. Ainda assim, a situação permaneceu inalterada: nada de escritório oferecendo vaga de faxineira. Joana então voltou para casa decepcionada. Meio frustrada. Afinal, precisou tomar três conduções para chegar até o local! Brincadeira, pensou Joana. Mas se eu não encontrei o tal do lugar era porque eu não tinha que trabalhar lá mesmo, conformou-se.

Matilde perdeu a filha. Complicações no parto. Sua filha tinha apenas trinta e um anos e comemoraria quatro anos de casada em outubro próximo. O neném sobreviveu, com seqüelas. Matilde agora perambula pela cidade apontando hipóteses outras que poderiam ter feito com que tudo fosse diferente: "e se ela estivesse em outra clínica? E se um outro médico estivesse ao seu lado? E se ela estivesse usando camisola verde ao invés daquela cor de rosa?" Matilde sabe que ninguém concorreu com culpa para que sua filha partisse dessa vida, mas quer apontar responsáveis. Matilde apenas busca conforto nas frases que seu cérebro formula. Só conforto.

Edvaldo Júnior queria se casar com Cinthia. Comprou casa, mobília, pôs no dedo 'seu vizinho' da moça um solitário de brilhantes. Cinthia descurtiu o romance, abriu o jogo com Edvaldo Júnior, não queria mais se casar. O rapaz saiu espalhando pela vila onde mora que a moça descobriu-se infértil e desenganou-se para o matrimônio. Júnior buscou apaziguar sua angústia com a propagação de uma mentira.

Fúlvio descobriu que seu único filho homem, Flávio, é gay. Mandou o rapaz embora de casa. Sua filha mais velha, Luciana, sonhava com a festa de casamento perfeita, sempre negada pelo pai que alegava não ter fundos para bancar a confraternização. Fúlvio fez um empréstimo junto ao banco e a vizinhança pôde ver a festa de casamento mais linda e bem servida dos últimos anos. Fúlvio está pagando o empréstimo até hoje. Dez anos e sete meses. Ele alega que, ao realizar o sonho da filha, buscou acalento para o seu coração, já que o filho só lhe deu desgosto.

Até onde vai o homem para ludibriar a desilusão? Há quem se endivide. Há quem aponte o vizinho mais próximo como culpado pela sua desgraça. Há quem difame os outros, espalhando boatos infundados.

Há aqueles, no entanto, que apenas desfiam o rosário conhecido: Deus quis assim. A vida é assim. As coisas acontecem como têm que acontecer. Se não foi dessa vez, na próxima com certeza. Se não ficamos juntos é porque ele não era o homem certo. Se ela não me quis é porque eu mereço mulher melhor! Rebanho desgarrado em busca de uma palavra de consolo. Tudo em nome da conformação.
por Juliana Jacyntho, em 9/13/2004 05:49:52 PM



Clique bom

Dizem que depois da tempestade vem a bonança. Dizem que depois da pasmaceira vem o brainstorm. Não dizem? Então dizem agora.

Uma boa idéia não nasce toda hora. Nasce qualquer dia. Ela vem. Simplesmente vem. Se não estivermos com as sensibilidades afiadas ela passa despercebida e a gente nem nota que poderia fazer o mundo (nosso e alheio) mudar.

Não espere ler grandes enciclopédias para ver brotar uma grande idéia. Não espere que ela só venha após anos de estudos e experiências. Não menospreze o potencial criativo da sua vidinha. É ela que te inspira. Ou pelo menos deveria.

Não espere que a sua boa idéia apareça em grandes eventos: eles estão saturados de boas idéias e de outras que nem são tão boas mas se acham ótimas. Diga ao seu cérebro para esperar um pouco.

E terá valido a espera. Ela pode até ter vindo sozinha mas foi você quem a convidou. No banheiro enquanto escovava os dentes, no engarrafamento, ou até mesmo parado, olhando para o vazio na sua frente. A idéia vem e pede escrita para que não caia no esquecimento. Nossas boas idéias reclamam crédito. Não dos outros, nosso mesmo. Pois acredite nas suas. Já terá sido um fértil começo.
por Juliana Jacyntho, em 9/13/2004 09:18:46 AM



Desopilando

Você anda estressado? Desanimado? Por você sua cama não sairia das suas costas? Saia dessa correndo. Ouça o chamado das coisas boas da vida: elas estão te querendo como ninguém!

Compre um novo shampoo, um novo sabonete líquido e uma esponja: tome banho! É, tome banho! Mas não um banho prosaico daqueles em que a gente não se dá conta que a água está molhando e hidratando o nosso corpo. Banho que lava o corpo mas também a alma. Banho que brinda o cérebro com novas sensações quando alternamos água quente e água gelada.

De banho tomado, caminhe descalço. Caminhe sobre a grama do jardim, caminhe sobre um tapete felpudo, caminhe sobre pisos gelados (e que nossas mães não nos ouçam!), mas caminhe.

Acenda um incenso de hortelã, abra a geladeira, pince uma bebidinha. Ligue para os amigos, saiba qual é a boa da noite de sexta-feira e vá até ela. Espere seu amor com humor e braços abertos e saudades e, quando ele chegar, beije-o e abrace-o até cansar, como se isso fosse possível.

Respire fundo, se escute. Dê uns berros. Levante os braços ao alto. Pule mais. Explore a elasticidade do seu corpo. Sim, ela existe!

Bata palmas. Já experimentou bater palmas sozinho dentro de casa sem nenhuma razão prévia? Sim, dá uma sensação esquisita de loucura momentânea.

E é, justamente, o que precisamos inserir na nossa rotina: uma loucurazinha momentânea que a ninguém prejudica! Ela apenas nos mostra que ficar parados e mudos com a cabeça maquinando cobranças, compromissos e contas a pagar, ah, isso sim pode nos conduzir a uma sensação muito mais esquisita: a de ter morrido para a vida, embora estejamos todos aqui, vivos da silva.
por Juliana Jacyntho, em 9/10/2004 07:14:04 PM





Morda a bolacha que ela entra

Todo mundo um dia já se pegou insistindo em alguma coisa que não dá certo. Alguma coisa que parece não querer funcionar. Seja uma oportunidade de emprego, uma receita de bolo, uma pessoa difícil. No entanto, permanecemos insistindo. Quem sabe da próxima vez emplacamos o sucesso?

Se insistimos é porque queremos que dê certo. Só isso. Acreditamos que vamos encontrar a solução, a realização de um desejo profissional, a conquista de um coração de pedra, a conquista de um estômago menos exigente. Insistimos, insistimos e acontece: chega o dia, conseguimos. Êba!

Um só Êba. Mas que estranho! Às vezes o que era para ser motivo de satisfação e euforia dá lugar a uma vasta sensação de vazio. Eco lá dentro. Falta de perspectiva. Não é à toa que muitos mortais preferem seguir vivendo sonhando. Sonhando e planejando. Concretizar? Querem não, querem imaginar quão linda pode ser a vitória, mas não querem correr o risco de constatar, quando for realidade, que ela não era tão linda como seus devaneios anunciavam.

Por vivermos planejando e idealizando deixamos de viver o dia de hoje. Deixamos de fruir das sensações e proveitos que a nossa condição atual pode nos proporcionar. Sonhar é imprescindível, já disseram ser o alimento da alma. Mas viver se alimentando de progressões e desejos para frente pode ser um erro irreparável se o mundo ideal passa a ser mais sedutor que o real. Olha quanta coisa está acontecendo à sua volta. Não consegue enxergar?

Troque os seus óculos de armação preta por uns de armação cor de rosa. Ouse. Olhe novamente a sua casa, seu marido, sua mulher, suas fotos, sua caixa de ferramentas, sua mesa de trabalho, seu secador de cabelos, sua moto, seu jeans preferido, o mar, os prédios, a copeira do escritório. Tudo o que faz parte da sua vida.

Quando percebermos que somos nós que enxergamos as coisas pelo ângulo errado, somos nós que tentamos enfiar a bolacha de água e sal de pé dentro da boca, somos nós que insistimos em chupar bala com papel ou até mesmo sair de casa com um prendedor de roupas imaginário na ponta do nariz, a vida terá cor, forma, sabor e cheiro diferentes.

Nunca é tarde para fazer tudo o que queremos fazer de uma forma totalmente diferente da que até então foi empregada.

E aí, uma vez cientes de que os óculos pink de bolinhas amarelas fazem o sorriso aparecer no rosto com mais freqüência; Uma vez cientes de que, de fato, bolachas de água e sal são quadradas demais para caber de pé na nossa cavidade bucal e que tudo pode ser resolvido com uma bela mordida; Uma vez cientes de que a impaciência e a afobação nos privaram por anos de sentir o gostinho de morango da bala da venda do Seu José, que, na pressa, insistíamos em lançar goela adentro com papel mesmo; Uma vez cientes de que o prendedor de roupas no nariz nos conferia um ar qualquer de ridículos e nos impedia de notar o aroma do café fresquinho preparado no vizinho ao sairmos de casa pela manhã; Uma vez cientes disso tudo, já estaremos vivendo mais, ainda que inconscientemente. Projeto futuro nenhum será mais urgente que o próximo minuto.
por Juliana Jacyntho, em 9/9/2004 07:55:20 PM





Somos todos da Terra mesmo, obrigada.

Já ouvi muitas histórias de traição. Justificativas idem, quase sempre escoradas na máxima tão batida de que homens e mulheres são diferentes demais. Tão clichê. Eu não compro. Você compra?

Você compra a tese de que homens são de Marte e mulheres são de Vênus? Você compra a tese de que homens fazem sexo e mulheres fazem amor? Você acha que homens traem porque têm necessidade fisiológica de 'pular o muro' e à mulher cabe aceitar esse item de fábrica com resignação? Você acredita, de verdade, que um homem acompanhado tem o direito de torcer o pescoço para acompanhar o rebolado de uma mulher dita 'gostosa', sem ao menos se importar com a presença daquela outra que caminha ao seu lado, de mãos dadas?

Não podemos negar que existam mulheres assim, que cresceram aceitando que a diferença dos sexos feminino e masculino explica até mesmo a falta do respeito que deveria existir no dia-a-dia. Uma dessas mulheres pode estar aqui do meu lado ou aí, do seu, apostando que o cara com quem estava saindo tomou chá de sumiço e não mais ligou porque homem é assim. Crendo com força que o marido com quem vive há vinte anos arrumou uma sétima amante e que isso acontece porque, afinal de contas, homem é assim.

Homem não é assim. Mulher não é assim. Homens e mulheres não são tão diferentes como o modelo machista de sociedade tenta convencer. Eles erram e acertam, não por serem diferentes, mas por serem igualmente humanos e falíveis. Falhas e mancadas à parte, eles desejam a mesma coisa: carinho, sexo, atenção, amor, paixão, cumplicidade, respeito, dias alegres.

Querem saúde, paz no coração, animados almoços em família. Querem viagens e retornos para contarem histórias. Querem poder demonstrar admiração e gratidão a seus pais, querem criar os filhos que decidiram trazer pra essa festa. Querem mesa de bar rodeada de amigos, chope e caipirinha, idéias oxigenando a mente e inflando de esperança o coração. Querem acordar e olharem-se no espelho e sentirem-se especiais no mundo, ainda que no mundo de um só alguém.

Isso é o que querem homens e mulheres. Heteros e gays. Jovens e maduros. Clubbers e mauricinhos. Todos. Seja homem, seja mulher, quem se fere e fere aos outros o faz porque erra e não porque veio de um planeta diferente. Somos daqui mesmo, dessa bola azul cheia d'água. Água essa que não quer combinar com lágrimas de mágoa mas com a sensação de plenitude trazida por minutos de contemplação de um lindo e imenso mar azul. Não nascemos na Terra por acaso.
por Juliana Jacyntho, em 9/8/2004 06:11:20 PM





Reencontros

Fazia tempo que elas não se reuniam. Quase dois anos! Uma casou, outra se mudou para o interior de São Paulo, duas estavam trabalhando como escravas e uma última estava atravessando uma gravidez de alto risco. Motivos para sumir, vejam vocês, elas tinham.

Mas numa bela tarde primaveril como esta que hoje se anuncia, a grávida telefonou para a amiga que havia se mudado para São Paulo e convidou-a para ser madrinha do seu bebê. Foi o elemento desencadeador da saudade da turma dos tempos de faculdade, o que fez com que as duas, imediatamente, entrassem em contato com as demais para marcar um almoço no próximo feriado, aproveitando a presença de todas na cidade.

Você se identificou com a história? Eu também, assim como o porteiro que trabalha em meu prédio e tantos outros seres de nossa época. Todos temos amigos, colegas e conhecidos que, embora nos tenham sido caros um dia, a vida e os novos compromissos encarregaram-se de afastá-los de nosso convívio.

Uns, amigos de verdade, podem permanecer meses a fio sem um telefonema sequer. Quando há o reencontro, não há razão para espanto: é tudo a mesma coisa. A mesma afinidade, as mesmas piadas, o mesmo brilho nos olhos. Essa relação está ganha. Vocês se pertencem e a falta de contato com o transcorrer dos dias não é fator implicador na amizade de vocês. Exceção. Desejosa exceção. Quem é que não quer um amigo de verdade assim?

Mas outros não. Há pessoas com as quais a gente verdadeiramente perde o fio da comunicação. Somem no mundo, trocam de endereço, de telefone, mudam até mesmo de nome, adotando o último do seu amor. Esses colegas, lamentavelmente, são dados como desaparecidos na nossa agenda. Ou não.

Se o seu problema era esse, saudades do seu melhor amiguinho do Maternal I, relaxe! Há recursos hoje que nos propiciam até mesmo reencontrar nossos colegas de berçário! Vivemos o saudosismo inflado e apaziguado por ferramentas de nome estranho, como orkut. Em instantes, pessoas que sumiram do seu mapa há anos reaparecem e declaram estar com saudades e surpresas em te encontrar, pois faz muito tempo que vocês não se vêem! Ô, e pôe tempo nisso. E alguns vínculos se reestabelecem assim: nem que seja pela rede mundial de computadores.

Se esse revival fará de vocês novos grandes amigos, isso ainda é uma incógnita. Nem que não dure até o mês que vem e vocês só venham a se cumprimentar novamente daqui a uns sete anos, tudo bem. Não se apoquente. Em tempos de relacionamentos descartáveis e aferição de popularidade pelo número de amigos que você traz no bolso - ou na tela, você não será o único inocente a acreditar que o seu coleguinha do Maternal I realmente passou os últimos anos da vida dele pensando em você e sentindo a sua falta, não é mesmo?

Mas para não destoar da tendência, sinta-se imbuído do espírito saudosista, cumprimente seus novos velhos amigos com elegância e não se esqueça de dizer-lhes que sim, é claro que você se lembra deles! E que sim, você também estava com saudades.
por Juliana Jacyntho, em 9/3/2004 11:41:56 AM





In-laws

E ela chega na sua vida. Perfeitinha. Tudo o que você sonhou numa mulher está agora na sua frente, dizendo: "quero você pra mim". E ele chega. Todo lindo. É o tal do príncipe encantado que todos andavam dizendo que um dia apareceria na sua vida. E ele te quer, como você o quer.

Mas eles não vêm sós. Eles vêm em companhia. É todo um pacote, quer você queira quer você não queira. Queira você. Queiramos nós. Queiramos carinho e consideração, é o que esperamos do pacote.

Todos desejamos cruzar uma esquina e trombar com o amor de nossas vidas. Mas ninguém deseja cruzar a esquina e trombar com um amor que traga apêndice amargo.

Desejamos apêndices doces, afetuosos, uma segunda família. Desejamos que o nosso pacote também pareça aconchegante para o outro. Mas não depende só de nós.

Às vezes nos deparamos com sentimentos vis. Ciúmes, competição, indiferença. Bandeira da hostilidade hasteada toda manhã. Hino da discórdia cantado nos quatros cantos da casa. Tudo que possa ser traduzido por pequinez. Pequeno é aquele que não enxerga e não apóia a felicidade e a realização de um filho. Curta é a imaginação daquele que pensa que o ser que ele colocou no mundo não viverá uma vida própria. E há aqueles que, às vezes, não vivem. Triste assim.

Ou não. Há pacotes que prometem alegria, prometem conversas frutíferas, prometem companheirismo, prometem lealdade. Prometem amor de pai e mãe, ainda que postiços. Prometem felicidade. E cumprem. Gente inteligente que sabe e reconhece o valor de um abraço verdadeiro e de um sorriso sincero. Gente que conjuga o verbo agregar, não agourar. É outro departamento.

Apostam na paz da convivência e aceitam o diferente e as novidades que ele traz. Absorvem informações e experiências e costumes, tirados das educações distintas. Aproveitam o encontro para crescer como gente, não importa a idade. Confraternizam, embora o amor que os una seja não só fraternal. É filial. É paternal. É maternal.

A primeira família a gente não escolhe. Nela nascemos e nela crescemos. Uma vez lançados à vida adulta, nos é posto novo desafio: monte a sua. Ao montarmos a nossa, estaremos escolhendo uma outra, que vem junto. E que também, indiretamente, escolheu a gente. É tudo sobre escolhas.
por Juliana Jacyntho, em 9/2/2004 11:54:29 AM



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