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Deixa que a gente leva

Já prestaram atenção como este papo de deixar a vida me levar está na moda? Começou com o samba cantado por Zeca Pagodinho que diz: "deixa a vida me levar, vida leva eu" e ganhou força com a balada cantada pelo Skank, que comunica: "vou deixar a vida me levar aonde ela quiser". Quem é que tem que querer: a gente ou a vida? Quem segura as rédeas do correr de seus dias: você ou o vento?

Muitos vão parar aonde o vento sopra. Às vezes dão sorte, às vezes não, nada acontece, a vida não tá me levando direito, pensa o sujeito. Se é a sorte que vem, a filosofia do "deixa a vida me levar" é coroada como correta e vencedora. Mas e se for o nada que vier fazer uma visitinha, batendo à porta? Nada. Nenhum novo amor, nenhum velho amor que ressucite das profundezas. Nenhuma proposta de trabalho, nem fumaça de promoção na empresa. E o nosso protagonista lá, ao sabor dos acontecimentos.

Lembro-me, de ouvir falar, da época em que se cantava que "quem sabe faz a hora, não espera acontecer". Outros tempos. Nosso tempo prega que andemos com as pernas da vida. Um dia por vez e vamos levando, afinal quem é que quer se sentir responsável por um erro, por uma derrota? Ninguém. Não se planeja muito para não ter que se lamentar depois. Não se arrisca muito para não destoar da galera. Desfila-se, então, por aí, com um conhecido ar blasée, típico de quem já sabe tudo da vida. Como alguém que não faz acontecer e apenas deixa a vida levá-lo onde bem entender pode pensar que sabe tudo da existência humana? Longe. Longe de ser tamanho poço de sabedoria.

O "ar de quem está satisfeito com o marasmo" tende a ceder lugar para alguma força interna que, um dia, acordará e impulsionará o seu dono a se mexer e chutar o comodismo para fora de sua vida. Deixar a vida nos levar é muito mais fácil e cômodo. Deixar a vida nos levar é o mesmo que assumir que não estamos interessados em assumir a culpa por nossas falhas e mancadas. No entanto, é falhando que se aprende a acertar e, ao optar por continuar sendo levado pela vida, estamos nos furtando de crescer e aprender com base em nossa experiência, que é única.

No colégio, que tipo de estudante era você: aquele que respondia com suas próprias palavras a questão cuja resposta não sabia ou aquele que esticava o pescoço para copiar a resposta do colega ao lado, mesmo sabendo que ele também poderia não saber o que estava escrevendo? Hoje, ainda é igual. Você prefere aprender com os erros advindos de suas próprias escolhas ou com os erros advindos das situações às quais a vida te levou? Ninguém com juízo senta no carona de alguém sem conhecer o destino. Nós é que devemos levar a vida, não o contrário.
por Juliana Jacyntho, em 10/29/2004 04:38:11 PM



Trust and let go

Está na sala um grupo de seis funcionários de uma empresa. Três deles posicionam-se, de costas, na frente dos outros três, e são orientados a jogar o corpo para trás, como se fossem cair. Mas não caem. Não caem se o colega de trás estiver atento para segurar aquele que se joga. Muitos não conseguem simular a queda, por um simples motivo: não confiam no colega que está na retaguarda. A brincadeira do trust and let go, o confiar e deixar acontecer, é utilizada como parte do treinamento de inúmeras equipes de trabalho com o objetivo de azeitar o relacionamento dos funcionários e estreitar os vínculos de confiança entre um e outro, criando uma atmosfera positiva para que se otimize a produção.

Não só nas fábricas e grandes corporações se brinca de trust and let go. Na vida particular, desde muito cedo, a vida já pedia de nós que confiássemos no outro. Confiamos em nossa mãe, em nosso pai, em nossa babá, quando, ainda bebês, estávamos molinhos demais e nos sentíamos largadões e meio soltos naquela banheira cheia d'água, se não fosse o braço firme de quem nos segurava. E isso foi só o início.

Já confiamos no grupinho de melhores amigos, formado ainda no colégio. E era um tal de troca de confidências cá, troca de segredinhos lá, uma mão lavava a outra aqui, um olhar dava cobertura a passos dados em outro canto.

Já confiamos no primeiro amor, deixando de lado a inocência, em troca de um, dois, três, mil beijos apaixonados e uma dúzia de cartas e bilhetes sinceros, sinceros como devem ser, exagerados como devem ser, entre juras eternas, os primeiros amores. Confiamos não só no primeiro, mas nos do meio e também no último e então passamos a desejar que o último sempre faça por merecer a sua ilustre posição: último a chegar na vida, primeiro no coração. E seguimos nós dando a corda da confiança com um só objetivo: segurança.

O tempo inteiro estamos depositando a nossa confiança nas mãos alheias, em busca de um só retorno: segurança. Segurança é tudo. Poder confiar em alguém e sentir-se seguro para dar um passo, dois, três passos na vida é privilégio muito grande e muito querido. Poder se jogar para trás sem ter que avisar em alto e bom som: me segura, simplesmente porque já existe um alguém esperto e cuidadoso te esperando rente ao chão, de braços abertos, é privilégio que deve ser percebido. E agradecido. E retribuído. Sem perceber, estamos nós fazendo a brincadeira do trust and let go, com sucesso: confiando, se jogando, recebendo o colo e apoio esperados e deixando tudo acontecer na mais perfeita sintonia.
por Juliana Jacyntho, em 10/27/2004 10:41:48 PM



Até logo pra quem fica, dá licença que eu tô chegando.

Um belo dia você acorda e se vê dizendo um tchauzinho para pais, amigos, livros, uma caneca antiga que você usa para tomar café com leite desde que se entende por gente. Se despede de tudo e todos que fazem parte do que você convencionou chamar de vida. Você está mudando de endereço, de cidade, de país e sabe que uma simples mudança não te fará menos filho, menos mãe, menos amigo. Mas ainda assim, tende a sofrer, afinal, distância aperta o coração, é verdade. Mas calma: as estradas e as rotas aéreas estão aí para apaziguar corações apertados pela saudade. Saudade de tudo o que você aprendeu a reconhecer como familiar.

De repente, todos estes referenciais são retirados do seu convívio diário por causa de uma nova vida que você escolheu para chamar de sua. Mesma vida, só que cheia de novos atributos: nova cidade, nova casa, novo estado civil, novos amigos, novo endereço. Novos códigos sociais, novas demandas de comportamento. Desafios, alegrias e tristezas. Dá medo, é, dá medo. Tudo que desconhecemos dá medo.

Quem parte não sabe se a ansiedade dá as caras pelo que deixa para trás do vidro do carro ou se ela descompassa o coração em batimentos desuniformes pela ansiedade que se instala até conferir o que há de novo. Quem parte se preocupa em saber incorporar o que lá haverá de bom e rechaçar o que lá haverá de descartável.

Se um dia a vida te convidar, com uma proposta sedutora e irrecusável a mudar de habitat e você aceitar o convite, não faça drama, deixe o teatro para quem é de teatro. Você pode até não se dar conta, mas estava tudo no seu script. Considere-se um privilegiado se a vida te oferecer a oportunidade de trilhar um caminho totalmente diverso daquele que até aqui foi percorrido. Quantos têm esta chance?

Gente é para se mexer. Mexer a poeira, abrir as gavetas, remexer as energias, desfazer as malas e fincar bandeira. Sempre que o coração mandar e a vida permitir, com perspectiva positiva e coragem. Só quem vive munido de coragem se permite dar as caras para a vida. Se ela nos acariciar, beleza! Se nos esbofetear, levará o mesmo golpe de volta, que aqui não tem gente boba não. No futuro, pensaremos: "o lar, doce lar de hoje já foi terreno incerto e desconhecido. E eu venci, mais uma conquista na vida". Próximo desafio da fila, por favor!
por Juliana Jacyntho, em 10/25/2004 05:23:25 PM



Receitinha

Todo mundo está careca de saber que não há receita de sucesso para relacionamento algum nessa vida. É. Mas também não podemos deixar de reconhecer que há sentimentos que valem mais, que falam mais alto, que nos dão a esperança de que, se cultivados, nos conduzirão à felicidade duradoura.

Lendo uma entrevista na qual a cantora Fernanda Abreu declara que "o mais importante numa relação é ter assunto porque tesão é sasonal", lembrei-me de um ditado sábio sobre o mesmo assunto que prega que, "quando for decidir se casar com alguém, escolha aquele com quem você tem mais prazer em conversar porque, daqui a alguns anos, conversar vai ser o que vocês dois mais farão juntos". Pode ser.

Pode ser que casais, hoje, loucamente apaixonados, transformem-se em melhores confidentes um do outro com o passar dos anos. O que já seria um lucro enorme, considerando que muitos casais sequer trocam idéias sobre seus dias, sobre seus gostos, sobre suas vidas, abrindo espaço para o tédio e para o constrangimento causado pelo silêncio que se instala quando a paixão vai embora e não há o tal do assunto para segurar a onda de uma vida a dois.

Assunto. É saber apreciar a rota que percorreram juntos, é achar lindo o jeito como vocês se conheceram, é ter orgulho pelas conquistas profissionais um do outro, é sentir segurança num abraço apertado, é relembrar, a cada beijo, ainda que raros, o turbilhão de emoções do início do namoro. São os filhos que vêm, são os filhos que crescem, com características definidas, herdadas de cada um dos pais. É poder passar noites inteiras, por anos e anos, trocando idéias sobre novos e velhos projetos, sobre novas e velhas histórias. É ter história.

Assunto é cumplicidade. Assunto é admiração. Ter assunto é tudo numa vida a dois, realmente. Salvo Alice, Branca e Rodolpho, ninguém mais se ilude com país das maravilhas, sete anões e Papai Noel, assim como ninguém inteligente se ilude com a promessa de uma história de paixão ardente eterna. Paixão aproxima, faz querer, mas o que segura, o que faz ser para sempre, o que faz permanecer, o que faz ser história é mais. É poder olhar para a mesma pessoa e compreender, todos os dias, o porquê d'ela fazer parte de sua vida.
por Juliana Jacyntho, em 10/21/2004 10:11:07 PM



Admirável elegância nova

O silêncio continua sendo a arma dos inteligentes, embora muitos disso não se dêem conta quando mais precisam. O silêncio continua sendo precioso e estratégico, mas tanta gente disso anda esquecendo, externando sua ponta de deselegância.

Saem ferindo, machucando, magoando. Ora propagando inverdades, ora propagando verdades que lhe foram confiadas em vão. Tem gente que não sabe guardar segredo. Tem gente que não sabe calar, nem nas horas em que o protocolo pede, falam alto e conversam sobre o índice bovespa em casamentos e enterros. Antes falar de economia! Sim, porque tem aqueles também que querem é falar mal do vestido de quem acabou de passar, destilando o veneno do despeito. E a noiva lá, subindo ao altar. E o morto lá, esperando sua subida aos céus porque, dá licença, aqui embaixo está repleto de gente mal educada, é o que pensa o morto.

Repleto mesmo. Se até a Glória Kalil, baluarte da elegância de nossos tempos, já confessou ter cometido gafes, que dirá pobres mortais que ainda não descobriram o paradeiro do seu chip da finesse e da discrição no cérebro. E não são poucos. Para damas e cavalheiros ainda em estado bruto, livros de boas maneiras. Cursos de etiqueta. Passo a passo da elegância. Compre batom. Mas peraí. Será que Glorinha leu livros de etiqueta para ser a pessoa agradável, educada e, ao mesmo tempo, descontraída e natural que vemos nas entrevistas na tevê? Duvido um pouco. Nasceu assim, foi lapidada pelos pais e se empenhou em ser gente boa.

Nenhum livro, nenhum curso, nenhum consultor ensinará ninguém a ser gente fina, a ter jogo de cintura, a saber circular em todas as rodas da cidade com a mesma naturalidade e o mesmo respeito. Sem autoconhecimento, sem ler, sem escutar boa música, sem ter colo de mãe e amigos, sem troca de idéias, sem saber detectar - e valorizar - um olhar apaixonado, sem viajar por aí com disposição alegre e olhos atentos, sem dizer bom dia, obrigada, com licença, sem respeito ao próximo e ao meio, sem reconhecer o valor de um sorriso franco, sem isso tudo não há elegância.

Não existe elegância sem que se viva de verdade. Elegância não é ler livros de etiqueta e repetir comportamentos sugeridos como um bando de robôs. Elegância é graça, encanto, e não sou eu que o digo, mas o grande Professor Aurélio Buarque de Holanda. Graça, encanto, charme, je ne se quois. Está tudo aí dentro. De mim, de você, de todos nós. Mas é uma pena que tanta gente não consiga olhar para dentro de si mesma de vez em quando para trazer à luz o seu melhor. Para eles, livros de etiqueta! Na veia.
por Juliana Jacyntho, em 10/20/2004 02:14:49 PM



Donos da História

Sábado passado fui assistir ao filme "A Dona da História". O enredo é o encontro de uma jovem com ela mesma, trinta anos mais tarde e o confronto entre a realidade de ambas: o que uma escolheu no passado e que foi vida para a outra. Vida esta que, de início, parece não agradá-la. Que sortudos seríamos nós se pudéssemos ter um encontro marcado com nós mesmos daqui a trinta anos. Perguntaríamo-nos: -- " E então, fiz as escolhas certas para você? Está satisfeito com os caminhos que traçamos? Ou quer que eu mude tudo para você viver uma outra vida?"

Mas não. Salvo tecnologias cinematográficas, este encontro não será possível para nenhum mortal. Este diálogo entre mim-meia idade e mim jovenzinha não acontecerá. Mas o diálogo com o espelho, hoje, é sempre muito bem-vindo. E necessário. Quem foi que disse que não podemos ser o que queremos? Quem foi que disse que não podemos estar com quem desejamos? Quem foi? Não sei. Nem interessa. O que interessa é que ninguém em sã consciência deseja chegar aos sessenta e olhar para trás e se sentir insatisfeito com a trajetória traçada. Ninguém. A hora de viver e mudar a rota para quem não está contente é agora. A oportunidade está passando na sua frente. É quando uma voz sussura ao seu ouvido: se joga! Vai ignorar?

Não há equações. Não há respostas exatas. A vida não é um previsível 2 + 2. Longe de ser.

Ninguém tem como prever se o seu Eu sessentão-experiente aprovará as atitudes tomadas nos arroubos da juventude, é verdade. Mas tenhamos certeza de que ele não endossará a covardia de não ter tentado, um dia, sentir-se feliz e realizado nos moldes que desejava. Para isso não há perdão: inércia leviana que leva à constatação de ter passado a vida em branco. Queremos contexto rosa-choque, com pinceladas rosa-bebê, douradas, vermelhas, azuis, verdes, amarelas, laranjas, turquesas... a palheta inteira! Inclusive pingos pretos, cinzas-chumbo, marrons, necessários para aprendermos a levantar e crescer e sentirmo-nos mais fortes e maduros. De branco, só o travesseiro em que recostaremos a cabeça, em paz, todas as noites. Só a lua cheia. Só tapioca. Camiseta hering básica. Só coisa boa. Mas vida em branco não.

Muito provável que o futuro diga, para nossa tranquilidade, que seguimos o caminho correto: o caminho de quem seguiu os instintos, seguiu o coração, foi fiel às suas vontades e seus ideais. O caminho de quem optou por ser feliz. E foi. E será. Conclusão gostosa de gente que viveu de verdade, como aconteceu no filme e fez chorar de emoção. Só que era melhor: era vida real. Colorida vida real.
por Juliana Jacyntho, em 10/18/2004 04:13:57 PM



Homenagem Póstuma



A última crônica

Por Fernando Sabino

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.

A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho -- um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.

A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura -- ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido -- vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

Texto extraído do livro "A Companheira de Viagem", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1965, pág. 174.
por Juliana Jacyntho, em 10/14/2004 05:56:28 PM



Passado bom é só passado

Quem nunca escutou uma história de amor mal resolvida, daquelas que, vinte anos depois, ainda faz os protagonistas tolerarem o tremer das pernas, o desviar dos olhos e o acelerar descompassado do coração?

Como explicar a transformação daquele amor jovial para um constrangimento só? Como entender, hoje, a repulsa de alguém que no passado era só beijos e abraços? Simples: quando ainda incomoda é porque não é tão passado assim.

Passado bom é o que passou. O que acabou e deixou lembranças, boas ou más, mas acabou. Sem saudades. Não se tem saudades de amor antigo, não se tem saudades de um ex-ficante, não se tem saudades de um ex-marido, de uma ex-mulher. Não se hoje o posto é ocupado por outra pessoa que faça por merecer o papel que desempenha na sua vida.

O passado bate à porta querendo ser protagonista quando o coração está vago, vazio, ansioso por preenchimento. Na falta de um afago, nosso cérebro nos trai e nos remete a lembranças de amores da adolescência, de um ex-amor que não deu certo, de um ex-amor que até deu certo, enquanto durou, mas que não era para sempre.

Se o coração está preenchido e a lembrança mais remota de alguém que um dia te foi caro insiste em rondar a sua vida, a luz vermelha de alerta poderá estar piscando e você ainda não percebeu: será que você esqueceu algum pertence pelo caminho? Será que você deseja buscá-lo de volta, embora não assuma sua vontade? E se aquela pessoa lá de trás da sua vida resolver te fazer uma visitinha para devolver o que você deixou por aí? É. Confusão.

Por estas e outras, para evitar confusões sentimentais, para não protagonizar dilemas amorosos ou para não ser vítima fácil de triângulos indesejáveis, ciúmes, abandonos e inseguranças, muita gente anda enxergando que não importa quantas incompatibilidades um casal apresente, se ainda há desejo, se ainda há atração, se ainda há saudades, o negócio é insistir mais um pouco. Esgotar as possibilidades de dar certo. Término consciente. Do contrário, sairão, ele e ela, cada um, carregando o seu pacotinho torto chamado "amor mal resolvido" que apoquentará o desenvolvimento saudável de qualquer outra empreitada amorosa futura vida afora.

Passado bom é aquele passou. Não bate à porta, não telefona, não reclama atenção. Entende que foi importante numa dada época da vida, mas não mais. E não insiste. Apenas torce pela felicidade e pela realização do presente. E ponto final.
por Juliana Jacyntho, em 10/13/2004 04:04:46 PM



Eduardo e Mônica, hoje.

Como duas pessoas que nada têm a ver uma com a outra conseguem ser casal e nessa formação permanecer por um longo espaço de tempo? O que leva a pessoa à ignorância de características dissonantes do outro que com ela divide cama, mesa e, por vezes, banho?

Gente estilosa se pega com gente cafona. Gente descolada se pega com gente careta. Gente viajada se pega com gente cujos pés vivem plantados em casa. Ela, sashimi. Ele, buxada de bode. Ele, jazz. Ela, axé. Ela quer ver Picasso no MAM, ele já comprou o ingresso para a festa do peão boiadeiro. E por aí vai o cardápio de casais antagônicos que se formam todos os dias, em todos lugares do mundo.

A máxima tão conhecida que afirma que pólos opostos se atraem foi importada da ciência justamente para explicar esse comportamento intrigante. Embora rasa, esta explicação não deixa de ser uma abordagem romântica, no melhor estilo eduardomoniquiano, citando o casal descompassado mais famoso, cantado pelo Legião Urbana nos anos oitenta.

Amando vale tudo. Amando passa-se por cima de diferenças de gênios, gostos, estilos, preferências. Mas até quando? Até quando, em nome de amor tão grande, passarão os protagonistas do romance por cima de sua própria vontade, de sua própria personalidade? Que relacionamento sobrevive ao abismo social e cultural que se instala no meio de um casal que não se interessa pelas mesmas atividades, que não tem gostos comuns e que não suporta fazer os mesmos programas? É sempre ele pra lá, ela pra cá e se encontram de quando em vez. Não por muito tempo, pode escrever.

Amores assim respiram com o auxílio de aparelhos até o dia em que os pais decidem tirar o fio da tomada, desligar as máquinas e deixar o descompassado descansar em paz. Faz-se o luto, compreende-se a causa mortis e, por fim, cada um se compromete a buscar um outro amor. Este, agora, afinado.

Eduardo e Mônica? Separados. Eduardo, hoje, desfila com outra, feliz da vida, enquanto Mônica encontrou o que convencionou chamar de par ideal. Sábios, enxergaram o incômodo das diferenças antes que o sufoco da anulação e da solidão disfarçada lhes tirasse o ar por completo. Existe, sim, razão nas coisas feitas pelo coração. Ela atende pelo nome de felicidade. E, em se tratando de felicidade, dá licença, o meu pedaço primeiro.
por Juliana Jacyntho, em 10/7/2004 02:23:22 PM



Artistas

Xarope é palhaço, formado pela Escola Nacional de Circo. Sempre quis despertar o riso nas pessoas, sempre quis brilhar no picadeiro. Alimenta, desde a adolescência, o sonho de construir a sua própria escola circense, voltada para comunidades carentes. Xarope tem um sonho. Sonho que, hoje, dá lugar à outra atividade exercida por seu dono. Xarope é bancário. Xarope não, José Luís.

Ticiana é artista plástica. Pinta belíssimos quadros que guarda na garagem da casa de sua mãe. Enquanto espera ser descoberta por um marchand poderoso, Ticiana segue procurando emprego na área em que se especializou: Economia.

Xarope conta que não nutre paixão alguma pela sua profissão. Confessa que se flagra passando os olhos pela agência em que trabalha e se envergonha de fazer parte de paisagem tão mal humorada. Mas respira fundo e dela insiste em participar: precisa do dinheiro, afinal.

Ticiana explica que, desde que saiu do seu último emprego para concluir uma pós-graduação, vem encontrando dificuldades em retornar ao mercado de trabalho. Assume que sua maior adversária é ela mesma, pois não consegue "se vender" para os potenciais empregadores, simplesmente porque não deseja a vaga oferecida com a paixão e o engajamento que dela eles esperam. "Seria só um degrau e um ganha pão para mim, até a realização de minha primeira vernissage. Mas não posso deixar transparecer. Preciso me empenhar mais na arte do convencimento", reconhece a moça.

José Luís e Ticiana são artistas não só no picadeiro e entre telas e pincéis. José Luís encena, diariamente, o bancário satisfeito e produtivo. Ticiana encena a jovem economista motivada, em busca do primeiro emprego. Sem paixão, fingem-se apaixonados. Motivados por outros sonhos, fingem-se ansiosos por uma baia para chamar de sua.

Esses dois, como tantos brasileiros, vestem a camisa da burocracia por cima, mas desejam ardentemente fazer um gol no futuro próximo que os permita, na comemoração, mostrar a camisa de baixo, como fazem os jogadores de futebol. Segundo Xarope, sua camisa de baixo diz assim: "Consegui. Descobri que sou capaz de desenvolver um ofício prazeroso e rentável e fui atrás deste sonho pessoal. Ao meu antigo chefe, obrigado! Mas não, eu nunca quis ser bancário desde os oito anos de idade". Só para seus registros, desde o dia em que marcou o seu primeiro gol, Xarope nunca mais voltou a usar a camisa de cima.
por Juliana Jacyntho, em 10/5/2004 03:22:51 PM



Desafio Pessoal

Fim de praia. O sol se põe. Garis passam varrendo a areia. Duas amigas permanecem no local, fazendo da canga o seu divã particular.

Uma se queixa de não conseguir tolerar as implicâncias de sua chefe e de explodir toda vez que a pobre diaba insiste em ridicularizá-la na presença de toda a equipe. A Outra responde: "está tudo aí dentro. Você é quem domina seus pensamentos e sentimentos e expectativas. E domina seus atos. A gente tem o poder de não repetir condutas que já empregamos no passado e que não deram certo, ninguém mais. Falta colocar nossa sabedoria em prática". Mas Uma retruca: "eu sei, mas o mais difícil é não repetir o mesmo comportamento, parece que estou programada". A Outra conclui: "mas então o seu desafio pessoal é desprogramar-se!"

Cada um de nós tem um desafio pessoal. Um compromisso consigo mesmo. É vencer um mau hábito, é não empregar uma postura que desagrada, é não calar mais uma vez, é não dar show mais uma vez, é não repetir comportamentos que já enxergamos, ao longo dos dias, que não funcionam. E não só não funcionam. Envergonham. Ou decepcionam. A nós e aos outros.

Quantos relacionamentos terão que terminar para compreendermos que ciúmes e coleira não convivem de forma harmoniosa com o amor que idealizamos para a vida inteira? Quantas feições de decepção teremos que presenciar para entender que, não importa nossa opinião, às vezes é preciso recuar e não dizer o que sentimos a ferro e fogo, preservando a convivência respeitosa com pais, mães, avós, tios e tantos outros que já viveram tantos anos na nossa frente? Quantas advertências ainda teremos que receber para, enfim, percebermos que a língua maior que a boca não condiz com credibilidade? E tantos outros desafios.

Todo mundo sabe onde o seu sapato aperta. Todo mundo enxerga onde erra, seja em casa, seja no trabalho, seja em qualquer outra situação do dia-a-dia. Permanecer errando e seguir os dias repetindo o mesmo comportamento que já se mostrou inadequado é opção de cada um. A capacidade de agir diferente está dentro da gente. Basta querer, basta se mexer, sem preguiça de mudar e inovar. Se viver não é isso, o que será então?

Viver é exercício de aprendizado e de aperfeiçoamento. Nascemos todos diamantes brutos, com extremidades pontiagudas. Com o passar dos anos, vamos aparando as pontas, lixando aqui, cortando ali, lapidando o material que um dia nos foi dado. É como na música Serra do Luar, de Walter Franco, que diz que "viver é afinar o instrumento, de dentro pra fora, de fora pra dentro". Basta querer ouvir boa música.
por Juliana Jacyntho, em 10/5/2004 01:45:55 PM



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