Rotina, coisa gostosa?
Sensação das melhores por nós experimentada é a tal da sensação de dever cumprido. Expectativas atendidas e superadas. Costas sem peso. Sorriso fácil no rosto. Leve dorzinha nas pernas, que não pararam no dia. Cansaço bom que nos lembra que o dia terminou e muito se fez, muito se produziu, muito se disse e se escutou.
Vale a pena não tapar os ouvidos para o despertador e levantar na hora. Vale a pena não fazer vista grossa para a cama desarrumada, criar coragem e colocá-la em ordem. Ela é que te receberá na volta, então melhor que te receba bonita e esticadinha. Vale a pena tomar café preto com leite, pão com grãos e uma frutinha para acordar o organismo. Vale a pena pegar o elevador e ter destino certo: seja um trabalho, seja um estudo, seja uma praia, seja para levar as crianças ao colégio. Vale a pena ter acordado para alguma coisa.
Quantas coisas as quais apenas chamamos de rotina são importantes e preciosas para o correr sadio de nossos dias. É bom ter uma rotina para chamar de sua. É bom ter um emprego para chamar de seu. É bom ter uma função a ser desempenhada, ainda que lá embaixo de toda a hierarquia. É bom ter um papel definido a ser exercido, ainda que dentro de casa. Do contrário, a cabeça vaga. Do contrário, pensamentos desocupados imperam. Do contrário, a insatisfação se instala. E quando você menos percebe você não está mais vivendo, está se arrastando.
Viver pressupõe estar alerta, ativo, falante, ainda que se fale apenas com o brilho dos olhos ou com o toque da mão. Viver pressupõe estar inserido em um grupo, em qualquer grupo que seja. Que seja família, que seja o trabalho, que sejam amigos, mas que em todos eles você se sinta amado, querido e útil. Viver é como atuar, só que o palco de quem vive a vida real não é o palco dos teatros e casas de shows. É o seu carro, sua mesa de café da manhã, seu almoço com os colegas do escritório, sua consulta ao médico, seu choppinho amigo depois do trabalho, o engarrafamento, o elevador que você toma ao chegar em casa, o beijo que dá no marido, o abraço forte que dá na mulher, o cafuné que você faz no seu filho.
Rotina não tem a ver com tédio, nem com mesmice. Rotina é vida. Sua vida, todos os dias. Se a rotina será prazerosa, gostosa e se você chegará em casa na maior parte de seus dias satisfeito, de bem com a vida e com a tal sensação de dever cumprido, ah, isso eu não posso escrever aqui. Só você é quem pode dizer se tem se empenhado em fazer esta realidade possível.
por Juliana Jacyntho, em 11/29/2004 07:42:01 PM
Gregos, Troianos e quem mais vier
Sinuca de bico é ter que agradar a dois lados divergentes: duas torcidas, duas famílias, dois clientes, pai e mãe, dois amigos, e por aí segue a quantidade de gente que ostenta interesses divergentes sobre os quais nós, pobre mortais, temos que opinar e, ainda pior, decidir.
Não é de hoje que conhecemos a impossibilidade de agradar a todos. Nem no nosso nascimento agradamos a todos. É possível que nós mesmos tenhamos achado uma verdadeira bolada nas costas retirada tão brusca de ambiente tão aconchegante como nos parecia ser o útero materno. É possível que um priminho ciumento tenha nos achado carequinhas e bochechudos demais. É possível que aquela tia chata solteirona tenha nos achado tadinhos, tão magrinhos. Portanto, já nascemos "não agradando" a todos.
Crescemos e continuamos convivendo com a arte de superar a falta de unanimidade que segue nossos passos e com a diplomacia que se faz necessária para fazer a vida em comum viável, diante de tantas discordâncias. Como agradar a gregos e troianos, considerando que nós mesmos somos um deles? Para toda e qualquer decisão nesta vida nós assumimos estar ao lado dos gregos ou dos troianos, assumimos um lado, uma postura, um querer. Para todos os desafios diários a gente toma partido por uma causa, por uma história, por uma opção, a gente escolhe fazer parte de um time e espera-se que todos os nossos sins ou nãos sejam prolatados de acordo com as tendências deste grupo. Como é difícil!
Como é difícil sorrir amarelado para aqueles cujas idéias não compramos. Como é difícil tentar explicar porque tomou-se uma estrada e não a que foi sugerida. Como é difícil "fazer que não ouviu" a preferência de alguém que lhe é caro para priorizar a sua própria preferência. Como é difícil reconhecer que às vezes é mais prazeroso ser egoísta e não altruísta.
Escolher ser um grego ou um troiano e assumir o risco de desagradar alguém que te interessa envolve sentimentos cinzas como decepção e desapontamento, daí ser tão difícil, embora necessário. Se assim não fosse, seríamos como os tucanos, as marias que vão com as outras, os que vivem em cima do muro, os que não dão nem descem, e também aqueles que não desocupam a moita. Para que não doa tanto assim, sinceridade, clareza de anseios e vontades, desde o início de qualquer empreitada. Para que não doa tanto assim, jeito, voz mansa, argumentos, ainda que não aceitos, mas Deus queira, compreendidos.
por Juliana Jacyntho, em 11/24/2004 08:16:50 PM
Só pode ser deboche
Lembram quando, pequenos, estávamos na santa paz do carro de papai e mamãe e sempre tinha um infeliz no carro da frente, da nossa idade ou mais novo - ou mais velho, vá saber - que se virava para trás e fazia questão de ser a criatura mais antipática do mundo, mostrando-nos a língua, sem nenhum motivo ou razão aparente? Lembram? Pois então vocês, como eu, estão familiarizados, desde cedo, com a cultura do deboche.
Talvez seja por isso que ninguém se leva muito a sério. Talvez seja por isso que ninguém esteja preocupado em se engajar em causas políticas ou sociais. Engajar? Só pode ser deboche! E eu vou lá me engajar em alguma coisa? E daí se o ex-ministro presidente da cúpula de Justiça de nosso país foi acusado de vender sentenças de habeas corpus, livrando traficantes da jaula que mereciam, e nada lhe aconteceu? Não temos nada a ver com isso, não é mesmo? Nem mesmo sabendo que o ilustre jurista velhinho hoje repousa à beira da piscina, por força de sua aposentadoria arrumada às pressas, só tendo, agora, uma preocupação nesta vida: a de gastar muito bem gasto os quase quinze mil reais mensais que os cofres públicos a ele pagam, religiosamente. Será que não temos nada com isso mesmo? De onde será que vem o dinheiro que este senhor hoje recebe? Responda rápido, mas sem palavras de deboche, por favor!
Coitada de mim que peço ao leitor que não deboche de nós, povo que toma no lombo e nada faz... O que são meras palavras de deboche perto de pessoas cuja postura, por si só, já são um deboche? O que dizer do casal de governadores do Estado do Rio de Janeiro e a venda de votos por um real? O que dizer do presidente da República que, até uns anos atrás se amarrava em usar um macacão básico, quiçá uma camisa xadrez pra dentro da calça, e hoje em dia parece que não consegue viver sem encomendar, na semana, dois, três ternos de grife bem cortados e faz disso notícia? E o tal do Fome Zero, aclamado como 'o projeto social da mudança', ficou na estaca zero mesmo ou é mais um deboche?
Verdadeiro ou Falso: é deboche que os morros estão constantemente em guerra e o cidadão carioca não pode fazer livre uso da sua garantia constitucional de ir e vir, na hora que bem lhe entender e, ainda assim, não há implantação de uma política de segurança pública eficaz? É deboche que uma funkeira seja proclamada a fina flor da cultura nacional e vá para a Europa representar a música brasileira num festival do gênero? É deboche que o preço do combustível não pára de ter reajustes e que também não vai parar de ter nos próximos dias, porque o dono da guerra do petróleo foi reeleito e continuará no poder por mais alguns anos?
Se você respondeu "verdadeiro" a pelo menos uma das hipóteses acima elencadas, não se preocupe, você não está só. Tem gente como você que também enxerga que alguma coisa, no mundo, está fora do lugar. A vergonha na cara, o respeito ao próximo e o bom senso são apenas alguns exemplos. Como dizia a avó de uma grande amiga, "só Jesus voltando". Mas, em tempos de feng shui e desobstrução de energias pela simples arrumação de gavetas, será que temos que esperar por Jesus para começar a pôr, enfim, as coisas e pessoas nos seus devidos nichos? Acho que não. Mas como você, também não sei por onde começar. Pelas minhas próprias gavetas, talvez. E não, este texto não é mais um deboche. Não precisamos debochar uns dos outros se já tem gente que faz disso profissão.
por Juliana Jacyntho, em 11/22/2004 03:40:30 PM
Cinderelas amarelas
Desistir nem sempre é atitude de covardia. Pode ser uma demostração de sabedoria: saber reconhecer a hora de não dispensar esforços e energia em projetos que não mais atendem aos nossos desejos. Ninguém precisa dar murro em ponta de faca durante anos para, enfim, compreender que uma postura, uma situação, uma profissão ou uma pessoa lhe incomoda. Pode simplesmente reconhecer que incomoda e descartá-la e partir para outra, numa nice, embora alguns de nós sejam adeptos do método empírico "só levando muito na cara para aprender", também válido, porém dolorido.
Desistir, então, pode ser uma retirada estratégica. Pode representar o sono profundo de uma opção que não queremos mais e colocamos para dormir para priorizar outras escolhas. Até aí, tudo bem. A situação fica perigosa quando saímos por aí desistindo e colocando tudo para dormir: namorados, amigos, irmão chato. Casa, marido, mulher. Trabalhos, estudos, novos projetos. Nada nos seduz, nada prende nossa atenção. Desistimos das pessoas e dos desafios com a mesma facilidade com que piscamos as vistas. Se me incomoda, desisto. Se me chateia, desisto. Se não-me-faz-feliz-vinte-e-quatro-horas-por-dia, desisto, dá licença. Gente prática esta gente. Prática e tola.
É tolice achar que a felicidade bate à porta todo o dia, em todos os segundos. Quem foi que andou contando esta mentira cabeluda? Os pais, as tias do colégio, os livrinhos de história que, pequenininhos, costumávamos ler e que nos fizeram crescer assim: maravilhados, desbundados, sedentos por dias glitterizados, compostos por relacionamentos cor de rosa choque e escritorinhos verde pistache. Tudo lindo assim.
E ai deles se assim não forem. Nosso protagonista emburra a cara, faz bico, ameaça pular fora do barco, pedir licença da vida novamente, e desfia o rosário de lamentações. Há queixas e questionamentos sadios, que nos levam a quebrar a inércia e dar um looping revolucionário na nossa própria história. Há outros, no entanto, que são resquícios de algum complexo de cinderela mal resolvido dentro de nós, homens e mulheres, que faz com que queiramos tudo perfeitinho, capa de revista e, ao primeiro sinal de existência de vida real (amém), deixamos a rabugice e a falta de persistência tomarem conta do ambiente.
Arregassar as mangas de vez em quando não dói. Desistir de tudo o que nos desagrada, como se fôssemos nós o centro do universo, é uma ameaça tentadora. Se a ela sucumbirmos, seremos, sim, o centro do universo. Do universo do eu-sozinho. Do universo do eu involuído. Do universo daquele que passa na rua e é apontado como Amarelão. Aliás, nem será apontado. Esqueci que no universo do Amarelão só tem espaço para ele mesmo. E para o seu umbigo.
por Juliana Jacyntho, em 11/18/2004 01:42:06 PM
Super-Homens e Mulheres-Maravilha
Sofrer por antecipação é um defeito que muitos de nós trazem na personalidade. Uns aprendem, com o passar dos dias, que de nada adianta sofrer por algo que é apenas e tão somente um prognóstico, não uma situação de fato. Outros, entretanto, vão gastando seus neurônios e paciência nesta arte de sofrer, ainda que a razão das rugas na testa seja, ainda, nada de concreto. Loucura, diriam uns. Perda de tempo, diriam outros. Defesa, responderia quem costuma sofrer antes de todo mundo. Ou medo, responderiam outros que também sofrem por antecipação.
Quem sofre antecipadamente por medo, sem buscar soluções para desanuviar as suas preocupações, pode entrar num buraco sem fundo, num ciclo vicioso: de que adianta sofrer, matutar, se conclusão nenhuma vier ajudar? De nada vale. Há quem antecipe o sofrimento por defesa prévia. Ele prepara sua cabeça e seu organismo para uma possível batalha, para uma possível derrota, não importa. Ele se prepara mesmo sem saber se o futuro próximo reclamará por desempenho, por atitude, por sofrimento ou por celebração. Mas está lá, se preparando. Está lá, fazendo progressões.
De tanto passar e repassar as situações de desafio na sua cabeça e, igualmente, passar e repassar sua postura diante destes desafios, é possível que aquele que sofre por antecipação esteja mais preparado na hora do vamo vê do que aquele outro mais relaxado que espera a adversidade chegar para ver qualé. É, pode ser. Pode ser também que o primeiro vire escravo deste hábito de antecipar-se, não dando tréguas aos seus pensamentos, ao seu direito de relaxar, ao direito que todas as coisas da vida têm de acontecer, assim, inesperadamente.
Este que sofre antes dos fatos pode não prever todos os percalços. Certamente, não preverá. Acostumado que está a agir sempre premeditamente, programadamente, com todos os movimentos certinhos e calculados, pode se sentir despreparado diante de uma demanda de atitude qualquer. Muito bom. Pois é aí que ele aprenderá a se virar, a dar seus pulos, a rebolar, a ter jogo de cintura, a entender que a vida é assim: uns dias previsíveis, outros caixinhas fechadas.
É quando, então, ele vai entender que, se assim não fosse, tudo isso aqui que presenciamos poderia ser mais entediante do que às vezes parece. Vai entender que, por mais preparado que ele deseje estar, sofrendo pelos desafios e acontecimentos vindouros antes dos mesmos baterem à porta, ele nunca estará tão preparado assim em todas as situações. E que é assim com todo mundo. Normal. Vai entender que umas dificuldades ele tirará de letra, outras não, mas é assim que a banda toca. E vai gostar da música. Vai entender que esta é a trilha sonora de sua vida: a de dias preparados e outros de improviso e assim é que soa bom. Vai entender, neste dia, que pode viver sem sofrer pelo que está por vir porque aprendeu que o sabor da superação e do reconhecimento de sua capacidade é gostoso, é animador, amadurece, o faz mais forte. Para o alto e avante.
por Juliana Jacyntho, em 11/12/2004 12:07:14 PM
Calar e respeitar parece ser difícil
Cristina descobriu que sua mãe, de oitenta e cinco anos, tem câncer. Por recomendações médicas, considerando a idade avançada da paciente, convencionou-se ser melhor não tratar o tumor. Sem operação, sem quimioterapia, sem nada. Convencionou-se que aquela senhora tem direito a ter um fim de vida em paz. Mas o povo fala. Dizem que Cristina não poderia deixar de dar tratamento à sua mãe. Dizem que ela é individualista. Dizem que ela é relapsa. Dizem: "se fosse a minha, eu operava". Diz-se. Fala-se. Fala-se muito. Falar é fácil. Viver pode não ser tão fácil assim.
Lucas teve pouquíssimo contato com seu pai biológico, que nunca se interessou pelo filho. Nâo se vêem há mais de dez anos. Nos poucos encontros que tiveram, nunca havia afinidade, mas constrangimento. Lucas foi criado por um tio chegado, a quem convencionou chamar de Pai. Aquele que o gerou hoje amarga uma vida de solidão, de doenças, de privações, e se nega a receber ajuda dos parentes que o procuram. Lucas sente dó quando escuta notícias deste estranho que vive mal mas, quanto a ele, opta por viver a sua vida como sempre viveu: longe. Há quem aponte Lucas como insensível. Há quem aponte Lucas como egoísta. Há quem o censure. Censura-se. Aponta-se. Apontar é fácil. Viver pode não ser tão fácil assim.
Viver não é fácil e todos sabemos disso. Todos nós temos conflitos a serem enfrentados e compreendidos e superados a todo tempo, a toda hora. Se pimenta nos olhos dos outros é refresco, para quê aumentar a sensação de ardor na vista alheia? Para sentir frescor maior? Será que precisamos ser tão pequenos a ponto de precisar plantar o desconforto nos outros para sentirmo-nos mais solidários, mais humanos, mais dignos? Creio que não.
Desgraça pouca não é bobagem. Qualquer desgraça, qualquer dilema, qualquer sofrimento, sejam quais forem suas dimensões, não merece ser inflado por quem está de fora como mero espectador. Ninguém aqui tem o direito de meter o dedo em feridas alheias, abertas ou fechadas. Ninguém aqui tem o direito de apontar soluções para histórias cujo conteúdo sequer conhece. A vida de ninguém é um reality show com numerozinho de telefone na parte inferior da tela para discarmos 0800 para fulano agir assim ou 0900 para fulano agir assado.
Se fosse eu no seu lugar, não faria desse jeito. Mas não somos nós no lugar de Cristina. Se fosse eu, não negaria apoio ao próprio pai! Mas não fomos nós que crescemos com a indiferença e com más lembranças, mas Lucas. Como Cristina e Lucas, todo mundo tem uma história, todo mundo tem motivos, todo mundo tem sentimentos que devem ser respeitados por quem assiste à vida alheia como se um filme fosse. Como Cristina e Lucas, todo mundo tem uma só prioridade na vida: ser feliz e se sentir em paz consigo mesmo. Como Cristina, Lucas e Caetano, que não entrou nesta história, "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é". Que fiquemos nós cá com nossas próprias dores e delícias e deixemos o vizinho lá, com as dele.
por Juliana Jacyntho, em 11/8/2004 04:38:34 PM
Queimação
Acabo de assistir a uma entrevista na qual a convidada conseguiu, do início ao fim, do oi ao muito obrigada, se queimar por completo, portando-se de forma antipática, não dando linha às perguntas formuladas pelo entrevistador e, via de consequência, inflando no público o desejo ardente de vê-la pelas costas. Chata. Muito chata, coitada.
Será que, naquele ato, ela tinha consciência que estava, ela própria, se sabotando? Talvez não. Talvez, por força do nervosismo, não extrapolou o seu melhor. Talvez, por timidez, não se mostrou natural e espontânea como de costume. Talvez nem seja ela espontânea.
Será que nós mesmos notamos quando estamos nos sabotando? Às vezes sim. Muitas vezes depois do leite derramado. Com o semancol ligado, com sensibilidade e astúcia, conseguimos enxergar que não demonstramos, em algumas situações que a vida nos impõe, o nosso melhor. Então já era? Nada disso. Torcer por melhor desempenho numa próxima oportunidade é o que nos resta. Respirar fundo. Paciência.
Tem outras vezes que não enxergamos que não agradamos. Não aproveitamos a chance que a vida nos deu de aparecer. Não enxergamos o momento pois estamos cegos e ocupados demais em... aparecer. O mundo nos assistindo e nós lá, cheios demais, egoístas demais, umbiguentos demais, vaidosos demais, concentrados em nossos monólogos demais... nos sabotamos.
E isso não é só nos programas da televisão. É na roda de amigos, é no bate-papo com a mulher no café da manhã, é na conversa com o marido no fim do dia, é no almoço com a melhor amiga. Cada interlocutor deveria ser encarado como uma platéia maravilhosa que merece ouvidos, frases construídas com oxigênio e atenção. Em vez de interagir, falamos sozinhos ininterruptamente. Em vez de conquistar o público, é repulsa o que se desperta. Em vez de brilhar, passamos opacos, despercebidos e sem perceber. E lá se foi a chance. Já foi. Ih, passou. Assim, que nem ônibus que se perde. E se lamenta. A única palavra que me ocorre como antídoto para este mal é humildade.
por Juliana Jacyntho, em 11/5/2004 12:41:29 AM
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