Jóqueis pomposos
Carro novo, emprego novo, namoro novo a todo vapor. Seus cabelos andam lindos e domados, sua pele um veludo. Tudo parece perfeito se não fosse pela cabeça, que insiste em sabotar sua dona, colocando toda essa felicidade em cheque: ando tão feliz que fico com medo de que isto tudo seja transitório, não tenha vindo pra ficar. Temos o direito de gozar de momentos felizes transbordantes, mas não o exercemos na sua plenitude, haja vista o pé atrás constante, a pulga diária atrás da orelha (das duas orelhas, aliás), a sensação de que o castelo pode ruir a qualquer hora e qualquer tempo, afinal de contas, tá tudo indo beeem demais pro meu gosto. Estranho? Muito estranho.
É muito estranho constatarmos que, às vezes, as caraminholas que alugam nossos pensamentos são criadas por nós mesmos. Auto-sabotage, última moda em Paris? Hormônios desbussolados? Sinceramente, não sei. Estas inquilinas mal desejadas aparecem assim, sem avisar, e vão tomando conta do ambiente. Aparecem assim, sem avisar, e se dispõem a atrapalhar a festa. E, então, nos colocamos a pensar: quando será que esta maré de boa sorte vai terminar? Ai, tomara que não termine...
Estamos tão mal acostumados a viver tipo filho de cego, pedindo, pedindo, pedindo, que isto virou um costume ruim dentro da gente. Uma postura programada. E daí, então, estranha-se não ter que pedir nada da vida. E, ao invés de dar graças a Deus por ter alcançado tudo o que antes era desejo e que hoje é realidade ou, então, sonhar com novos alvos, a gente fica que nem um bando de bobos, desorientados, sem saber se aproveita o que nos foi agraciado ou se opta por desconfiar da bondade da vida e das forças que conspiram para que as conquistas sejam, de fato, alcançadas.
O ser humano é tão medroso, tão medroso, que mesmo diante das coisas boas da vida, como amores, paixões, vitórias na carreira ou viagens fabulosas, ele se furta o direito de aproveitá-las 100%. Medo de ser feliz demais e, no dia seguinte ou no mês seguinte ou no ano seguinte, não sê-lo mais. Você prefere felicidade agora ou prognósticos desanimadores? Nem precisa responder. Que se danem os prognósticos, estes podem sempre ser revertidos para o bem.
Dizem que é preciso sofrer para valorizar a felicidade. Preciso não é. Pra nada nesse mundo. Muito menos quando tudo parece querer dar certo e o nosso lado roda-presa insiste em refugar, tal como fazem os cavalinhos amarelões nas competições olímpicas. Hora boa para decidirmos qual das duas porções deve prevalecer e falar mais alto dentro da gente: se nossa porção jóquei pomposo ou nossa porção amarelo-eqüestre. Espero que a resposta seja jóquei na cabeça.
por Juliana Jacyntho, em 1/31/2005 06:42:16 PM
Ela disse, Ele disse
E ela disse: "você apareceu de repente em minha vida, assim despretensiosamente. Me fez sentir amada, alegre, confortável, animada por poder sonhar, novamente, com uma história de amor que parecia valer a pena. E como tem valido a pena. Como valeu a pena o início, como valeu a pena o nosso encontro. Como tem valido a pena o investimento emocional diário que nos comprometemos a não deixar de fazer. Como me sinto feliz por te amar e receber amor na mesma medida. Carinho na mesma medida. Respeito na mesma medida. Como me considero privilegiada por saber que posso olhar dentro dos seus olhos e encontrar a resposta para minhas perguntas, para os meus anseios. Nos seus olhos encontro a segurança de que não mais caminho sozinha, mas com um homem que merece caminhar ao meu lado." E, então, eles se beijaram. Ele, depois de ter concordado e endossado tudo o que ela havia dito, entendendo o 'espírito da coisa', completou: "Você foi a melhor coisa que me aconteceu. Aposto minhas fichas na nossa felicidade. Aposto minha felicidade na nossa vida juntos. A minha e a sua. Vida e Felicidade. Tudo junto. E, sabendo que a vida não é composta apenas de momentos felizes, mesmo assim, aposto tudo com você ao meu lado, pro que der e vier. Sou o homem mais feliz do mundo." E, então, eles se beijaram de novo. Dessa vez, mais demoradamente. E por repetidas vezes. Vezes. E vezes.
Mesmo diante de amores assim, ainda tem gente que prefere acreditar que não existe romance fora da tela de cinema... É. Sem que as pessoas se arrisquem, se joguem, se concedam o direito primário de viver, na concepção mais ampla do termo, um história de amor verdadeira, cena como esta, acima narrada, corre o risco de só ser vista na ficção mesmo. Mas não ainda. Não enquanto o mundo ainda puder contar com pessoas que vieram à vida dispostas à felicidade.
por Juliana Jacyntho, em 1/27/2005 07:25:15 PM
Cria do Asfalto
Seu nome é Fernanda. Muito eloqüente, do alto dos seus treze anos, ela vem pedir um trocado para inteirar a compra de uma caixa de doces que será vendida no sinal de trânsito. Bem vestida para quem esmola, explica que está de férias da escola onde cursa a oitava série e que, nos horários vagos, vende os doces para ter uma graninha extra, que a permita comprar roupas e se divertir. Ressalta, ainda, que o dinheiro também é usado para comprar um remédio que ela toma todas noites: passiflorini, pra dormir, pois tenho insônia. Às vezes fico assistindo à tevê até dar umas seis da manhã e, então, levanto para ir pro colégio.
Explica que não se importa de pedir dinheiro nos shoppings longe do seu bairro. Perto de casa, pedir não dá. Dá vergonha. Tenho vergonha de ser vista, vendendo no sinal eu não tenho, mas pedindo eu não gosto, diz ela, deixando transparecer o orgulho.
Curiosos, perguntamos o que seus pais acham desta independência toda. Ela nos responde que mora com a avó e o pai desde os quinze dias de vida e sua mãe mora no Norte, com quem não tem contato. Conta que seu pai é segurança numa rua de bacanas e trabalha durante toda a madrugada. Coisa que ela também já fez. Lembra que, em dezembro último, conseguiu vender pra mais de duas caixas de doce, aproveitando-se do movimento do Natal num shopping da cidade e que voltou pra casa, sozinha, de carona num ônibus circular, às duas da manhã.
Ela se orgulha por saber se virar. Prefere o trabalho aos namoradinhos. O último, ela mandou passear, o que nos conta, com o olhar perdido no vácuo, como quem se ressente do término: Ele não entendia porque eu chegava tarde da noite em casa, desconfiava de mim. E eu tinha vergonha de contar pra ele que vendia doces no sinal ou que pedia dinheiro nos shoppings... acabou, deixei pra lá.
Perguntada sobre o que pretende fazer quando crescer, Fernanda responde, sem titubear: quero ser jogadora de basquete ou juíza. Ficamos surpresos com sua determinação e recomendamos muito estudo. Ela diz que sabe que não será fácil, e completa: Nesse negócio de pedir dinheiro, eu já cheguei a faturar setenta reais num sábado, comprei umas duas caixas de doce pra vender, fiz lanche e consegui até comprar uma bola profissional de basquete, agora tô juntando pra comprar a cesta, mas o que eu queria mesmo era uma bicicleta de marcha.
Ela quer jogar basquete, quer uma cesta, quer ser juíza, quer boas roupas, quer se dar bem. Malandra, inteligente, cheia de jogo de cintura, essa menina vai longe. Ainda que sozinha. E tem só treze anos. Quantas Fernandas este nosso Brasil não anda criando, nos asfaltos e morros que se espalham e se esbarram por aí?
por Juliana Jacyntho, em 1/20/2005 02:14:14 PM
Melhor ator coadjuvante
A vida de todo mundo é como se um palco fosse. Uma peça. Um filme no cinema. Tem espectador, tem atores principais, que somos nós, e tem coadjuvantes e figurantes. Todos os dias acordamos e começamos a desempenhar nossos papéis. Na vida da gente, somos protagonistas. Na vida de nossos conhecidos, somos coadjuvantes. Na vida do resto do mundo, somos meros figurantes. Mas é tudo uma cena só: dia-a-dia, convívio, relacionamentos, ainda que superficiais. No caminho para o trabalho, topamos com o porteiro de nosso prédio, topamos com o moço da cabine do estacionamento, topamos com o ascensorista no elevador do escritório. Entre bom-dias e boa-tardes, vamos emanando um sinal para todo este pessoal que faz papel acessório na vida da gente, que diz: eu sei que você existe e obrigada por estar fazendo seu serviço. Mas será que é só isso? Não, sinais assim querem dizer mais.
Sei que sou apenas mais um morador para quem o João dá bom dia. Sou apenas mais um dos trabalhadores que o Sr. Oswaldo conduz, pelo elevador, até a sala de trabalho. Sou apenas uma das consumidoras da vendinha do seu Waldemar, em cujo estacionamento trabalha seu filho mais novo, na saída, sentado numa cadeirinha, dizendo, para todos que por ele passam: "olá, senhora, obrigada por comprar aqui na Wal-vendinha, vá com Deus e tenha uma boa noite!" Meu papel a ser desempenhado nestas cenas é, simplesmente, ser cortês. Que trabalho isso pode dar a alguém? Nenhum, penso eu. Mas pior que parece que dá um trabalho danado, tamanha a quantidade de pessoas que ignora a presença constante, sorridente e cordial de quem faz figuração na vida alheia.
Será que o porteiro quer mesmo que eu tenha um bom dia ou não está se importando com isso, de jeito nenhum? Será que o ascensorista quer mesmo saber como vai o tempo lá fora, ou nem ele sabe que pergunta está formulando, acostumado que está a fazer indagações despretensiosas, assim, quase que sem perceber? Será que o filho do Seu Waldemar disse, de coração, que estava grato por eu ter adquirido um bem qualquer no mercado do seu pai, ou tanto fazia se eu lá fosse ou ao concorrente me dirigisse? Prefiro acreditar que todos nós neste mundão de Deus ainda desempenhamos nossas atividades cotidianas com disposição alegre e sinceridade.
Prefiro acreditar que o porteiro põe seu coração na boca para dizer o seu tão corriqueiro bom-dia. Sim, ele deseja do seu íntimo que todos que por ele passam, como eu, tenham, sim, um ótimo dia! Prefiro acreditar que a equipe da Wal-vendinha está, sim, grata pela minha preferência e que eu posso continuar prestigiando-os, numa prova de que fidelidade comercial é trunfo que poucos, hoje, detêm no mercado. Prefiro acreditar que o sobe e desce do elevador do Sr. Oswaldo não fez dele um cínico, daqueles que desfiam conversas com a gente sem pé nem porquê. Prefiro acreditar que ele 'puxa' assunto porque quer ser simpático, quer fazer dos primeiros segundos do dia, em que estamos juntos naquele cubículo mal ventilado, os mais agradáveis e divertidos da jornada. Ele quer, sim, saber se o céu está azul ou cinza, porque lá de dentro do elevador, ele não tem como aferir. E então, nós, passageiros, viramos mais que isso: viramos mensageiros. Moços do tempo. E isso é divertido.
Cruzamos com um infinito de pessoas durante o dia e nestes encontros há uma troca. De respeito e de energia positiva. Quando alguém nos diz um bom dia, ele espera que haja o bate-bola, a retribuição, a perfeita encenação da peça chamada cotidiano. Todos coadjuvantes, uns para os outros. E como coadjuvante bom é aquele que não deixa a peteca cair, não perde o timing do seu texto, engrandece a atuação de todo o elenco, fazendo o seu papel secundário com garbo, com classe e com simpatia, retribua todos os bom-dias que escutar amanhã com firmeza e confiança. Para quem assim já faz, parabéns. Para quem se lembrou, ao ler este texto, que ignorou uma saudação outra qualquer que lhe foi ofertada no dia de hoje, seja porque estava com pressa, ou porque falava ao celular, ou porque achou que aquilo não tinha a mínima importância, é hora de repassar o texto e tentar fazer melhor na próxima cena, porque um bom dia com olhar franco e voz bem empostada faz a diferença. Para nós e para os outros.
por Juliana Jacyntho, em 1/17/2005 08:02:46 PM
Às nossas cabeças
Primeira segunda-feira do ano, primeiro dia útil do ano. Eu poderia escrever sobre muitas coisas referentes ao ânimo que nos é demandado nesta específica época, poderia ensaiar um bate-papo sobre os mil e dois planos pessoais que cada um de nós costuma acalentar por estes dias. Poderia falar sobre os projetos de mudança e de realizações que povoam as nossas cabeças sempre quando janeiro bate à porta. Mas quero é escrever sobre nossas cabeças, estas coisas meio ovais, meio redondas, que fazem a terminação superior de nossos corpos. Estas coisas que guardam tantas idéias e medos e loucuras dentro delas, a ponto de não darem conta do seu próprio conteúdo. Quem aí já não se pegou nutrindo pensamentos infames? Quem aí nunca se surpreendeu com a velocidade, voracidade e criatividade dos próprios neurônios? Quem aí já não sentou e chorou por se sentir culpado e envergonhado ao constatar que idéias menos brilhantes vieram visitar o seu consciente?
Já se disse por aí que idéias são como insetos, sobrevoam a mente de muitos, mas pousam somente na de alguns. Se foi uma borboletinha boa, contente, feliz e saltitante, benza Deus! Se foi uma joaninha vermelhinha, pintadinha e fofa, também não há motivo para choque. O problema é que quando sobre nossas cabeças pousam bichinhos menos adorados, menos cultuados, menos favorecidos pela beleza fornecida pela Mãe Natureza, a gente se sente pequeno, afinal, ninguém quer sobre os cabelos uma baratinha, um pernilongo, um marimbondo. Mas qual seria o problema? Borboletas e Joaninhas são insetos como a Baratinha e o Pernilongo! Sim, mas enquanto borboletas embelezam o ambiente e joaninhas são graciosas, baratas são nojentas e sujas e marimbondos ferem. Assim acontece com nossos pensamentos: uns são belos e generosos e úteis. Outros, ao contrário, são medonhos, pobres e o pior: completamente sem utilidade nesta vida que Deus nos deu. Ainda assim, eles vêm, insistem em nos visitar.
Durante este tempo, nós, hospedeiros, temos duas escolhas: alimentarmos estes parasitas oportunistas e sofrermos com a auto-repreeensão ou tocá-los para fora de nossa cabeça, rezando, relaxando, desconversando ou mesmo, numa atitude de coragem, conversando, chegando para o mau pensamento bem de pertinho, bem ao pé do ouvido, e dizer-lhe com a voz bem empostada: sai fora que este corpo não te pertence. Sai fora que você não agrega. Sai. Sai. Sai. E pode ser que assim ele saia. E se não sair, não se aflija: você não é o único que já enxergou que Pollyana só existe em livro. Aqui na vida real a gente pensa em coisa ruim sim, a gente duvida dos outros sim, a gente sente insegurança e medo sim, e se rebate diante desta fraqueza. A grande e magnífica diferença é que uns enxergam, a tempo, que remoer pensamentos sofridos não é nem deve ser a bandeira dos seus dias. E resolvem não se levar tão a sério assim, fazendo com que o mal estar se dissipe.
por Juliana Jacyntho, em 1/3/2005 07:37:57 PM
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