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Senhora implacável

Enquanto curtia desejos banais como o de adquirir mais um par alinhado de sapatos de bico fino, com preço cintilante de promoção, fui surpreendida pela realidade nua e crua da vida, que de alinhada, banal e cintilante não tem nada.

Prefiro escrever sobre sentimentos, relacionamentos, cenas engraçadas do dia-a-dia. Bem sei que morte não é um assunto descolado, não nos faz relembrar palavras doces e dóceis, não é pauta que frequenta as melhores e mais animadas rodas de bate-papo da cidade. Morte é palavra feia que, quando pronunciada, é sempre seguida por um Deus me livre, um cruz credo ou um deixa disso. Causa calafrios, espanto, medo. Causa dúvida, revolta, falta explicação.

Neste menos de um ano de blog, este tema aparece aqui pela segunda vez. Talvez seja porque, neste curto período de tempo, duas baixas esquisitas foram dadas no raio da minha existência: a de duas mulheres novas, dinâmicas, cada uma com sua beleza. Uma na casa dos trinta e poucos e, a de hoje, na casa dos vinte e cinco. Uma na hora do parto de sua primeira filha e, a de hoje, de câncer no estômago, com metástase da doença atingindo os pulmões.

Se existe morte boa é aquela anunciada pela velhice. É a despedida de quem viveu tudo o que pôde, tudo o que lhe foi oferecido e que, ao fim, quando se deu por satisfeito da brincadeira, resolveu pedir licença à platéia, com simplicidade de artista veterano: inté, meu show acabou. Sem maiores traumas para quem foi ou para quem ficou. Mas para essas duas mulheres não foi assim. Nenhuma das duas teve direito a morrer tranquilamente como o meu personagem ancião recém-criado. O que faz delas diferentes do Papa ou de algum outro bom velhinho que pôde viver 90 e tantos anos? Karma? Falta de sorte?

Ninguém é para sempre, embora muitos se pensam eternos. Enquanto estamos com tudo em cima, vamos vivendo. Felizes, tranqüilos, sem pensar no fim dos nossos dias ou no fim das pessoas que amamos. Pensar nestes fins assusta, amedronta. Mas mesmo diante do esforço que fazemos para que pensamentos medonhos assim não nos visitem, a vida se encarrega de nos colocar diante de histórias inexplicáveis de despedida ou de falta dela - hipóteses em que, quem se foi sequer teve oportunidade de perceber que estava indo. Então fica a dor, a resignação, a ausência de razão.

Vida e morte. Paradoxo inevitável. Não tenho mais o que escrever. Prefiro ajoelhar, rezar e pedir saúde e longevidade para mim e para os meus. Mas acontece que elas eram duas das minhas. Que estranho. O que será que temos que pedir hoje à noite, então? Talvez não tenhamos que pedir nada. Talvez, por hoje, só tenhamos que agradecer. Agradecer por ainda sermos capazes de (algum) discernimento, mesmo diante de tanta interrogação.
por Juliana Jacyntho, em 2/28/2005 09:12:54 PM



Aberta temporada de caça às harpias

Toda menina sofreu no colégio com a amiguinha dissimulada e sonsa que, em alguns momentos, parecia dócil e companheira, mas, em situações outras, era fofoqueira e intringuenta. Descobria-se, então, que aquela garotinha legal que se apresentava como membro do seu time, jogava mesmo era dos dois lados: não era amiga de ninguém, se esmerava tão somente em semear a discórdia entre a garotada.

E a garotada cresceu. A amiguinha dissimulada se tornou profissional da sonseira. A menina que outrora fora enganada se empenhou, com o passar dos anos, em cultivar amizades puras e verdadeiras, sem lugar para falsidade e recalques. Linda, madura, de bem com a vida: a boa menina se tornou uma bela mulher, enquanto que a menina dissimulada se tornou uma harpia.

Quinze anos mais tarde, o reencontro. A bela mulher, livre de quaisquer mágoas e ressentimentos, acolhe a harpia que, desta vez, se apresenta travestida de melhor amiga. Foi bem acolhida, recebeu comida, bebida, lençóis brancos e cheirosos. Da bela mulher usou as roupas, os discos, os livros, o batom. A anfitriã não desconfiava que, pelas suas belas e definidas costas, era alvo de comentários levianos e maldosos no ninho das harpias. Mas não por muito tempo.

Como o mal nunca prevalece sobre o bem, a bela foi alertada por outras belas que a rodeavam, de que a harpia, sua mais nova companhia, era mais uma naja a rastejar em seu jardim. No dia seguinte, disposta a banir do seu convívio esta praga urbana, mais peçonhenta que formigas proliferantes em dias chuvosos de verão, a bela mulher se preparou para a visita da invejosa.

Enquanto apreciava o azul do céu, o vento gostoso soprando no rosto e o desabrochar formoso das rosas que vinha cultivando, a bela deparou-se com a harpia e suas garras afiadas, chegando num vôo rasante. Ao que pousou, revelou sua segunda identidade: cobra venenosa, cujos esguichos letais estavam prestes a atingir a bela mulher. Em vão. Mal sabia a serpente que, além de bela, a mulher era culta. Eis que começou a cantarolar, muito afinadamente, uma linda e suingada melodia, que encantou a rastejante e a afugentou mais rapidamente que o piscar dos olhos de Emília.

"Pronto", disse, sacodindo e limpando as mãos, a bela mulher. E pensou: "belas e boas mulheres, unidas, jamais, serão vencidas. Contando com o reforço inesperado do Mestre Caê, então, vixe que essa derrota ficou facinha dimais, meu pai".

Mais uma vitória do bem.
por Juliana Jacyntho, em 2/27/2005 09:40:16 PM



Dá-me teu lixo que te digo quem tu és*

Mundos modernos são assim: reciclagem, coleta seletiva, vidro para um lado, papelão para o outro e ai de você se misturar plásticos com jornais! É tudo separado, ensacado, colocado na cestinha do quartinho que você divide com seu ilustre vizinho de porta. Tudo lá: às escâncaras!

As garrafas de vinho chileno vazias e as embalagens de camembert e brie denunciam a noite memorável que você teve, ontem, junto à lareira, com seu amor. Seu vizinho sabe. Não sabe seu nome, seu telefone, não te reconheceria se contigo cruzasse na rua. Mas sabe o que você tomou durante toda a semana no café da manhã: suco de goiaba. E sabe dizer até qual é a marca do dito cujo.

Seu vizinho sabe que você foi agraciada com um buquê de três dúzias de rosas na semana passada, já que ele teve o desprazer de encontrar as probrezinhas no cesto, nesta tarde. Estavam elas lá, murchas e fedidas, depois de tanta felicidade proporcionarem aos seus olhos.

Estava de dieta e não queria contar pra ninguém? De nada adiantou o segredo: seu vizinho foi o primeiro a descobrir que você planejava afinar sua silhueta. Como não notar que as caixas de chocolate deram lugar a potinhos e mais potinhos de iogurte desnatado? Como não perceber que, ao invés das volumosas caixas de panettone, você andou preferindo sacos de pão de fôrma light?

Ele sabe de tudo. Sabe o que você come, o que você bebe, o que você descarta, conhece os jornais e revistas que você lê. Munida de perspicácia, esta pessoa saberia dizer exatamente quem você é. Santa Discrição do Vizinho ao Lado que nos proteja! Reciclagem já, privacidade para depois, concluímos.

*Para Valda
por Juliana Jacyntho, em 2/22/2005 08:23:55 PM



Disney Tropical (para gringos molóides)

Quarta-feira que chega e anuncia trabalho além-túnel, para onde me dirigi. No trajeto, pela janela do ônibus, avistei cinco jipes estacionados em fila, no pé do morro da Rocinha. Gringos branquelas, de bermudas cargo cáqui e camisetas estampadas, se espalhavam pela região, acompanhados de uns sujeitos vestidos de azul, não tão branquelas, mas sim bronzeados, os quais presumi serem seus guias.

Respeito a curiosidade alheia por ser, eu mesma, também uma detentora deste atributo. Mas, curiosidades à parte, não posso deixar de confessar que a cena acima narrada me deixou nauseada. Jipes, bermudas cargo cáqui, guias. Gringos devidamente "aparelhados" para conhecer a cena mais intrigante da cidade do Rio de Janeiro: a convivência da maior favela da América Latina com os condomínios de luxo que permeiam a sua volta. Nada como um instrutivo safári antropológico num belo dia de sol e céu azul! A eles, o bizarro, o pitoresco, o tropical, o diferente. A eles, a nossa pobreza e distribuição torta e tonta de rendas: hello, podem olhar, tá tudo aí no tabuleiro!

É duro pensar que tem brasileiro que, um belo dia, acordou e foi brindado com a brilhante idéia de um novo ganha pão: organizar excursões guiadas para as favelas, lugar de gente que trabalha, trabalha e morre pobre, sem recursos, sem oportunidades, com medo do tráfico e sabe-se lá do quê ou de quem mais. É ruim constatar que o cinismo que, hoje, nos ronda, é tamanho que faz com que brasileiros ofereçam seus compatriotas como espécimes nativos a serem contemplados em seus habitats naturais, sob olhares mornos de compaixão e incredulidade vindos de terra longínqua onde o dinheiro brota, a economia flui e os níveis de criminalidade não chegam ao da unha encravada dos pés das nossas capitais.

Eram pensamentos como estes que povoavam minha cabeça quando o ônibus em que eu estava atravessou o túnel. Pensamentos estes que foram interrompidos pelo estampido seco que veio lá de cima do morro e pela dúvida imediata que se instalou no interior do coletivo, fazendo com que todos passageiros se perguntassem: são fogos de artifício ou tiro mesmo?

Creio que eram fogos... e então a festa para os gringos estava completa. Mas juro que pensei, naquela hora, que, se aquele barulho fosse mesmo o de tiro de fuzil, confirmando nossas suspeitas, aqueles gringos teriam percebido que a realidade de quem mora na favela é muito mais how bizarre do que supõe a nossa vã filosofia brasileira, que dirá a vã filosofia do chamado 'primeiro mundo'.

E o ônibus saiu do túnel. Eu segui minha rota e os gringos, mais tarde, provavelmente, voltaram para os seus hotéis cinco estrelas na orla, imbuídos de cultura regional e encantados pela résistance do pobre brasileiro. Thanks, Seu John! Merci, Dona Charlotte! É isso mesmo, somos uns bravos! Somos brasileiros e não desistimos nunca. Inclusive de fazer papelão.
por Juliana Jacyntho, em 2/16/2005 10:58:04 PM



Mudança de Hábito III - Sem Whoopi

Hoje tive uma experiência muito válida de confrontação de mim comigo mesma. Com o auxílio de um questionário, uma característica que me é muito marcante saltou aos meus olhos novamente e veio dizer algo que nunca foi novidade: que um dos meus males atende pelo nome de ansiedade! Um de seus males? Tá, confesso. Não é mal meu, único, exclusivo, personalíssimo, adquirido por cem contos de réis através de escritura de compra e venda passada em cartório. Tá, confesso: é mal de mais da metade da humanidade a tal da ansiedade (sim, porque o resto não é ansioso ou porque é maluco-beleza ou porque já morreu).

Verdade é que a ansiedade aflige a todos nós que temos um trabalho, um amor, um desejo. Uma viagem pela frente, um prazo a cumprir pela frente, expectativas a suprir pela frente, um casamento pela frente, uma vida pela frente. Roemos as unhas, balançamos a perna, cutucamos o ouvido, coçamos a cabeça. Again and again. É ela. É a tal da ansiedade que não nos deixa relaxar, mastigar, respirar, entender.

Entender e absorver que falar aceleradamente não vai cumprir o tal prazo. Que roer as vinte unhas do seu corpo não trará o homem amado de volta. Que simplesmente "passar os olhos" em tudo o que passa pelas suas mãos, porque você já está com a cabeça ocupada com a outra tarefa que terá que implementar em seguida, pode significar uma segunda leitura do que passou pelas suas mãos, desta vez mais acurada e mais demorada, ou seja, trabalho dobrado.

Lemos tanto sobre terapias relax transcendentais. Acendemos incensos. Escutamos músicas new age. Verbalizamos o quanto "está por fora" se estressar, se consumir, não ver a vida passar com tranquilidade. Mas verbos à parte, nossa postura ansiosa esganada do dia-a-dia nos trai. Trai nosso próprio discurso. Talvez a técnica do "respirar fundo e contar até dez" antes de surtar seja eficaz. Talvez a técnica de contar os mamutes (um mamute por vez, ou leão, ou o bicho que você tenha predileção para "matar" por dia) também funcione.

Temos a auto-crítica, temos as leituras zen, temos os incensos, os cânticos, as técnicas, os conselhos. O que será que nos falta para adotar um postura menos afobada, imediatista e ansiosa no nosso dia-a-dia? Inteligência? Não, creio que não. Creio que achamos um quê de graça nessa nossa busca pelo auto-aprimoramento. Afinal, depois disso, viria o quê?
por Juliana Jacyntho, em 2/11/2005 07:41:10 PM



À Folia

E vem chegando o carnaval, festa tradicional de nosso país em que, até algumas décadas atrás, significava quatro dias de festejos que incluíam serpentinas, fantasias, chuva de confetes e, como diz o samba, boas borrifadas de lança-perfume no cangote da menina, afinal, nossos antepassados também não eram tão caretas assim. Tudo isso ao som de marchinhas poéticas, dançadas com cortesia, tipo bailinho.

Hoje, o baile é outro. Os confetes e serpentinas ainda sobrevivem nas melhores festas do país: das matinês infantis dos clubes de classe média às festinhas infernais onde a ordem que impera é a suruba. A lança-perfume, igualmente, também sobrevive, mas não em doses inofensivas como as de outrora. Sobrevive nos lencinhos, nas bandanas coloridas, nas barras da camisa do garotão mal desfraldado, nos sorrisos entorpecidos da juventude doirada. E na falta da lança, lança clorofórmio mesmo. O negócio é lançar. Se lançar. Seja para o bem ou para o mal.

As marchinhas e sambas também dão o ar da graça em alguns salões, mas, no quesito execução, perdem de lavada para o ritmo carnavalesco do momento: o axé frenético e suas coreografias medonhas, super-hiper criativas. Muitos escolhem um destino praiano qualquer, fincam sua barraca, pinçam um bom livro e esperam a quarta-feira de cinzas chegar, ao som de muito rock e mpb. Muito bom. Aliás, é ótimo. É ótimo poder refrecar as idéias, descansar o corpo sob o sol, o mesmo corpo que arriscará uns passinhos de samba, o mesmo sol que nos brindará com uma cor de pele mais alegre e aparentemente mais saudável. Fevereiro deu as caras e anunciou que é chegada a hora de cair na folia!

Do Oiapoque ao Chuí, milhares de pessoas se locomovem, num êxodo frenético, em busca de um lugar ao sol, de uma mesinha à beira d'água, onde possa fazer repousar uma boa dose etílica (uma, duas, três...), garantindo-lhe passagem instantânea, somente de ida, para algum lugar além das chatices do trabalho, das agruras do dia-a-dia, dos mamutes que cada herói brasileiro mata quando sai da caverna.

Não importa que folião é você, aproveite, seja feliz neste carnaval! Mas não tenha a pretensão de que quatro dias, quatro dias tão somente, terão o condão de apagar as rabugices e incômodos do seu cotidiano. Este, só você pode mudar. E não será no carnaval. Só em dias úteis e em horário comercial.
por Juliana Jacyntho, em 2/3/2005 11:17:58 PM



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