Pelo retrovisor
Olhar um lugar como quem se despede muda tudo. Sensibilidade aflora, cheiros são mais significativos, o ventinho parece divino, as luzes dos prédios vizinhos harmônicas. Fica tudo com uma aura encantadora. Fica tudo com um quê de impecável. Fica tudo martelando dentro da nossa cabeça: eu sou o seu mundo hoje, mas amanhã já não serei mais. Amanhã, mundo responde por outra cidade, outro emprego. Tudo novo. E novo reclama por adaptação, por paciência, por boa vontade. Novo seduz, anima, instiga, desperta curiosidade. Novo só é novo até sentirmo-nos familizarizados, queridos, bem recebidos, à vontade. Quando o novo vira corriqueiro, tende-se a não parar para admirá-lo mais. Burrice velha dos homens. Quando é sentido o primeiro sinal de que tudo aquilo que um dia foi novidade e hoje é aconchego daqui a pouco responderá alô quando chamarem pela saudade, despertamos para a apreciação de tudo o que nos rodeia. Porque olhar um lugar como quem se despede muda tudo dentro da gente. É o medo do desconhecido meets nostalgia pré-ordenada. A cama, a cozinha, a mesa de trabalho de hoje já se apresentam como suas futuras ex. E nosso serzinho infantilóide que habita parte de cada um de nós parece querer dizer: não, ainda não, não os tire de mim, ainda são meus, ainda estou me despedindo. E não são só objetos. Pessoas também. Mais carinho, mais atenção, mais priorização do contato.
E não devia ser assim. Não devíamos precisar mudar de cidade para valorizar a que tínhamos antes. Não devíamos precisar romper com um amigo para sentir a sua falta. Não devíamos ter que precisar trocar de emprego para reconhecer o valor do de agora. Não devíamos ter quer sentir a proximidade da distância, da despedida ou do desapego para acordarmos, abrirmos os olhos e admirarmos a beleza de tudo que está à nossa volta.
Gratidão é exercício diário que deveria ser cultivado todos os dias. Atitude nobre assim não deveria ter que esperar por um adeus, um bye-bye, um so long, nem um farewell para aflorar em nossos corações, inflando o peito de exultação e enchendo os olhos de saudade precoce em estado líquido. Lágrimas que caem, sorrisos que se abrem, malas que se fecham, rumo ao próximo destino.
por Juliana Jacyntho, em 3/31/2005 09:28:47 PM
Blank Total
Pois o título é este mesmo, caro leitor: blank, lacuna, vazio, tudo em branco. Os pensamentos que vêm não merecem ser prestigiados com a tentativa de um ensaio, senão veja-se: a placa que anuncia no supermercado "levamos as plantas até a sua casa" desencadeia a resposta mental no melhor estilo Tolerância-zero-Saraiva-descontrol: e quem foi que falou que eu quero que vocês levem algo até minha casa?", e então rio do meu próprio bobeirol. A mulher cordial que entra no elevador e que brinda a todos com um simpático bom-dia deu azar de meu cérebro perceber que ela estava vestindo uma camisetinha de lycra vermelha de alcinha medonha, jamais utilizável num ambiente de trabalho, é a informação que ele processa. Mas ela não estava nem aí, nem eu tenho nada a ver com isso e respeito a mulher e o seu direito de escolha. Lamento o mau gosto. Lá vai o pensamento voraz, rápido e malicioso me trair o decoro, o politicamente correto way of being. Bem sei que reparar nos outros é deselegante e julgar-lhes a vestimenta deveras pretensioso e fútil, mas fazer o quê se parece que este cérebro tem vida própria para o mal? Sinto até vergonha de alguns pensamentos que me escapam como pulgas, do jeitinho que acontece nos desenhos animados em que os cérebros funcionam tanto que os olhinhos do personagem se abrem em espiral ou nos filmes de ficção científica, em que os freaks de plantão testemunham suas cucas fundirem tanto que criam pernas e saem por aí andando sozinhas, pensamentos autônomos, sem dono (mal sabem eles que têm - dono, o pobre coitado candidato a surdo), aquela falação descontrolada dentro da gente. É meio parecido com Mel Gibson em "Do que as Mulheres Gostam", só que, ao invés de estar lendo o cérebro dos outros, reproduzindo aquela barulheira infernal, é o meu próprio fazendo uma espécie de auto-análise: ele não cala a boca. Mas não diz nada de útil: só merda. E então me envergonho. Quando pensamentos mais nobres resolverem me visitar, reapareço. Correndo. Quem sabe amanhã? E então eu canto para ele: apesar de você, amanhã há de ser outro dia. E quando amanhã chegar com uma bela e fértil idéia, cantarei para ele outra música: você, meu amigo de fé, meu irmão camarada.... Meu cérebro. Meu amigo, meu algoz.
por Juliana Jacyntho, em 3/30/2005 08:04:40 PM
XX encontra Elis
Mulher é um bicho complicado, é o que dizem por aí. Nos últimos dias, o dizem com ainda mais propriedade, já que até a ciência se encarregou de gastar umas horinhas de seu dia estudando as informações cromossomiais que cada uma de nós traz dentro deste emaranhado que é o nosso corpitcho humano. Conclusão a que se chegou: mulheres são geneticamente mais complicadas que os homens. O que querem os cientistas dizer com isso, valei-me Deus? Não sei ao certo, confesso. Mas chuto.
Chutaria que ser complicada é sentir aquele aperto no peito que parece querer denunciar que algo vai mal, quando, no entanto, tudo parece perfeitamente bem. Então, desenculcamos até a próxima enculcada (sensação também conhecida pelas redondezas como nóia). Ser complicada é estourar sem querer com quem está ao seu lado, talvez por não saber ao certo como lidar com aquele mau-humor que veio te visitar na última manhã. Até reconhecer que se trata de um descompasso hormonal, a bola já foi pra fora da linha de campo e nós jogadoras ficamos lá, no árduo trabalho de fazer a bola voltar para o jogo e tentar explicar para o time o porquê do chutão sem propósito.
Ser complicada é trabalhar das oito da manhã às seis da tarde, sair para a academia de ginástica logo depois, retornar ao lar lá pras nove da noite e, neste meio tempo, encontrar umas horinhas para afagos no marido, levar e pegar filho na escola, ir ao cabelereiro fazer as unhas e depilação, fazer as compras de supermercado, aparecer linda, leve e perfumada para um jantarzinho romântico e se concentrar na atmosfera de sedução, sem essa de gastar neurônios com a pauta da reunião da qual participará no escritório no dia seguinte. Ser complicada é fazer tudo isso achando lindo (independente e bela - que sucesso!), mas, ao mesmo tempo, é achar que talvez a mulherada tenha pegado pesado demais nas conquistas feitas nos últimos anos: êta acúmulo de atividades da peste! (Ser complicada é até concordar com esta última afirmação, mas nada de sair assumindo isso por aí, porque, afinal, depois de tantos avanços feministas, pegaria super mal este dicurso Amélia pós-moderno).
É complicado ser coerente o tempo inteiro. É complicado ter que ser bela, inteligente, bem sucedida, amante irrepreensível, companheira, mulher de atitude: na família e no trabalho. É complicado ser isso tudo e ainda mãe, emanadora de amor e afeto incondicionais. Não sei se previram, lá atrás, que seria tão complicado ser mulher nos dias de hoje. O fato é que é. E pronto, disso sabemos. Nem precisávamos que pesquisinha científica desocupada alguma viesse à baila para nos dizer que "assim como as mulheres são geneticamente mais complicadas que os homens, nem tudo que reluz é ouro". Faltou dizer que somos complicadas e que sabemos descomplicar como ninguém - quando queremos. Daí porque 'desopilar' seja o verbo mais conjugado. Não é a moda new age que explica o incenso e a música relaxante e a ioga: é a necessidade. Necessidade de se equilibrar na corda-bamba de sombrinha, tailleur e sapatinho de salto e bico fino. E ainda tem a pasta! E o celular que acabou de tocar e o menino no colo.
Equilibristas como as mulheres de hoje, sei não, acho que estão para existir. E os bêbados que se cuidem, porque estão prestes, prestes, a serem demitidos da música. O futuro que se aproxima é da intrépida trupe: homens e mulheres, com cobranças e expectativas a serem supridas idem, idem, se equilibrando juntos, colaborativos, na corda-bamba do dia-a-dia. Se assim for, não dou dez anos para aparecer outra pesquisa científica anunciando o já sabido: homens, pasmem, são tão geneticamente complicados quanto nós, mulheres.
por Juliana Jacyntho, em 3/20/2005 09:21:00 PM
And so it is
Histórias de amor são para durar. Ninguém quer se apaixonar para, depois, se desapaixonar. Ninguém quer amar para, outro dia, desdenhar. Ninguém quer ver morrer um sentimento que até outro dia ocupava a sua atmosfera: era o que se respirava. Porque histórias de amor são para durar. São para ser celebradas, festejadas, adubadas, regadas e delas colhermos flor.
Vai ver que por isso todo término de uma linda e louca história de amor dói, é ressentido e cinza. Todo término de uma nem tão linda e nem tão louca história de amor também fere, também faz sofrer, também remete ao escuro. Qualquer separação, qualquer que tenha sido o teor do relacionamento que acaba - bom ou ruim - marca. Marca porque, um dia, aqueles dois protagonistas que começaram se beijando não pensavam que nunca mais se beijariam. E então a definitividade do abismo marca. E marca outra fase na vida.
É a fase de recomeçar, de aprender com os erros, contabilizar os acertos. É a fase de se auto-conhecer, de comprar roupa nova, de sair com gente nova, de escutar músicas novas, de um novo corte de cabelo. É a fase de cair na night, tudo de novo. E adorar. Ou detestar. É cruzar com um novo alguém que lhe desperta o interesse e sentir o coração deliciosamente apertado de novo. Tudo de novo. Mas não, a separação de novo não.
De que serviriam tantos términos, tantos divórcios, tantos rompimentos sofridos, meus, seus, de nossos pais, de nossos vizinhos, se não fossem eles enviados à Terra para ensinar-nos a crescer, a amar, a respeitar, a saber o que se quer, quem se quer, como se quer? De nada serviriam. Aliás, apenas serviriam para fazer chorar. Para isso, não precisamos dos términos, já temos a TPM.
A gente só aprende a amar numa boa depois de ter amado numa ruim. A gente só aprende que individualidade e respeito são a tônica da convivência harmoniosa depois de anos de sufoco ativo e passivo. A gente só aprende que desejo também tem a ver com admiração e que esta vai muito além dos atributos sexuais do ser amado depois de enxergar que cama nenhuma tem sua durabilidade garantida à base de manuais de fantasias indicados pela Nova. A gente só aprende que relacionamento feliz não é só doação e monólogo, depois de encontrar uma outra pessoa também disposta a celebrar a parceria e entonar o diálogo. E toda esta descoberta não rima nem combina com término.
Já se falou de separação, já se viveu separação, já se assistiu separação, já se aprendeu e cresceu com tantas separações na vida, na novela, no cinema. Pai e mãe. Tio e tia. Romeu e Julieta. Do Carmo e Dirceu de Castro. Julia Roberts, em Closer, debaixo daquela música de letra triste, melodia bela e entonação cortante de Damien Rice. Separação pode ser - e é - pedagógica, mas todo ser humano poderia ter a garantia de que só sofreria deste mal uma só vez na vida. Aprende-se com a bordoada e chega, tchau. Mas garantia, no duro, no duro, ninguém tem. E então vem o medo. Afinal, ninguém quer passar por isso de novo. Não com quem se escolheu para o resto da vida. Porque aqui, neste texto, se acredita em resto da vida. Porque aqui, neste texto, se acredita em amor e glórias, em herói pontuando o céu da princesa, em anos, anos e muitos anos de brisa suave no rosto feliz e satisfeito do casal. Porque aqui, neste texto, água gelada só aparece na história se for para saciar a sede em dias quentes, não dentro de um balde a ser derramado na cabeça de quem ama. E então é assim. Aqui neste texto. E assim é que pode ser. Na vida de cada um de nós.
por Juliana Jacyntho, em 3/15/2005 11:00:40 PM
Boas Palavras
Momento de leveza e transigência. Os sagitarianos em geral são mais para otimistas, e esperam que, no final, tudo dê certo. Hoje as coisas dão certo sem que você tenha nem que lutar por elas! Aceite a boa sorte: ela é oriunda da sua fé na vida.
O que temos a dizer depois de ler isso? Amém!
por Juliana Jacyntho, em 3/11/2005 12:26:42 PM
Muito além de amanhã
Nós, mulheres, temos uma data especial para comemorar nosso sexo. Nunca ouvi falar do Dia Internacional do Homem. Talvez não exista não porque nossos encaixes não são dignos de tamanha homenagem, mas sim porque o mundo moderno não se sente tão em dívida com eles como se sente conosco. Conosco, com os negros, com os gays e com todo outro grupo que tenha sofrido (ou que sofre) algum tipo de discriminação.
Foi na faculdade que tive contato, pela primeira vez, com as chamadas "ações afirmativas": conjunto de atitudes adotadas pelo governo para apaziguar anos de tratamento desigual. Uma exteriorização dessas posturas afirmativas são as leis que reservam vagas na universidade para negros, assim como também é a instituição do dia 8 de março como sendo o dia internacional da mulher. Preciosismos à parte, se nos deram o "feriado", não há razão para fazermo-nos de rogadas: vamos comemorar, porque o que não nos falta é motivo para tal.
Ninguém hoje é obrigada a acatar ordem de pai nem de marido. Não se não quiser. Ninguém hoje é educada para servir ao seu homem incondicionalmente, como se fosse teleguiada. Não se não quiser. Ninguém hoje é forçada a cozinhar, lavar, passar e cuidar das crianças, tocar piano e falar francês. Só se tiver vontade ou, no caso das tarefas domésticas, se precisar.
Mulher hoje fala abertamente sobre sexo, o que antigamente lhe era proibido e causava rubor às faces. Casava-se cedo, sem nunca ter conversado sobre o assunto, fazendo com que sua primeira vez com o então marido fosse, quase sempre, um desastre digno de traumas e arrepios. Hoje, casa-se quando dá na telha, embora, confessemos, ainda haja a pressão velada de toda a sociedade para que a mulher se case antes dos 30. Mas a mulher de hoje, inteligente, faz que não ouve e não liga: tem mais o que fazer. Muito mais o que fazer.
Muito trabalho, muitas viagens, muitas compras maravilhosas. Muitos chopes com os amigos, muitas fofocas, muitas risadas, muita choradeira. Muito beijo na boca e em outras partes do corpo. Muito ombro a se oferecer, muita mão para se estender. E ainda temos a cabeça para cuidar. O maior desafio da mulher moderna não é romper obstáculos sociais, galgar novas posições no mercado, ser a mãe do ano. O maior desafio da mulher moderna é se conhecer, se aceitar, aprender a sorrir das besteiras com as quais inculca. É viver em paz, desencanada, numa boa. É reconhecer que ela pode tudo, hoje, porque houve, durante muitos anos, uma legião de mulheres que não podia fazer nada do que acima foi citado. Cumplicidade esquisita. Gratidão tamanha. E se tiver algo que possamos nós fazer pelas que virão, que façamos. Dia 8 de março é o dia de celebrar a corrente.
por Juliana Jacyntho, em 3/7/2005 09:21:38 PM
Giros, Voltas, Loopings e afins
Dizem que a vida dá voltas. Voltas e mais voltas. E que numa dessas voltas, tudo pode mudar. É vero. Mas tem voltas que vêm e parecem não mudar nada: é a volta do que já aconteceu, o retorno. É a moda que volta, são comportamentos que voltam, são regimes de governo que se alternam.
Minha mãe, nos idos anos setenta, só tinha batas em seu armário. Agora, nos anos dois mil, eu também tenho. E ela também as tem, deliciando-se no revival hippie tão em evidência nos dias de hoje. Bocas de sino também já voltaram (e já sumiram para poderem voltar mais tarde). E outros tantos modelitos vão e vêm (saias balonées que não nos ouçam!), revelando alguma falta de criatividade dos estilistas nossos de cada dia. E então eles respondem: não é cópia, é uma releitura. Ok.
Dizem que esse papo de que a vida é um moinho é tão verdadeiro que até a ditadura militar, em breve, também volta, pois seria típico da instauração dos regimes totalitaristas o forte desejo de impôr ordem no galinheiro. Regimes ditatoriais sempre seriam precedidos de um certo caos generalizado. Alto lá, meu comandante! Não estamos vivendo tamanho caos assim... (ou estamos?) Mas o caminho tomado pelo país depois de 1988, com a promulgação da constituição e seu modelo democrático, preferimos acreditar, é caminho sem volta. Sem volta para o mal. Em frente para o que vier.
Elis Regina cantou que ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. Prefiro acreditar que somos espécies lapidadas de nossos pais, diamantes brutos. Não repetimos seus atos, seus preconceitos, seus vícios, seus erros. Não, preferimos erros novos. Erros nossos. Que podem ser até os mesmos erros cometidos por quem nos criou, mas com uma releitura anos dois mil. E não só os erros e acertos das novas gerações vêm com novas roupagens. Se compararmos as batas dos anos setenta com as de hoje, perceberemos que há algo de novo no corte. Assim como nós. Assim como o resto do mundo.
A realidade pode até ensaiar repetecos do passado, deixando a sensação de dejá vu, mas preste bem atenção: é outro talho. Só por ser outro momento, já é diferente.
por Juliana Jacyntho, em 3/2/2005 09:48:26 PM
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