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Trava língua

O bom sincero só trai sua sinceridade quando cresce e amadurece. Quando pequeno, o bom sincero dá com a língua nos dentes, tem língua de trapo, vive de antena ligada, é fofoqueiro de carteirinha, nesta condição reconhecido pelos pais, avós, tios e vizinhos. Mal sabiam eles que a criança não era fofoqueira não. Era sincera a coitada. E criança! Que, por sua condição infantil e ingênua, não tinha aprendido, ainda, a filtrar as informações enviadas pelo seu cérebro à sua boquinha.

Mas o bom sincero cresce, assim como os falsos, como os dissimulados, assim como os songa-mongas, assim como o mundo. E o processo de amadurecimento do bom sincero é mais doloroso que os dos outros. Até aprender a manusear seus próprios freios, o sincero toma na cara: suas palavras vão e voltam, em forma de tabefes. Leva daqui. Leva de lá. Uia. Mais uma. Só mais umazinha. E então o bom sincero começa a enxergar que ser tão sincero assim não parece ser tão legal. Ele não curte mais entoar o canto sinceridade a ferro e fogo, doa a quem doer, sai da frente que eu tô passando. Simplesmente não se amarra mais nessa de sofrer e fazer sofrer por tão pouco: palavras que voam no vento.

Para o bom sincero, essa simples constatação de que as suas verdades não necessitam ser cuspidas na cara de quem passa pela sua frente, significa vida adulta. Significa sapiência. Significa perspicácia, inteligência. É quando ele opta por ser diplomata, político, coisa que até então o bom sincero repudiava. Mas é o caminho que ele escolhe: no lugar de palavras cuspidas, vomitadas, assim, sem pensar, ele passa a priorizar a forma de colocar os seus pensamentos. Ele se esforça para imprimir às suas palavras a melhor roupagem. Sinceridade mansa. Crítica construtiva antes versão napalm disfarçada de conselho dado por irmão mais velho. Fim da era transparência-descontrol. Até porque, olhando de perto, de perto mesmo, nem a água, rainha das cristalinidades, é tão transparente assim. E então conforta-se o bom sincero, com sua sinceridade "revisitada", socialmente aceita. A César, o que lhe convém. Pão para quem tem fome. Meias verdades para quem não segura a onda. Mentiras sinceras nos interessam, baby.
por Juliana Jacyntho, em 4/28/2005 09:42:35 PM



G.R.E.S. Convencidos da Capacidade

Já sabemos de outros carnavais que o mundo cresceu aprendendo que é feio se gabar. Crescemos escutando que ser humilde é que é bom e ser humilde, nesta concepção que nos foi transmitida por anos e anos, é não reconhecer, pelos cantos do mundo, que mandamos bem em alguma coisa da vida porque exultância, assim, pega mal. Por que será que autoelogiar-se é uma prática rechaçada pela sociedade, que nos obriga a incluir um batido modéstia à parte antes de reconhecermos que mandamos bem em alguma coisa?

Considerando a máxima que prega que é preciso eu me amar primeiro para que os outros me amem, não deveríamos nós afagar a nossa auto-estima elogiando-nos quando, de fato, fizemos por onde para receber tais elogios? Pois eu penso que sim. Que esta postura traduz uma baita sinceridade, no lugar da falsa modéstia. E que isso não quer significar falta de humildade.

Humildade é saber reconhecer que é falível, que é feito de carne e osso, que daqui a uns anos estará vivendo em condomínio com as minhocas. Humildade é saber reconhecer que esta condição acima é minha, sua, de todo mundo, que ninguém é melhor que ninguém, mas que, ainda assim, a maior parte destes ninguéns tenta fazer o seu melhor um dia na vida. E, neste momento, ninguém vira alguém. Alguém que manda ou mandou bem. Alguém responsável por um feito memorável. Ou mesmo por um feito legal. Mas um feito. E por ter feito algo impressionante, diferente, brilhante, bem feito, este alguém merece, sim, elogios e reconhecimento. E por que será que este reconhecimento não pode partir dele mesmo sem constrangimento ou sem culpas? Porque crescemos acreditando que se gabar é feio.

Se gabar, de fato, pode ser feio. Mas apenas e tão somente quando você não se esforçou, não estudou, não deu seu sangue, não fez por onde, não contribuiu, com nenhuma manifestação do seu espírito ou do seu corpo, para que o fato grandioso ou a mera tarefa diária fossem bem executados. Se gabar por ter feito vassalagem com chapéu alheio pode mesmo ser feio. Agora, cá entre nós, se você tem mérito na beleza da coisa, dê-se o direito do júbilo. E deixe esta feliz experiência te convencer de que você é capaz de fazer acontecer. Olhando por este lado, quem no mundo poderá dizer que ser convencido não é bom? Eu não.
por Juliana Jacyntho, em 4/26/2005 08:14:17 PM



Cidade LP

A cidade partida é assim: como um disco velho, LP, bolachão. Lado A e lado B. No lado A repousa Sophia, quarentona requintada, educada na Suíça, onde conheceu seu marido Johannes, grande executivo de uma multinacional. Seus aposentos: uma ampla e bem decorada cobertura de frente para o mar de Ipanema, pedaço do paraíso avaliado como um dos metros quadrados mais caros da redondeza.

Do outro lado, o B, repousa Marta, quarentona esforçada, mãe de quatro filhos, batalhadora, do tipo que rala para complementar a renda familiar junto a Raimundo, seu marido, porteiro. Ela? Diarista.

Toda quarta, as duas partes da cidade se encontram. Sophia e Marta. E então a cidade já não é mais tão partida assim: é junta. Juntas, elas passam o dia, quando Marta aparece para a faxina. Faxina à qual também se dedica Sophia: em seu closet. Mesmas tarefas, e então a cidade já não é mais tão partida assim. Sophia doa roupas, sapatos, lençóis, toda a sua produção excedente para Marta. E se conforta com seu ato de generosidade. Marta agradece e não se distrai, afinal, hoje é dia de bater a poeira dos tapetes da patroa, lá em cima, no terraço. Faz debruçar os persas de Sophia no parapeito, assim, para pegar um sol, aliás é isso que se faz aqui em Ipanema, vai-se à praia, pega-se um sol e toma-se um agüinha de coco, diverte-se Marta. Nesse meio tempo, ela lembra que, quando lava a roupa de sua família e dependura para secar, faz o maior sucesso: seu varal é o mais chique do morro. Só coisa de grife. E então a cidade já não é mais tão partida assim: roupa cara lavada, secando na corda do barraco.

Nova quinta feira que chega, novo dia de faxina que se anuncia, pensa Sophia. Mas Marta não vem. Marta não aparece. Marta não dá as caras. Marta não deu notícias. Sophia pensa em ligar para saber o que, de fato, aconteceu, já que a diarista nunca falta sem avisar. Mas nem precisou tocar no telefone. A vizinha de Marta, aquela mesma que tinha morrido de inveja dos belos lençóis e roupas finérrimas de antes, apareceu na cobertura para comunicar aos patrões da amiga que um de seus quatro filhos, o de dezesseis, o Uellington, aquele magrinho, levou um tiro de bala perdida no tiroteio que teve no morro, na noite passada, e ia ser enterrado agora à tarde. Foi por isso que a Marta não veio, dona. Mas ficou preocupada de fazer desfeita, lembrou da senhora e pediu para eu correr aqui para avisar.

E então a cidade partida ficou tão partida, tão partida, que Sophia sentiu-se morando no Japão. Mas não era Japão, era a cidade partida. Lado A e Lado B. E então Sophia pôs-se a chorar.
por Juliana Jacyntho, em 4/18/2005 10:10:27 PM



Antecipando a comemoração

A partir de amanhã, o Balanço de Dez em Dez contará com este template bebê, em homenagem ao início do mês de seu aniversário de um ano, que é no dia 18/05/2005.
por Juliana Jacyntho, em 4/17/2005 01:21:56 PM



Raízes

Raízes são os sustentáculos de uma planta. São também o terror das mulheres tinturadas: é aquela mecha branca que anuncia que uma visita ao salão de beleza se faz necessária e que o bolso, via de conseqüência, sofrerá uma baixa. Igualmente necessária. Frivolidades à parte, raízes remetem ao lugar onde nascemos, ao seio da família na qual crescemos, àquilo que nos foi apresentado como lar, primeiro lar. Estas raízes podem ser como as da planta: nosso sustentáculo. E podem ser, ao mesmo tempo, ou alternadamente, como as raízes da mulher tinturada: aterrorizantes.

Quem retorna à casa em que nasceu, à cidade em que nasceu, à escola em que estudou quando pequeno, pode vivenciar um turbilhão de emoções em um só dia. Boas e ruins. Lembranças saudáveis e outras traumatizantes. Umas pedagógicas, outras destrutivas. Mas são lembranças. E são desencadeadas pelo contato com lugares do passado, pessoas do passado, com o seu passado: suas raízes.

Raízes moldam um ser humano. Para o bem e para o mal. Se você é do tipo que tem boa apresentação, agradeça ao seu pai que, mesmo cansado, quando chegava do trabalho, sentava-se ao seu lado e, afagando seus cabelos, te escutava, respondia às suas dúvidas, sorria e te elogiava, mesmo sem saber que, desde aquele dia, estava ele afagando sua auto-estima e te preparando para brilhar naquela reunião de negócios que aconteceu ontem, em que você falou tão bem, mas tão bem, que roubou a cena. E conquistou a admiração do seu chefe. Outra: se você, hoje, é daquele tipo que ama ler, consome livros como quem bebe um copo de coca-cola e escreve bem, mas tão bem, que arrebanha elogios por onde suas peças, textos, pareceres e até bilhetinhos passam, lembre-se de agradecer à sua mãe que, mesmo diante de tanta dificuldade, em casa e no trabalho, se lembrava sempre de te trazer livrinhos de história, aguçando seus sentidos para a literatura. E para a escrita.

Mas não só coisas boas vêm de pequeno. Raízes, remember, são sustentáculos da nossa personalidade e estão marcadas na nossa história, de novo, para o bem e para o mal. Traumas vêm das raízes. Muita análise para buscá-los e saber lidar com eles (ou achar que sabe). Basta uma cena do agora que nos remeta às cenas tristes e fortes que vivemos lá atrás para ficarmos patetas, bobos, sem pensar. [Só sofrer]. Mas pra quê, se já passou? [Porque são nossas raízes, . E estão aqui, aos nossos pés]. Estão aqui. É o que já vivemos, é o que somos.

O que vivemos pode ser motivo de júbilo ou vergonha. Pode ser motivo de sorrisos ou lágrimas. Pode ser motivo de coragem ou fraqueza. O que vivenciamos faz parte da nossa história e tende a influenciar nossas atitudes, ainda que inconscientemente. Conscientemente, o que podemos fazer é não cutucar o que dói, já que já está lá atrás, bem lá atrás mesmo. Conscientemente, podemos também agradecer o que nos fez grandes, porque isso vamos continuar usando: as heranças que nos fizeram bons. Bons de cuca, às vezes nem tanto, mas sempre muito bons de coração.
por Juliana Jacyntho, em 4/13/2005 09:51:38 PM



Palavras terapêuticas

Conversar serve para matar o tempo. Conversar serve para resolver problemas, serve para obter informações, serve para tirar dúvidas. Mas, acima disso tudo, conversar serve para se auto-conhecer. Quando se tem lucidez e clareza de idéias que possibilitem expor uma sensação incômoda de forma precisa; quando se tem um interlocutor que faz as vezes de analista mas que é um amigo querido emprestando-lhe o ombro, os ouvidos e suas experiências de vida; quando se tem essa troca, conversar alivia tensões, tranquiliza o espírito e faz o perturbado enxergar que não era com ele, o mundo todo tem nóias e necessita filtrá-las.

Uns filtram no mar, num barco, numa onda. Outros filtram na estrada, na moto, na velocidade. Outros filtram no papel, escrevendo, ensaiando. E outros filtram conversando.

Expor o que se sente, como se sente, sem preconceitos, sem medo de ser tachado, rotulado, repreendido, é alternativa que possibilita olhar para dentro de nós mesmos, enxergarmos o que está doendo, o que está fora do lugar, o que está cutucando o cérebro e o coração, e tentarmos, compreendendo a razão do incômodo, relativizar a angústia. É muito mais fácil fazer isso com a ajuda generosa de um amigo. Aquele terceiro desinteressado que se põe a te ouvir com atenção, com neutralidade. Aquele que reparte com você as nóias dele, os medos dele, as inseguranças dele e faz você enxergar que ser humano nenhum é perfeito e funciona 100% bem. Ser humano que tenta ser perfeito nas vinte e quatro horas do dia, pifa na vigésima quinta. E pifar não é vergonha para ninguém. Reconhecer que pifou, muito menos. Muito embora a sociedade pregue o glitter eterno.

Gente de verdade não tem camada de glitter eterno. Gente de verdade brilha de vez em quando, quando corre atrás, quando rola. E o brilho, aí, vem do suor da conquista, do reflexo das lágrimas que caíram no percurso, não do glitter. Para essa gente, acordar com o peito apertado por ansiedade, por medo, é um desafio e um convite a uma boa conversa, a um bom bate-papo esclarecedor. E se expor, para essa gente, é aceitável. Demonstrar fraqueza é aceitável. Voltar atrás é aceitável. Reconhecer que está mau-humorado, irritado, assoberbado, também é aceitável. Para essa gente, sentir medo é normal, é natural. Não faz deles menos vitoriosos.

Bate-papo que vem, bate-papo que vai, sentimentos que se externam e que voltam em forma de palavras de encorajamento: não superdimensione uma sensação ruim. Pra quê viver carregando culpas? Pra quê remoer acontecimentos sofridos? Não foque no negativo, pense no que há de bom. E não se reprima, todo mundo se sente assim de vez em quando. Nessas horas todos queremos ser todo mundo. Identidade globalizada deveras confortante. Afinal, ninguém na vida sabe tudo, nem o Aurélio. Conversar com alguém ajuda a enxergar luzes no fim do túnel escuro. Pois então, lembre-se de escolher alguém que esteja utilizando óculos cor de rosa.
por Juliana Jacyntho, em 4/12/2005 07:48:18 PM



Desespero juvenil

Tranco a porta. Descalço os sapatos e vou caminhando rumo à secretária eletrônica para escutar recados. Dois. Os dois da mesma pessoa. No primeiro, ela diz: Lucas, eu te amo, se você não atender este telefone, eu vou me matar! Percebo que Lucas não atendeu ao apelo sofrido da jovem porque ela liga novamente, logo após. Desta vez, o recado revela um suspiro forte e profundo, seguido da seguinte frase: Tudo bem, Lucas, você venceu. Tchau. Adeus.

Eu, que não me chamo Lucas, fico ali consternado escutando, por repetidas vezes, o sofrimento daquela jovem. Eu, que não tenho primos, irmãos, nem vizinhos que se chamam Lucas, ponho-me a pensar sobre como terá sido a história de amor que fascinou tanto aquela garota, a ponto de fazê-la utilizar a própria vida como moeda de barganha por alguns parcos minutos ao telefone com seu amado. Meu pai não se chama Lucas, nem meu avô, nem o motorista da minha mãe. Conclusão: o recado não era mesmo para ninguém na minha casa.

E então, especulo, mais uma vez. E se aquela menina realmente deu cabo da própria vida por não ter conseguido falar com o seu adorado Lucas, sem saber ela que tinha ligado para o telefone errado? E se Lucas se arrependesse do fora que deu na menina e por ela saísse procurando pelas ruas da cidade e, quando à sua casa chegasse, desse de cara com o seu velório, a mãe dela chorando sobre o caixão revestido de cetim rosa e coberto de velas derretidas e o pai dela querendo matar o desgraçado, pivô de toda aquela tragédia? Pobre Lucas... Pobre menina. Romeu e Julieta dos tempos modernos, em que o veneno letal atende pelo nome de companhia telefônica. Totalmente sem charme.
por Juliana Jacyntho, em 4/6/2005 07:24:33 PM



Ritos muito especiais

Conclave, camerlengo e "testamento espiritual" são palavras que não estávamos lá muito acostumados a escutar, que dirá a escutá-las com tamanha freqüência. Conclave é palavra bonita que significa com chave, segredinho básico. Camerlengo é palavra engraçada e é o nome dado ao homem de confiança do Papa morto. Testamento espiritual, ao que parece, não difere dos testamentos elaborados por nós, mortais, mas por ter sido um ato emanado por Vossa Santidade e, por não versar sobre pendengas materiais, é chamado de "espiritual".

Nos familiarizamos com estes termos todos, nesta última semana, em virtude da cobertura maciça da mídia em torno da morte do Papa João Paulo II, Karol Wojtyla, o único Papa polonês. O único Papa que não era italiano. Quanta informação. Ninguém discute que João de Deus, assim como Noel, era um bom velhinho. Se esmerou pela paz mundial, pela união de povos e culturas, visitou países ricos, subdesenvolvidos e emergentes, fazendo ponte entre mundos tão díspares. E, por toda esta obra, merece honras e créditos.

Mas vem cá: é espantoso presenciar tamanha mobilização mundial em volta da morte de um só homem, ainda que de um grande homem. É mais curioso ainda se constatarmos que a maioria dos Estados democráticos, Brasil inclusive, é laica: se compromete a não prestigiar uma ou outra religião em especial. Eis que o chefe da Igreja Católica previsivelmente falece, já que idoso e doente, e o mundo pára. Pára para assistir à cobertura do velório na tevê. Pára para discutir no trabalho o porquê das três marteladas de prata no peito do pobre do morto (que, àquela altura se não estivesse morto, morto restaria). Pára para orar, rezar, sei lá, por João de Deus. Pára para participar.

Nós, povo, queremos participar. Uns pela fé abundante, outros pelo evento. Não vale ficar de fora. A torcida tricolor pediu a benção no Maracanã lotado e o Papa, que era brasileiro em todas suas vindas ao país, de onde quer que estivesse, retribuiu com o belíssimo 4x1, para desgosto de nossa torcida rubro-negra. Católicos e curiosos de todas as regiões contorcem-se em cólicas só de pensar que o prognóstico anunciado, de que um dos prediletos para ocupar o mais alto posto clerical é um brasileiro, pode ser confirmado nos próximos dias. Cracóvia que chora, correspondentes internacionais que se acotovelam nos telhados de Roma, fumaça preta ou branca que sairá da Capela Sistina para anunciar o próximo pontíficie, multidão, Dan Brown, anjos, demônios: a morte-show.

E enquanto o mundo não conhece o próximo Papa, os cardeais estão chegando ao Vaticano, onde estão sendo hospedados na Casa de Santa Marta, sua residência oficial, onde terão tratamento vip, com direito a chef que lhes prepará uma alimentação rica em carnes, queijos e vegetais. Vinho tinto de ótima safra, charutos e cognac de marca renomada também foram encomendados, conforme acabou de noticiar o telejornal. E o que nós, pobres mortais, fazemos com este tipo de informação? Nada. Escutamos, absorvemos e imaginamos, inevitavelmente, uma sala cheinha de velhinhos gagás, vestidos com batinas vermelhas e cuias na cabeça, decidindo quem será um dos próximos homens mais poderosos no panorama político mundial. Mais uma dose de conhaque para esquecer estes escândalos de pedofilia dentro da igreja, por favor, goles intercalados com boas garfadas deste delicioso filé alto mal-passado. Falando em passar, passem-me o vinho, pois só com alguns outros cálices desta bebida sagrada vermelha e anestésica que consigo esquecer que milhões já morreram ou adoeceram porque ainda condenamos a camisinha. Milhões engravidaram trazendo à vida outros milhões que morreram de fome, porque ainda condenamos as pílulas anticoncepcionais e disso nem quero me lembrar, por isso bebo. Milhões sofrem com olhares enviesados de preconceito pelas ruas porque pregamos que homossexualismo é desvio do capeta. Falando em capeta, mais um dose desta bebidinha vermelha, por favor! Só assim para afogar as mágoas, as vergonhas, o falso moralismo, as neo-indulgências, as corriolas do poder. Irc! Que venha o próximo Papa, seja o que for que isto significa, hoje, para a nossa História.
por Juliana Jacyntho, em 4/5/2005 09:17:12 PM



Vivendo e aprendendo

Para nos lembrar quão pequenos, preconceituosos e pretensiosos somos, a vida nos coloca, de tempos em tempos, diante de gigantes travestidos de anões. A gente olha o anãozinho e nem tchun. A gente olha o anãozinho e não sente despertar interesse pela sua pessoa. A gente olha o anãozinho e não se importa com ele, nem com suas conversas, nem com sua companhia. Até o momento em que a gente protagoniza uma cena de agonia em que é o anãozinho quem vem nos ajudar. Naquele momento, o anãozinho cresce. Cresce tanto, mas tanto, mas tanto, tamanha sua generosidade, simpatia e desprendimento, que a gente fica com cara de tacho, envergonhada por não ter conseguido enxergar que o anãozinho era, na verdade, o disfarce de um Gigante gente boa. Aí, então, nos sentimos anõezinhos nós mesmos.
por Juliana Jacyntho, em 4/3/2005 02:49:30 PM



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