Festinha de aniversário
Um ano de vida completo é motivo de festa em todos os cantos do globo terrestre. Não interessa se é na China ou no Japão, no Rio ou em Sampa, na França ou na Inglaterra. Se tem bebê fazendo um aninho, é festinha na certa. Bolos, balões, docinhos, parabéns pra você cantado com alegria sem igual. Motivos para comemorar não faltam aos pais: aquele serzinho que até ontem morava na barriga da mãe cresceu e, hoje, arrisca os primeiros passos, as primeiras palavras, os primeiros acenos conscientes para o mundo fora do berço.
O Balanço de Dez em Dez completa um ano hoje. Eu, no papel de mãe dessa coisa viciante e extremamente querida que entrou com tudo na minha rotina desde maio do ano passado, não me privo o direito de comemorar com vocês, que vêm aqui e lêem os textos do blog quase diariamente, comentando, trocando idéias, expondo suas experiências, estimulando a discussão dos assuntos que pontuam nosso dia-a-dia. Assuntos ditos mulherzinha, cotidianidades, política, religião, moda, loucura, sensatez, de tudo um pouco. Porque a vida de cada um de nós é feita de tudo um pouco e é nessa miscelânea que reside a graça de se continuar vivendo. E observando, reparando, escrevendo, tecendo comentários, sejam eles tecidos com o vizinho ao lado ou numa janela de blog qualquer.
Viver não é verbo a ser conjugado unilateralmente, por mais egoísta ou autosuficente que sejamos nós. Viver é intercâmbio, caminho de ida e de volta, palavras que vão e que voltam, gestos que saem do corpo e ficam para sempre. Na história, na memória. Nossa e dos outros. Viver é fazer parte de alguma coisa. É encantar pessoas e ser por elas encantado. Na toca, ninguém vive, mas na troca se vive e muito.
Sou imensamente grata por fazer parte deste primeiro ano de bate-papos e troca de idéias através deste blog e de tantos outros. Quero mais.
por Juliana Jacyntho, em 5/18/2005 12:03:39 AM
Quando 2+2+1=1.000
Dois fatos. Duas pessoas. Um observador. Muito aprendizado.
Num, Eleutério promete à sua amada que viajará até sua cidadezinha natal para dar-lhe um beijo de dois anos de namoro, mesmo caindo a data num domingo, mesmo sabendo Eleutério que o último trem para a capital sai no cair da tarde e dentro dele ele terá que estar, pois no dia seguinte, de manhãzinha, tem Eleutério que bater o cartão de ponto na fábrica de tecidos na qual trabalha. Esquece-se Eleutério de que ele não é dois. É um só. Mesmo assim insiste Eleutério na promessa de ver a amada, nem que seja para com ela estar por uma horinha, meia horinha, minutinho que der, antes do trem chegar. Esquece-se Eleutério de que a amada só larga do serviço uma hora antes do trem partir, o que, pelas leis do nosso caro Murphy, reduz as chances do encontro amoroso ser levado a efeito em 50%. E, então, a confirmação: o tiro de Eleutério sai pela culatra. Sua amada se atrasa na saída do trabalho, risco que se corria. Atolação. Eleutério olha para o relógio e percebe que, de fato, não pode mais esperar, tem que correr para a estação a fim de partir para a capital. Liga para sua amada e comunica-lhe que está partindo, que a ama, que o beijo ficará para depois, o trabalho me espera, diz Eleutério. Sua amada chora. Eleutério se ressente da promessa não cumprida. Sente culpa pela expectativa gerada e não atendida. Cai uma lágrima, duas, três, no rosto de Eleutério, refletido no vidro da janela do trem que o levaria de volta para casa.
Noutro, Flaviana resolve que chega de faculdade, chega de cursinho de inglês e francês, chega de aulas de piano! Flaviana chuta o balde da sua rotina e vai para a praia. Passa Flaviana uma semana inteirinha "matando" seus cursos, só quer saber a menina de ir à praia. E fica contente assim: indo à praia, sentindo o esfoliar da areia, a pele colorindo, os gatinhos por ali passando. Água de coco. Água do mar. Seu pai, executivo de uma multinacional espanhola, não vê Flaviana há doze anos, desde que a menina tinha sete anos de idade, mas não a negligencia economicamente: deposita para a filha uma gorda mesada que lhe proporciona carrão do ano, jóias, ouro, muito ouro e roupitchas superbacanas. Florinda, mamãe de nossa protagonista, nem tenta colocar a filha nos eixos, já perdeu as esperanças de que Flaviana entenda que, em algum momento da vida, é preciso amadurecer e lutar pelo que se quer, sem esperar o rebote da bola paterna... lição que, diga-se de passagem, a própria Florinda se esqueceu quando recebeu a gorda herança de sua madrinha e juntou o seu quinhão obeso à fortuna de seu terceiro marido, igualmente obesos. Flaviana? Segue indo à praia, religiosamente, todos os dias, empenhando-se em ser, no futuro, talvez, uma forte candidata a abrigar um câncer de pele. Faculdade? Jubilada. Cursinhos? Também já eram. Flaviana confessa que não quer saber de conselho de pai nem mãe nem de amigo, nem orientação presidencial no sentido de levantar o traseiro. Gosto do ócio, diz a menina, quase mulher.
Olhando o que acontece à nossa volta a gente também cresce. Quem disse que só levando no lombo é que se aprende, me desculpe, errou. Nem sempre. Agradeçamos nós a Eleutério e Flaviana pelas lições hoje aprendidas: 1- Nunca faça promessas se você pressente fortemente, desde o início, que não será capaz de cumpri-las; 2- Muitas pessoas inutilizam a faca e o queijo que têm na mão, simplesmente porque têm alguém cortando o queijo por elas. Sai na frente quem prefere cortar o queijo à sua moda.
Um viva às cobaias nossas de cada dia! Sempre lembrando que, amanhã, poderemos nós ser cobaias do vizinho nós mesmos. Desde que seja ele, o vizinho, um bom observador. Desde que sejamos nós, humanos, bandidos ou mocinhos, estressados ou descansados, com razão ou desarrazoados, como costumamos ser um dia ou outro. No final, viver é uma infinita troca de experiências, ainda que involuntária. Mesmo sem percebermos, sempre tem alguém nos observando e aprendendo com nossas opções, sejam elas acertos ou mancadas. Isto sim é que é reality show. O resto, Endemol que me perdoe, é fichinha.
por Juliana Jacyntho, em 5/16/2005 08:50:19 PM
Nós, os artistas
Desprogramar-se é um grande desafio. Tantas atitudes repetidas, tantos comportamentos que insistem em nos visitar, again and again, mesmo quando sabem que são persona non grata dentro dos nossos dias. Comigo, por exemplo, é o medo, é a ansiedade e também a preguiça. Com o meu vizinho, é... sei lá, mas sei que meu vizinho também tem os seus comportamentos ditos 'padrão', os quais ele tenta se livrar durante toda sua vida. E não consegue, pois estão lá: arraigados, grampeados, como sanguessugas.
Mas quem foi que disse que precisa ser assim: defeito grudado em mim, comportamento mala grudado em ti, até que a morte nos separe? Temos ou não temos o direito (ou seria dever?) de amadurecer, disciplinarmo-nos e lutar pela ausência (ausência? Rá! Impossível, melhor dizer pela 'menor incidência') de sensações repetidas que nos boicotam como medo, insegurança, ansiedade desenfreada, cricrizice, mau-humor, preguiça, ranhetice e outras facetas tão indesejadas quanto? Permaneço acreditando que temos o direito sim. E talvez o dever também, se enxergarmos que, nesta vida severina, quem tem que se empenhar pela nossa evolução e bem-estar é a gente mesmo. Pois bem.
Acontece que a ansiedade não pergunta se pode entrar. O medo não liga avisando que chegará para provocar o tremor nas pernas e o frio na barriga diante do desconhecido. Insegurança não manda e-mail perguntando se pode ficar na nossa casa no próximo fim de semana. O mau humor simplesmente chega, assim, como os outros, sem avisar. E ainda faz cara feia diante de nossa surpresa ao recebê-lo à porta. A preguiça? Ah, a preguiça sente o braço pesar 'por demais' para emitir algum sinal de que pretende aparecer nos próximos dias! Sinal de fumaça? Também não. Nenhum deles manda não.
Sensações ruins, os chamados defeitos ou fraquezas, comportamentos repudiados pelo nosso lado do cérebro 'dito' cheio de atitude, esclarecido, bem articulado e louco para viver a vida no melhor estilo 'se joga' não avisam quando vêm. Simplesmente vêm. E fazem de nós esta dicotomia maluca que a uns assusta e a outros encanta. E a nós mesmos irrita. Irrita porque eles vêm. Vêm para nos mostrar que sim, somos falíveis e imperfeitos, ainda que não nos sintamos confortáveis com esta constatação.
Mergulhados nesta busca frenética pela tão cobrada perfeição, a gente se esqueceu que ser humano implica em permanecer sendo imperfeito. Desprogramar-se não é parar de errar ou impedir a visita dos nossos defeitos: é olhá-los com bom humor e não superdimensioná-los, como se fossem eles o centro das atenções. Não. O centro somos nós. Talvez seja tudo uma questão de foco.
Não importa se não gostamos de nossa cara emburrada naquela manhã cinza, nosso medo estampado na testa, nossas frases mal articuladas diante da confusão mental causada pela ansiedade. Não importa quão revoltados fiquemos nós ao constatar que repetimos, mais uma vez, uma postura que já foi por nós e amigos pacientes tão e tão debatida e que parecia lá, esquecida: ela volta. Eles, os defeitos, as fraquezas, continuarão fazendo visitinhas surpresas freqüentes. Porque o show tem que continuar. Foco: nós no palco, eles na platéia. Afinal, de vez em quando temos que mostar quem é que manda nesta peça.
por Juliana Jacyntho, em 5/11/2005 09:40:24 PM
Sexos, opções e revoluções sócio-culturais
Já ouvi dizer que gays seriam homens perfeitos para as mulheres se não fosse pelo fato de sentirem atração sexual por homens. Afinal, eles são bem-humorados, antenados, vestem-se muitíssimo bem, freqüentam os melhores bares, restaurantes e nightclubs da cidade, além do que são sensíveis. Sensíveis. Dão, portanto, ótimos amigos confidentes, além de serem ótima companhia para ir às compras: não reclamam nem fazem cara feia. Mas nem tudo está perdido quando o assunto é "heteromem". Graças a Santo Antônio e outras forças casadoiras, muitos homens straight atentaram para o fato de que sem sensibilidade, sem papo, sem tato, não rola o entendimento. Simplesmente não rola. O que chamam por aí de metrossexual, nécessaires recheadas de cosméticos e sombrancelhas tiradas à parte, eu chamaria de homem moderno e inteligente. É aquele que cresceu observando modelos falidos de masculinidade e decidiu fazer diferente. No more macho men problemáticos, cafajestes por gosto, ditos infiéis por natureza, ostensores daquele visual limítrofe entre o sujo e o desleixado, tão repudiados pela mulherada que quis da vida algo além do tanque. A mulher evoluiu e o homem teve que acompanhar. E não enxergo nesta constatação feminismo inflamado algum: é a mais pura realidade. Realidade em que todos saíram ganhando: mulheres ganharam amantes refinados, homens ganharam o direito de cuidarem-se sem que, para tanto, tenham que enfrentar preconceitos e... Bem, falando em preconceito, pensando bem tem gente que ainda têm muito o que conquistar e ganhar, algo que vai muito além do reconhecimento de ser o supra-sumo do bom gosto. Pensando bem, ainda caminhamos.
por Juliana Jacyntho, em 5/6/2005 10:58:14 AM
Espelho, espelho meu
Que menina não se endividou gastando os tubos que tinha (e que não tinha) por ter se apaixonado perdidamente por aquele par perfeito de sapatos bicolor? Que menina não se debateu diante do dilema: economizar para os dias vindouros ou torrar uns cents num enxovalzinho básico (leia-se: casacos, calças, jaquetas e mais casacos) para o inverno que está chegando? Que menina não se penitenciou por ter deixado de adquirir uma bolsa apaixonante antes da dita cuja sumir daquela vitrine visitada uma vez por dia?
Mulheres se esmeram na arte do adorno. É nosso. Tá no sangue. Estamos cansadas de escutar que mulher é bicho consumista. Que mulher só pensa em roupas e sapatos. Esquecem-se eles das bolsas. Estamos cansadas da máxima: para quê tantos sapatos se você só tem dois pés? Uia que essa é a pior recriminação de todas as já ouvidas. Peço ajuda não aos universitários, mas sim aos nossos ancestrais para tentar entender essa relação de amor e ódio travada entre mulheres, homens, bolsos e a moda.
Não é de hoje, mas sim das cavernas, que as mulheres se enfeitam para atrair seus pares, afagar seu ego e, dizem as más linguas, eriçar a cobiça em suas rivais. O que antes eram só flores, fibras naturais em forma de vestimenta e corantes extraídos das frutas e outros vegetais, passados na face para dar aquela corzinha saudável, hoje respondem pelo nome de chanelzinho bico fino, jeans five pockets, casaquinho de tweed. Batom, gloss, sombras, muitas sombras. Rímel. Preto ou transparente. Calça pijama e t-shirt hering branca. Também podem responder pelo nome de tênis, vestidinho e jaquetinha jeans. Depende do clima. Óculos escuros!!! Rabo de cavalo, tiara, tic-tacs. Cabelos ao vento ou cabelos pra cima! Scarpins pra que te quero, tubo poderoso e pashmina, prontos para uma festa badalada. É tudo enfeite. É tudo pró-beleza, pró-satisfação (sua e do seu consorte). É tudo pró-bem-estar. Para o bem-estar. Estar bem vestida, estar bem de cabeça. Bem da cabeça aos pés.
Moda, antes de qualquer pedra atirada sobre sua faceta dita fútil-materialista, é cultura. É a mais perfeita tradução de comportamento da mulher contemporânea. Do homem contemporâneo também, não é à toa que eles andam tão interessados na arte de se vestir bem. De cheirar bem. De se apresentar bem. Sua roupa tenta dizer, antes de mais nada, quem você é, o que você pretende, a que você veio. Ainda que você não queira, é assim que funciona. Antes de você poder dizer qualquer palavra, alguém já bateu o olho nas suas vestes. De bom gosto ou não, o que é pra lá de subjetivo, elas dirão uma mensagem sobre você. Esta é espalhafatosa. Esta, básica demais. Aquela, fashion victim. Aquela outra lá tá com tudo em cima.
O mais importante nisso tudo é que, não importa o estilo adotado, se perua, se bege, se esportiva: invólucros tendem a se tornar transparentes depois de cinco minutos que adentram em cena. O que marca é o que vem dentro. O tão falado "conteúdo". O que surpreende são suas palavras, seus gestos, sua história, seu sorriso, se sincero. Estes vêm para ficar, não vão e voltam como a moda. Estes dizem realmente quem é você, não fazem apenas tentativas de dizê-lo. Vestir-se bem, tardes de liquidações neste mundo de meu Deus com as amigas, adquirir aquele casaqueto tão sonhado, acompanhado daquelas botas chiquerésimas queridas há meses: valem quanto pesam na conta bancária, valem a satisfação de ver a imagem desejada refletida no espelho. Despir-se das suas próprias embalagens e encontrar a satisfação bem lá dentro do peito: definitivamente, não tem preço.
por Juliana Jacyntho, em 5/2/2005 07:36:21 PM
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