Desafio samambaia
Ninguém merece gente de mal com a vida se queixando à sua volta, muito menos gente de mal com a vida que não enxerga seus próprios problemas e insiste em furucar a vida alheia, para tirar o homem de bem do alto do pedestal de sua tão sonhada e conquistada sensatez. Tá lá o Sensato, quieto no seu canto. Vem o Demal e espezinha tanto, mas tanto, que consegue fazer o pobre do Sensato perder o que lhe é tão caro: o seu bom senso. Bom senso este que faz com que Sensato consiga travar a língua quando encontra Demal e seu repertório num outro episódio de provocações. E Sensato consegue se fingir de verde, faz que não escutou. Consegue pôr em prática sua melhor faceta samambaia-chic. Mas, apesar de tanta chiqueza, ele se ressente. Afinal, escutou sim o comentário venenoso, maldoso e leviano proclamado por Demal, naquele tom de voz que só ele sabe reproduzir, do tipo: tô falando suficientemente baixo para você pensar que não era para me escutar, mas suficientemente alto para você me escutar sim. E sair ferido. E Sensato fica triste. Mas horas depois, percebe a inteligência do ato: fez certo em não responder o que era apenas um controle remoto sem pilha, ou seja: mais uma inutilidade para os seus dias.
O que vale mais: ser calmo e não se alterar, não dar crédito a banalidades de gente que dormiu de calça jeans e tirou a calça pela cabeça e seguir pela vida cantarolando ou subir nas tamancas e se estressar por completo, respondendo a provocações sem pé nem cabeça, enveredando por agressões e discussões que não levam a lugar algum?
O Ministério da Sabedoria e Saúde Mental adverte: responder provocações inúteis faz mal à saúde. O problema é que, como todas as ações do nosso governo, esta acima também é tardia e extemporânea: nós cidadãos desavisados, ao ouvir a advertência, a esta altura já tínhamos caído de boca no "vício" de se alterar, se irritar, se magoar e responder cobras e lagartos para aquele ser, filhote de cruz-credo com espírito de porco que, com um sorrisinho filho de mãe indecorosa no canto da boca, insistiu em nos tirar do sério. E conseguiu. 1x0. Ponto para o filhote. Nota zero para quem não conseguiu acionar o comando cerebral forma de uma samambaia ativar!, poupando seu coração e neurônios de sensação tão desgastante quanto a ira, a raiva, a decepção.
Dizem que esta sagacidade vem com a idade, que aprendemos a detectar o que é provocação gratuita e barata e a desprezá-las, com classe e serenidade. Que, com a experiência ganha em anos de vida, vem a sapiência para perceber a provocação inútil e que não merece sequer resposta, aquela advinda de sentimentos ainda mais reles do que a própria provocação em si: inveja, despeito, frustração pessoal de quem, em vão, segue provocando os outros. Não sei se esta malandragem vem aos vinte, aos trinta, ao quarenta, não sei. Mas que venha, venha correndo. E que consiga correr mais rapidamente que o sangue que corre nas veias e causa rubor às bochechas e transmite ao cérebro o comando estúpido: responder - mandar às favas - chutar o pau da barraca - agredir - bora, agrida de volta! Ninguém merece. Merecemos saber ser verdes quando a ocasião pedir. E poupar nossas belezas.
por Juliana Jacyntho, em 6/27/2005 09:12:27 PM
Jeito esquisito de mandar recados...
Pra quê ser tão cheio de razão, de verdades prontas, de pré e pós conceitos, de julgamentos e sentenças? Pra quê? Pra ser traído pelos fatos da vida que insistem em nos mostrar quão banais são nossos questionamentos? Para sermos traídos por verdades mais cruas, mais nuas, mais cruéis, que, ao nos serem contadas, desbancam nossas verdades mesquinhas?
Qual o nome da Força que agenda encontro entre nossas pequeninas mazelas e os problemas de verdade dos outros? Deus? É Deus que coloca o terceiro para penar diante de nossos olhos, para mostrar que somos estúpidos e anões diante do gigantismo que foi demandado àquele terceiro quando teve ele que transpor uma barreira à sua própria existência sã? O mesmo Deus que move céus e terras e faz erupcionar vulcões? O mesmo que desencadeia maremotos, terremotos, cardiomotos, psicomotos e sabe-se lá quais outras desordens diante de nossos olhos?
Pra quê tantas mensagens desconexas, amigo? Pra quê tanto sofrimento e provação? Sabia não que estamos já na era do computador, do e-mail? Que há muito já trabalhamos com transmissão de fax? E então? Dá pra tentar mandar seu recado pelo msn, sem que tenha que colocar gente se doendo na nossa frente, no nosso espelho? Faz, favor, né, Seu Deus. Seja claro, rápido, indolor. Ou será que assim seria sem graceira demais...? Sem entrelinhas, sem choro, nem vela. Sem dor, sem dúvidas, sem gritos de socorro.
Sem isso tudo, caro pupilo, você não viveria. Você sequer estaria escrevendo este texto, já que o faz impulsionado pelas emoções que experimenta e pelo dom de observar, dom este que fui Eu quem te deu. Portanto, continue forte no aprendizado que retira de atos seus e dos demais que insistem em cair e levantar, bem aí na sua frente.
por Juliana Jacyntho, em 6/24/2005 09:28:55 PM
Ode a noiados amados
Todos uns burros, todos uns estúpidos, doutor. Não aguento as gentes, são todos uns boçais. Não suporto minha imagem refletida no espelho, ela também me soa banal. Gosto da minha cria, ela sim é brilhante. Também, pudera! Saiu de mim, doutor, não poderia ser de outra maneira. Não consigo me misturar, são todos uns sujos. São todos ignorantes. São todos uns boçais. Não merecem meu olhar de compaixão, meu aceno de cabeça, para o sim ou para o não, minha interlocução, não merecem. Merecem meu asco, meu repúdio e minha crítica, doutor: são todos uns idiotas... não, não os acompanho, eis que vago à frente, em quilometragem muito mais acelerada. Mas sim doutor, compreendo tuas palavras: se a este mundo pertenço, a ele devo me adequar. Por isto retorno à esta casa, doutor, prescreva-me algo para a dor interna, algo que cale as vozes repressoras que ecoam no meu cérebro, algo que deixe os burros e estúpidos desfilarem em paz na minha frente, sem que o meu cérebro acione o comando [crítica], que insiste em taxá-los todos de burros, estúpidos, e o que mais soar conveniente de ser repetido, diretamente de lá de dentro.
por Juliana Jacyntho, em 6/20/2005 11:21:37 PM
Encontro de Thereza consigo mesma
Não funcionamos todos muito bem sob pressão. Uns pifam. Outros surpreendem. Quem pifa não segura o tranco da cobrança: é muita voz no meu ouvido. Quem atura, sai do período atribulado mais forte: e aí ninguém segura quando ele percebe sua própria habilidade de fazer tudo acontecer. A tempo e à hora. Tudo bem: nem tão à hora assim... Ainda que atrasados na subida do bonde chamado compromisso, pendência, tarefa, trabalho, atribuição, seja o nome do bonde qual for: quando a gente nele sobe, toma o volante e sai dirigindo, ainda que enfrentemos nós tempestades, caras feias, buracos, lamaçais; ainda que o co-piloto seja um pequeno ser desprovido de miolos, ainda que o mundo pareça conspirar para que não completemos nós o nosso humilde trajeto... Ei-nos ali, no destino final, na linha de chegada, superando as dificuldades enfrentadas no caminho. Ei-nos ali, sorriso bobo na cara, que surgiu com o contentamento e constatação de ser capaz de atuar - fina e brilhantemente - sob canivetes. Porque quem veio ao mundo para fazer diferente até se abala diante do desconhecido, do empurra-empurra, da cara monstra e exigente. Até se abala... mas é no abalo que quem veio ao mundo para aparecer, de fato, APARECE (assim, em caixa alta). Assim, do lado de fora do umbigo. E com Thereza não foi diferente. Decidiu ela que ficar assistindo à tevê por horas ininterruptas, em casa, não faz de ninguém um ser sagaz; Entupir-se de alimentos, assim, sem sentir fome, não acrescenta à alma, acrescenta ao corpo e, garante ela, seu corpo não deseja este acréscimo; Esconder-se sob a saia de sua mãe, de sua tia, de seu chefe, de seu alguém, não lhe tapará por completo diante da parte ex adversa: você está por demais grandinho, não cabe mais sob barra de saia alguma, portanto, mostre a cara, vá pra rua, mexa-se, por dentro e por fora. E foi o que ela fez.
Mostrar a cara para os mil compromissos, demandas e desafios que nossa vida nos impõe é se dar o direito de viver. Mesmo. Não viver e meio. É viver mesmo. Com todas as implicações que a atitude de VIVER (assim, com letra maiúscula), acarreta em nossos corações e mentes, como, por exemplo, vencer, saber-se capaz, amadurecer e se [re]conhecer maduro, independente e habilidoso, quase auto-suficiente (o que seria um tremendo perigo).
... naquele momento, Thereza disse ao espelho: "Muito Prazer, you, beautiful girl".
por Juliana Jacyntho, em 6/20/2005 10:57:09 PM
Tudo bem, eu vou bem, tudo bom
Desistir de um projeto, seja ele qual for, sempre é doloroso. O tempo e energia gastos no processo de amadurecimento da idéia de desistir aflige, causa aperto no peito, ansiedade e dúvida. E se eu estiver desistindo daquilo que eu nasci para fazer? E se eu estiver desistindo da pessoa que pode ser a minha cara metade? E se eu estiver desistindo de um sonho acalentado por anos e anos, que exigiu investimento físico, emocional e financeiro enquanto pontuou os meus dias? Como é que faço para desistir de algo assim tão importante que chegou a, um dia, ser a tônica dos meus dias? Assim: porque passou a te fazer infeliz, você pega e larga de mão. Abandona. Deixa dormir. Parte para outra etapa. Muito consciente. Muito de caso pensado. E se conforta quando constata que aquilo que você deixou para trás, seja um trabalho, um projeto, um namorado, podia até significar uma razão de viver lá no início da fita, mas hoje não significa mais. Para uns, você desistiu, deu pra trás, não segurou a pressão. Para outros, você fez uma opção de vida: enxergam que você, de fato, ao ter desistido, estava se permitindo viver outras experiências, estava abrindo outras portas, estava optando por ser feliz, por fazer o que gosta, por estar com quem preza.
Quem desiste, muito comumente, é tachado de covarde. Não teve colhões para segurar a onda, pensa quem assiste àquele que desiste. Desistir tem conotação negativa. Optar não. Optar sugere liberdade de escolha, determinação, discernimento. Sugere que, antes de optar, a gente pensou muito e pesou prós e contras, estudou a estratégia, partiu pra outra com segurança. Quem desiste, muito comumente, se ressente, se explica, se justifica: Ai, larguei sim o curso, mas estou super realizada no trabalho voluntário. Quem desiste tenta dar explicações de seus rumos ainda que o seu interlocutor deles não pergunte. Veste a carapuça. Quer passar a ficha corrida de seus dias. E, de repente, o coitado que entoou um singelo tudo bem? é soterrado com um bombardeio de informações, sem saber que o seu cumprimento sutil fez inflar no outro aquela necessidade de se explicar. Que bobeira.
Geralmente quem pergunta como vai? o faz por educação ou mero protocolo, quer não saber se você encontrou um emprego maravilhoso depois daquela sua mal-sucedida tentativa de cursar teatro. Talvez ele nem saiba que tenha sido mal-sucedida. Mas você se atropela na necessidade de auto-afirmação e entrega suas conclusões sobre seus passos. A ânsia pelas explicações está dentro de quem se explica. Que bobeira.
Que o ser humano é bobo a gente sabe. É bobo quando ri de uma piada tosca, quando ri do outro que passa e escorrega, quando assiste a programas pastelão na tevê e se escangalha de rir. Temos sim vocação pra bobeira. Mas temos que admitir que uma das nossas maiores tolices é ficar se explicando o tempo inteiro, ainda que não instados a fazê-lo. Remédio bom pra isso talvez seja olhar para trás e tentar enxergar onde nasceu tanta necessidade de verbalizar tantos porquês. Tentar compreender a real motivação dos nossos atos e aceitá-los, na paz. Talvez assim aprenderemos a optar mais e a desistir menos.
por Juliana Jacyntho, em 6/15/2005 08:17:11 PM
Portal RV
Ricardo Veríssimo mantém este site, abrindo oportunidade para divulgação de novos escritores. Também estou lá. Visitem!!!
por Juliana Jacyntho, em 6/14/2005 11:27:21 PM
Homenagem aos amigos
Milton que me desculpe... Nem do lado esquerdo, nem do lado direito. Amigo não é coisa nem é pra se guardar. Amigo é pessoa querida demais, livre, para voltar pra gente sempre que da gente precisa ou quando dele precisamos.
por Juliana Jacyntho, em 6/10/2005 04:47:46 PM
Palpites infelizes
Sabe a tia chata que Deus fez brotar no seio da família de cada vivente? Aquela mesma que aparecia sem avisar, se prostrava no sofá para um café que se estendia até o jantar (quando não ficava para dormir porque estava tarde), apertava o seu queixinho e alisava a sua cabeça com força, dizendo para sua mãe: como tá bonita a Carolina, né, Cleide? Nem parece aquela menina magrela que eu vi crescer! Pois é, sua tia chata diz que viu você crescer, mas parece que não viu não. Se tivesse visto, saberia que você já é uma mulher independente, sábia, madura, e que não suporta apertões ridículos no queixo ou tabefes no cabelo disfarçados de carinho. Assim como não suporta seus palpites impertinentes e peçonhentos. Antes fosse só a tia...
Há momentos na vida em que parece que constatamos que o mundo é povoado por tias chatas. Não é de hoje que monitorar a vida alheia é o esporte predileto de nove em cada dez pessoas. Pra quê gastar energia ligando a tevê para assistir à novela, se temos uma novela da vida real na casa do vizinho, não é mesmo? Fica-se, portanto, com a novela do vizinho, que proprociona diversão enquanto se assiste ao seu desenrolar e muita interatividade como bônus: o chamado palpite. Foi-se o tempo que o cargo de palpiteiro-mor pertencia apenas àquela tia chata que a gente via sazonalmente. Hoje, ao lado da tia, temos o porteiro, o colega de trabalho, o frentista, a faxineira, uma prima de sexto grau, a torcida do Flamengo e até mesmo o presidente da República, que anda sugerindo ao brasileiro que levante o traseiro para sabe-se Deus lá o quê. Todo mundo quer dar sua opinião, todos muito cheios de razão. Pára tudo.
Opinião boa é aquela dada quando pedida. Palpite bom é aquele ofertado quando solicitado. Dedo metido no bolo dos outros é muito bem-vindo: mas quando os outros te prometem uma fatia antes. Aonde foi que deixamos o bom senso? Em que momento da vida foi que esquecemos a lição de que "se não nos diz respeito, é melhor não se meter"? Sinceramente? Não sei. O palpite parece ter sido institucionalizado, virou mania nacional, esporte nº 1 dos desocupados de plantão: é a mega-sena dos relacionamentos, a Loto das bancarrotas, a raspadinha das esterilidades, a falta de respeito generalizada.
A vizinha fez trinta e cinco anos ontem e ainda não se casou? Ih, coitada, tá encalhada... dizem até que é 'entendida'. O pai do coleguinha do seu filho veio buscar o garoto com um fusca na porta da escola? Nossa, que vexame, era um empresário tão poderoso e já está à beira da falência! Sobrinha casada há mais de cinco anos que ainda não engravidou? É, que absurdo! Já falei com ela que, com essa demora, vão pensar que ela e o marido não podem ter filhos! Se nos preocupássemos mais com nossas próprias mazelas e deixássemos o outro viver as suas em silêncio, a vida seria mais bela. Viver seria mais fácil. Falta de respeito generalizada, palpites levianos infelizes que se proliferam. Nos anos 30, Noel Rosa já havia previsto esta indelicadeza, o que faz dele um visionário, o que faz de nós reféns desse caminho sem charme, sem educação e, pelo visto, sem volta.
por Juliana Jacyntho, em 6/3/2005 08:12:53 PM
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