Vida impossível
Numa cidade em que nem o morto é poupado, é muito capricho de quem está vivinho da Silva querer circular sem medo. Violência urbana. Caos. E nós que ao caos assistimos, bestializados, ainda nos damos ao luxo de pensar que quando a tal da missão terrena acabar, a gente descansará em paz... nem assim. Não consigo deglutir a história, veiculada hoje nos jornais, da defunta que estava sendo velada num Cemitério na periferia do Rio de Janeiro e foi atingida por um disparo de arma de fogo de origem desconhecida, vulgo "bala perdida". A pobre foi enterrada com um projétil aninhado em sua bacia.
Muitos arriscaram opinar que "ainda bem" que foi com alguém que já estava morto. Ora, ora. Se é para a "bala perdida" se encontrar, que seja em carne, igualmente, perdida. Diante do inusitado ocorrido, esta avaliação esdrúxula até que faz sentido. Antes um já morto que um ainda vivo. Isso é mórbido. Isso é cruel. Isso é cínico. Cinismo que ronda o dia-a-dia não só do carioca, como também do brasileiro. Cinismo este que nos permite fazer piada de uma desgraça que denota a mais total e irrestrita falta de respeito com quem, acima de tudo, até ontem, tinha uma vida, um número de telefone, um RG, um CPF, pai, mãe, filhos, talvez. Igualzinho a gente. Eu sei, chega a soar irônico exigir respeito por quem dessa já se foi se nem quem aqui ainda rala goza deste privilégio: respeito. Onde fomos parar...
Das aulas de direito criminal na faculdade, lembro-me bem que o exemplo clássico e predileto de todos os mestres para ensinar-nos o conceito de "crime impossível" era justamente aquele em que João avistava Maria, deitada no chão, e nela atirava, para matar. No entanto, Maria já havia morrido, muito antes, de ataque do coração. João, assim, não poderia ser punido pelo homicídio, já que morta Maria já estava antes mesmo dele assim a desejar.
Hoje, os fatos noticiados no jornal levam minha memória de volta às lições acadêmicas. Eis que me deparo com a materialização daquele exemplo pueril dado na sala de aula há anos atrás. Acontece que, nas historinhas que meu professor contava, João era um só. Na vida real, são Joões demais a tirar a vida de tantas Marias, sejam estas vivas, sejam estas mortas, como, aliás, já é Inês. Estar morto ou estar vivo, isso não mais importa, assim como as cabeças pedidas mediante recompensa nos velhos filmes de bangue-bangue... Mas peraí: velho? Filme? O bangue-bangue é aqui e agora. Abaixe-se quem puder.
por Juliana Jacyntho, em 7/27/2005 11:35:05 AM
micro-economia do amor
Assim como todo produto escasso no mercado, o amor custa caro. Não é fácil de achar nas prateleiras, como um vidro de maionese. Por óbvio. Amor de verdade a gente não encontra em prateleiras, embora muitos insistam nesta busca inútil. Amor a gente encontra em vitrine chique, bem arrumada, em cima de um pedestal dourado, cercado de luxo, glamour, todo pomposo. É como se fosse um vestido de gala, um terno bem cortado, daqueles que caem tão bem no seu corpo que te fazem se pensar capaz de conquistar o mundo. Faz a gente erguer o nariz e empinar o peito. Foi talhado para você, por isso o caimento perfeito. Assim faz o amor com a gente também. Faz tão bem. Por isso custa caro. E não poderia ser diferente. Tudo de qualidade custa caro. O amor exige pagamento à altura da satisfação que proporciona. Ele te leva às nuvens mas, em contraprestação, ele exige tratamento vip. Mas há que atentar: o custo do amor não é monetário. O amor gosta de receber seu salário em sutilezas, tato fino, gestos generosos, carinho, atenção, exclusividade. O amor é haute-couture, não é retalho de banca. É mesa bem posta, não "lavagem". Leva o lanche para o jardim e arma um piquenique para quebrar o tédio que assombra a sala de jantar. Porque o amor é criativo, como uma criança de seis anos. Mas exigente como uma mulher de trinta e cinco. O amor não combina com motéis baratos. Isso pode ser fantasia, não amor. Se é para ser custo zero, o amor permite, mas que seja com estilo: à beira da praia sob a lua cheia, porque o amor aprecia romantismo. Tal como aprecia espontaneidade: não é entusiasta de flores de plástico e outras belezas sem vida. Ele é aventureiro e antenado: precisa ser regado com bons papos, idéias transcendentais, papos reconhecidamente sexo dos anjos, que levam à risadaria. Além disso, o amor é fiel ao seu dono, tal como dizem ser os cães. Não o abandona nos momentos de tristeza, está sempre dando suporte ao sorriso corriqueiro, não falta no oferecimento do ombro, nem desaparece nos momentos que lhe desagradam: ajuda a enxugar as lágrimas que não forem de emoção; fica quietinho e espera a raiva passar; escuta uma palavra enviesada e não devolve. Afinal, ele sabe que, depois da tempestade, vem a bonança. O amor é esperto. E, sim, custa caro. Mas, confessemos: investimento melhor não há.
por Juliana Jacyntho, em 7/16/2005 02:12:57 PM
Recital desafinado
Errar é humano. Mas humano que se preze corre do ato. Quer não errar. Ao contrário: se esforça pelo certo, pelo belo, pelo correto. Mas nem sempre dá pé. E vem o erro. Pode ter sido por uma pequena falta de atenção, por um excesso de confiança numa informação truncada, falhas na comunicação, ou alguma outra atolação qualquer. Erro. ERRO. Erro aparece grande diante da gente. Faz a gente se sentir pequeno e incapaz, mesmo os mais bobos deles. Errar é humano. Ao humano, o que lhe pertence, assim como fizeram com César. Toma, humano, vai que o erro teu! E quem disse que queremos lidar com a constatação de que não demos o nosso melhor? Queremos não.
O maior incômodo causado pelos nossos erros não são os ditos cujos propriamente ditos, mas os sinais que eles trazem. Incomoda receber a mensagem de que relaxamos em algum minutinho, propiciando o escorregão. Estes sinais é que nos tiram do sério, não o erro, pura conseqüência, mas a falta de atenção, o nervosismo, o medo, o despreparo, a confiança exacerbada no próprio taco, a sensação de 'já ganhou', a pressa, e várias outras causas de tantos erros bobos - e outros nem tanto - que andamos cometendo pelas calçadas afora...
Dureza é reivindicar a paternidade da imunda. É chamar pra si a responsabilidade da merda feita e se pôr a assimilar os porquês da coisa toda ter desandado, apenas e simplesmente porque você não mandou bem. Muito chato. Categoria: desagradável. Tarefa desagradável dos dias que passam é assistir de pés atados e mente incrédula o seu próprio errar. E nada fazer (afinal, no momento da sujeira você não estava enxergando suas mãos também enlamaçadas). Ainda. Porque depois do momento entorpecente, você acorda e percebe: é, escorreguei. É, poderia ter dado um pouco mais de mim. É, me deixei levar. É. É não, foi. Já foi, esqueça.
E quem disse que é fácil esquecer uma mancada? Vitória a gente canta, canta, até ficar rouco. Mancada a gente engole, tenta aprender com o seu lado bom (ou, pelo menos, assim aconselha Pollyana), se ao menos lado bom tiver a maldita. Nos prometemos perspicácia, atenção, inteligência e competência 24 horas ao dia, disponíveis para quaisquer tarefas futuras. Respiramos fundo, nos desculpamos conosco e com eventuais 'vítimas' de nossos furos e nos pomos a desejar uma próxima oportunidade de subir ao palco, ser alvo de novas luzes e, desta nova vez, entoar a melodia sem desafinar. Laiá, Laiá. Ou "Até a próxima gralhada"! Sim, porque humano não é tenor nos 365 dias do ano. Disso conformemo-nos, nós, detentores deste atributo - humano. Falível.
por Juliana Jacyntho, em 7/11/2005 08:57:39 PM
Epidemia moderna
Chuva que cai lá fora e molha o chão da varanda. Temperatura que desce graus e nos faz vestir umas camadas a mais de roupa. Já veio tarde o friozinho. Era esperado. A demora desencadeou teorias da conspiração climática que apontavam o tsunami como vilão: o maremoto gigante virou o mundo de ponta à cabeça, até modificou o mapa mundi, ora, ora. Mas não. Tem um tal de aquecimento global derretendo calotas polares, que anda bagunçando nosso clima. Dizem que tem a ver com a destruição da camada de ozônio, aquela mesma que nos avisaram que vinha sendo destruída por aerosóis, há coisa de uns quinze anos atrás. E quem apertou o botão do frasco aerosol por todo este tempo? O Homem. Entre outros botões. Apertou botões detonadores da própria vida, da vida de muitos que deram o azar de estar ao seu lado, dentro de um ônibus, dentro do vagão do metrô, passando por uma lanchonete. Que terror. 11/9. Londres hoje. A chuva e o frio que demoraram a dar as caras...
Vem cá, meu bem, que é bom viver. O mundo anda tão complicado... E hoje eu quero fazer tudo com você.
O Renato Russo achou o mundo complicado há tempos atrás. E hoje? O mundo é o quê? Complicado é muito pouco. Trata-se, hoje, de um mundo complicadamente individualista, que prega o pega aqui, paga lá e a sequência. Seguimos otimistas implementando nossos projetos pessoais, mas atmbém incrédulos e amedrontados ao testemunhar barbáries protagonizadas por idiotas que se autoproclamam enviados de Alá, ali, alô, quem fala? Tudo em nome de poder político ou da insanidade mental rasgada, travestida de fanatismo religioso.
1334. 1899. Ah, que saudades do tempo em que o terror mundial atendia pelo nome de peste! Foi-se o tempo em que baldes de gente morria de doença, coisa da qual se sabe existir gente combatente e estudiosa a desenvolver antídotos para o mal. O mal do nosso tempo não é o câncer, nem a AIDS, nem o esquecido Ebola, vírus tão anos noventa... O mal do nosso tempo responde pelo nome de Medo, plantado em nosso coração e nosso cérebro por nossos iguais - homens, tão falíveis e vulneráveis como somos nós. Mas se pensam Deus. Imortais. Explodem bombas em território estrangeiro pleno de turistas. Baldes de gente perdidos. Apontam o fuzil na cabeça do rapaz que voltava do trabalho, dentro da lotação, na cidade maravilhosa. Um grão de areia perdido. Não pesam consequências, já que não têm nada a perder. Do mal do nosso tempo não conhecemos antídoto mas... E se pudéssemos mostrar a estes bravos idiotas a riqueza de um momento da vida em paz e conseguíssemos fazê-los enxergar que, sim, é bom viver, quem sabe eles tomariam gosto pela coisa e acabariam, de vez, com esta palhaçada?
por Juliana Jacyntho, em 7/7/2005 09:05:18 PM
Quereres
Já li em algum lugar e não me lembro onde que planejar é muito bom, às vezes muito mais prazeroso que a realização em si. Vamos combinar que planejar é maravilhoso. Pedalar a bicicleta hipotética do que pode ser, do que pode vir, do que pode existir, do que podemos ter é realmente um exercício mental que não só aguça a criatividade de que todos somos dotados, como também nos faz querer e pedir um pouco mais (um muito, quem sabe) da vida. E isto não é feio. É lindo. E saudável. Para quem planejou, planejou e planejou e conseguiu: parabéns. Aproveite. Para quem planejou e, ao implementar o que tanto desejava, sentiu um vazio esquisito por ter chegado "lá", pense de novo: lá é um lugar que não existe, continue planejando mais. E lembre-se de agradecer às forças ocultas e outras nem tão ocultas (explícitas mesmo!) que viabilizaram a realização dos seus desejos mais íntimos. E deseje mais. Deseje alguém, uma viagem, saúde, caminhar num jardim com borboletas, beira de praia com seu amor, beira de praia com seus amigos. Integridade sempre. [Reconhecimento.com.Emprego.br]. Money, money, money. Money! Caipirinha e risadaria. Saúde. Outra viagem. Um apê. Um filho. Dois, talvez. Ser imortal. Não pirar. Tudo. Nada. O barato de desejar e planejar é manter-se vivo. Realizar é conseqüência. Constatar que realizou é satisfação. E estímulo para querer mais.
por Juliana Jacyntho, em 7/2/2005 05:58:11 PM
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