The grass is green, ma non troppo.
A grama do vizinho não é mais verde que a nossa. Nossa vista que anda cansada demais para contemplar o que existe ao redor. Nada que uma passada d'olhos no mundo de lá do alto do Atlântico não restabeleça: o amor à pátria, à casa, à cama própria, ao café forte com um dedinho de leite e um mamão papaya inteirinho só para nossa desgustação; ao bom e velho português brasiliano. À camaradagem de nossa gente.
Nada como uma gorda e bela chance de olhar bem de pertinho o tal primeiro mundo. Pisamos na grama verde. Encantamento. Um, dois, três, quatro dias. Glitter total. No quinto, já sentimos falta de uma lusofonia de leve. Uma novelinha, um telejornal com um bem empostado boa noite. Vontade que passa ao assistir notícias locais sobre furacões intermináveis com nome de mulher. Katrina, Ophelia, Rita. Mulheres más. Encantamento que se dissipa e penso: minha grama pode até ser meio queimada mas tem não dessas coisas... a grama do vizinho rico, de fato, não é tão verde assim. Mas é difícil acreditar: flanamos por ruas douradas, misturando-nos a madames pompudas com seus imponentes carros com chauffers. Gucci, Pucci, Tutti! LV, Prada, Chanel, monogramas, monogramas.
No quarto do hotel, o trio de mulheres más continua sob os holofotes da mídia. Me convenço de que meu país é abençoado, por mais piegas que esta constatação possa soar. E sinto vontade de voltar pra casa, o que eles chamam, exageradamente, de homesickness. Não, não chega a ser "doença de casa". Doença é estar em casa com a cara amarrada vinte e quatro horas por dia sem ter a capacidade de apreciar os momentos, as pessoas e os objetos que permeiam a nossa volta. O nome dessa doença é insatisfação. Crônica. O nome dessa doença é complexo mal resolvido de inferioridade: achar-se pior, por ser brasileiro; desacreditar que moramos num país de grande potencial. Acreditem: nem só de mensalões, mensalinhos, renúncias e cassações é feito este país. Que o diga a empatia causada em cada estrangeiro que me perguntava from where I was. B R A Z I L. Palavrinha mágica que faz as pessoas sorrirem.
Viajar proporciona um acúmulo de informações, imagens, percepções e aprendizado que ninguém rouba da gente. Voltar pra casa satisfeito e com saudades do que se tem, do que se faz, do que se é, não é outra coisa senão a mais pura tradução física da palavra Felicidade. Bom estar em casa, com os pés na minha grama, seja ela verde, seja ela queimada. Afinal, a do vizinho também tem dias de exposição excessiva ao sol. Nem melhor, nem pior, mas do vizinho: com suas peculiaridades que encantam e diferenças culturais e climáticas que espantam. E nos fazem querer correr de volta para os braços do Corcovado. Cá estou eu, meu Brasil, brasileiro.
por Juliana Jacyntho, em 9/21/2005 08:17:33 PM
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