arquivos
links
fotos

online

Busque um texto no Balanço por assunto:

Pesquisa personalizada



O filme dos filhos


Filhos dão trabalho, gastam nosso dinheiro, mandam a paciência para o espaço. Filhos exigem sem dó nem piedade, cobram atenção, colo, carinho e o que mais lhes der na telha, sem remorso ou medo de estarem sendo duros. Filhos pegam nossas roupas, nossos sapatos, nosso batom. Tomam conta da casa, da vitrola, se apossam do controle remoto e do computador. Dividem suas experiências, escondem as reprováveis, ora contam conosco, ora se trancam no quarto. Filhos fazem a nossa infância passar na nossa frente como um filme. E a adolescência também, e os erros e acertos da maturidade. E nos lembramos de momentos bons já esquecidos. E nos lembramos de momentos ruins que fizemos tanto esforço para esquecer no passar dos anos. E nos esforçamos para que os filhos não sofram o que sofremos, se sofremos. Mal sabemos nós que eles serão donos do próprio sofrimento eles mesmos. Se pensar muito nos percalços trazidos pela chegada de um bebê, ninguém procria. Contudo a coisa é boa, faz bem, funciona, basta olhar em volta: o mundo tá cheio deles, bebês, futuros eu e você.

Filho vem ao mundo para nos mostrar como éramos bobinhos no primeiro ano de vida. Como nos contentávamos com pouco aos dois. Como a praia era enorme debaixo de pés tão pequenos, como apenas areia e água viravam distração e como tudo isso era divertido. E que isso ainda é divertido hoje, na perspectiva infantil. Ver um filho aproveitar a inocência de sua infância nos permite ser inocente de novo, nos permite deitar no chão, rolar de rir e ser feliz de forma simples, sem rebuscagens exigidas pela vida adulta. Criança grita, esperneia, faz birra. Isso não combina com silêncio, quietude e contemplação. Mas a contemplação é outra: é deixar-se invadir pelo mundo açucarado, alegre e puro de quem ainda, salvo tapas do obstetra no bumbum , não levou porrada na vida. Ter um filho traz pra perto a inocência, a doçura, a bobeira peculiar de quem é feliz. Afasta a ranhetice, o ceticismo, a acidez e a cara emburrada que adulto acaba adquirindo como defesa aos males que a vida o acostumou a enfrentar. Ranhetice, ceticismo e acidez que o seu filho também saberá exatamente como são, daqui a vinte e poucos anos. Estresse que você tentará de todo modo convencê-lo que não vale a pena, veneno que você também experimentou. E ele lhe dirá que precisa ter sua própria experiência, assim como dissemos aos nossos pais, em algum momento de nossas vidas. É provável que lembremos disso e repartamos com o filho esta passagem, junto a uma penca de outros conselhos. Mas antes disso, ele será adolescente, que nem eu fui e você também.

Vai preferir os amigos a você e você terá que se tocar que isto é normal, lembra? Vai fumar escondido pela primeira vez, beijar pela primeira vez, transar pela primeira vez, ter a primeira ressaca de sua vida. Você vai presenciar tudo isso, exatamente como foi há quinze anos atrás, só que o protagonista da história é outro: você está no papel de mãe. Castradora ou consciente, escolha o time e vá! Ele vai fazer amigos, muitos, e também vai se apaixonar louca e perdidamente. Duas, três, quatro vezes no mês ou uma única em toda década. Vai ter decepções, vai votar, vai dirigir, vai entrar na faculdade. Na primeira e na segunda. Na terceira, quem sabe, ele descobrirá a sua verdadeira vocação. E você estará lá, assistindo à novela com sabor de remake, sabendo, entretanto, que se trata da vida do seu filho, seu maior tesouro, não da sua - o que é uma dádiva, já que tem gente que não sabe diferenciar alho de bugalho, realização própria e realização filial e, assim, acaba colocando em risco a linda e promissora história de autoridade aliada à amizade, que se anunciou quando o filho nasceu.

Ser pai, mãe e, ao mesmo tempo, amigo, deve ser o maior presente que a vida nos dá, maior mesmo até que a própria vinda do filho ao mundo. Porque, sim, não basta parir, tem que participar, tem que contribuir com a sua própria experiência e, então, se entregar ao deleite de ver os olhinhos dele brilhando diante de suas explanações. Troca querida: palavras por admiração. Você vai transmitir valores, dar opiniões, escutar as dele com respeito. Orientá-lo e aceitar suas escolhas. Porque ter filho não combina com realização de sonhos extemporâneos frustrados na vida do pobre, até porque ele terá os sonhos dele; mas sim estar estrategicamente posicionado ao alcance de sua mão, ou do fio do telefone, para ofertar-lhe palavras de conhecimento e consolo, diante de situações que ele teme e você, presume-se, já terá enfrentado. Ter filho é troca de carinho, de zelo e, acima de tudo, de amor, já que dizem que amor que este maior não há. De fato, concordo de novo: ter filho deve dar um trabalho danado, deve mesmo gastar nossas economias e a paciência deve ir ao espaço em frações de segundos. Mesmo assim, acho que ainda não inventaram outra forma de imortalizar tudo de prazeroso, precioso e bom que todos nós vivemos, em todas as épocas da vida. Ainda não inventaram outro mecanismo de renovação de sentimentos caros, gostosas sensações, verdades consolidadas (e que, com o filho, poderão ser revistas). É melhor que foto, que VHS, que DVD: infância, adolescência, maturidade - é a vida, passando na nossa frente como se filme fosse, só que ao vivo e a cores, de novo e ao mesmo tempo, agora. Não dizem que recordar é viver? Vai ver que por tudo isso é que tem tanto bebezinho por aí.
por Juliana Jacyntho, em 11/28/2005 05:19:07 PM



Redemption


Rotina é coisa para ser saboreada, sem amargor no canto da boca. Me viro e me mexo e me pego pensando na sensação arrasadora que experimentei nos últimos dias: a de fazer parte, num pequeníssimo espaço de tempo, de um grupo de trabalho desestimulado, mal remunerado, desmotivado e todos os 'des' que vocês se lembrarem, de lá do Aurélio. Sim, desesperado também se aplica. E foi em nome do desespero de ter o controle da minha rotina de volta que eu não consegui fechar um mês naquela formação. E me pergunto: como um mês apenas pôde ser tão intenso? Como pôde uma experiência tão curta ser tão dolorosa, tão maçante, tão marcante, tão 'dá licença que a vida está me chamando de volta'?

Há pessoas e situações que, embora permaneçam muito pouco tempo em nossa vida, parece que passaram anos fazendo parte da nossa história, uma eternidade. E marcam. Quando este enredo dá em coisa boa, surgem grandes amizades: é aquele cara que pouco vemos mas que guarda tanta afinidade de idéias e pensamentos e sentimentos que parece que é da família, que já é de casa. Quando este enredo dá para degringolar pro mal, sai de baixo. Pode ter durado uma hora, um dia, um mês. O desgaste é tão grande, o papo é tão cansativo, a uruca é tão forte que a gente se sente desmanchando, tal como bolo que desanda. E o desconforto é tamanho que parece que nos ronda há séculos. Parece que o cara fez um gato na nossa energia vital.

Ninguém vacinado, maior de idade e pagador - ou não - de suas contas gosta de ser tratado como se fosse um sacolé de quinta categoria: sugado, chupado, até o bicho perder a cor e virar gelo puro. Até o gelo se esvair em água, que escorre pela garganta, enquanto o saquinho que o envolve é amassado e jogado num lixo qualquer... A sensação de ter o seu conteúdo desperdiçado não é das mais caras. Mas tem gente que é assim: nos suga, até a proteína do último fio de cabelo. Não raro, nestas horas, o único comando que nosso cérebro emana é: quero sair correndo. E às vezes o comando vira ação, direito que nos assiste. Sair correndo do namoro. Sair correndo do casamento. Sair correndo do mestrado. Sair correndo do trabalho. Sair correndo de si mesmo.

Que atire a primeira pedra aquele que nunca optou por deixar de bancar o sacolé. Seja porque arrumou alguém com mais amor pra dar. Seja porque arrumou outro emprego, o qual paga bem e exige na medida do aceitável. Seja porque resolveu ser fiscal da natureza e fazer absolutamente nada. Seja porque resolveu se conhecer e se enfrentar, tirar férias de suas próprias verdades. Seja porque resolveu voltar à vida: porque nossos dias nos são mui caros para serem desperdiçados com gritos de insatisfação, bocejos de tédio, olhares invejosos de rabo de olho, papos chatos intermináveis e servicinhos notadamente de corno. Que atire a primeira pedra aquele que nunca optou por priorizar a alegria em seus dias. Aqueles que podem optar, que o façam. Afinal, rotina é coisa para ser saboreada, sem amargor no canto da boca.
por Juliana Jacyntho, em 11/24/2005 12:05:48 AM



Tudo Azul


A fronteira entre ser exigente e ser ridículo é tênue. Exigir bons resultados de sua equipe faz de você um chefe motivador. Cobrar a execução de minúcias inúteis, apenas perceptíveis aos seus olhos egoístas, faz de você uma mocréia ou um paspalho (nossa, usei essa palavra!), desprezível pelo grupo. No trabalho, no amor, entre amigos, na vida: motivação é a palavra de ordem para quem não tolera que o tédio entre em sua vida metendo o pé na porta.

Desmotivada, muita gente boa tende a fechar a cara, resmungar, maldizer a rotina, envergar olheiras indesejáveis. Tende a não querer acordar. E como é triste não querer acordar... Porque acordar e tomar café preto com mamão é bom. Escutar ou ler as notícias do dia é bom. Pegar seu carro, seu ônibus, seu vagão de metrô e se dirigir ao seu trabalho, à sua academia, à sua qualquer coisa, com o espírito exultante de alegria e entusiasmo, empolgado pelo encontro com colegas queridos e bate-papos que o fazem gargalhar é melhor ainda. Já seria muito bom mesmo se o encontro fosse apenas com colegas nem tão queridos assim e uma pilha de pendências que você, ao primeiro bater de olhos, desejasse trucidar com a sua melhor técnica, para, ao final, saborear o som de um parabéns bem empostado por alguém que você admira.

As ocupações diárias devem ser assim: devem ter qualquer coisa que brilhe, que enrubesça a face, que cause turbulências na boca do estômago, qualquer coisa que te faça enxergar borboletas voando. Porque só quem enxerga nuvens de borboletas coloridas consegue se lembrar do valor caro dessa sensação e, assim, faz-se forte e capaz de respirar ar de coragem para enfrentar o vôo indesejado de maribondos. Porque marimbondos às vezes aparecem na nossa rotina. E deles precisamos desviar, ou com eles lutar.

Marimbondos e outros insetos persona non grata tendem a sobrevoar nossa rotina: mas é para ser só às vezes. Se você perceber que eles estão aparecendo mais do que o normal no correr dos seus dias, e por normal entenda-se "mais do que você permite que eles apareçam", não corra: enfrente. Vale inseticida, chinelo, mangueirada. Vale bater a porta, berrar, se libertar.

Podemos até não ser felizes todos os dias, decerto não somos, ninguém é. Mas podemos - e devemos - fazer valer o direito de querer acordar, todos os dias, com o objetivo de. Para. Para querer ser feliz demais. Acordar motivados: este direito ninguém tira da gente. Ou até tira, mas não por muito tempo: não depois de notarmos que servir de alimento para sanguessugas, de fato, não é nem nunca foi nossa vocação.
por Juliana Jacyntho, em 11/5/2005 03:12:53 PM



Page copy protected against web site content infringement by Copyscape


Copyright © 2008 Balanço de Dez em Dez - desde 05'2004. Todos os direitos reservados. Lei Federal 9.610/98 - Lei de Direitos Autorais