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Intensidade cansativa, fator-surpresa ou tédio?


Cidades seduzem tal como pessoas. Umas são locomotivas, não passam pela gente sem chamar a atenção. Belas, bem-articuladas, cheias de energia. Outras, simplesmente passam despercebidas: se cidade, a gente nem atenta para a placa de entrada na beira da estrada; se pessoa, passamos anos sem saber o nome da figura, tamanho o desinteresse. Algumas passam invisíveis até a descoberta. Outras, poderiam permanecer invisíveis por toda a eternidade.

Nas cidades-locomotiva, a gente logo chega e se deslumbra com sua beleza, seja natural ou artificial. Mas não é só. Há algo no ar, uma química diferente, um brilho, uma empatia qualquer causada por sua atmosfera na cabeça da gente, que dá uma vontade imensa de não ir embora e lá fincar o pau da barraca. Dá vontade de morar. Pessoas-locomotiva também têm este magnetismo, este poder de aglomeração de outros seres à sua volta. É aquela amiga recente que você acabou de conhecer num bate papo de barzinho e te encantou, cheia de assunto, passado com tamanha eloqüência. É do tipo que nos faz querer "marcar" alguma coisa pro final de semana seguinte, gente bacana.

Pessoas e cidades que surpreeendem são as mais divertidas. São verdadeiros presentes. Quando você menos espera agrado, lá estão elas a te fazer sorrir. É como aquele lugarejo simples e pobre no meio da estrada, em que você resolveu parar na última viagem para almoçar e descobriu uma gente hospitaleira, comida boa, brisa gostosa... e então o lugar ficou lindo, diante da nova perspectiva. É comum termos pessoas em nossa vida que chegam assim: despretensiosas, sem graceira total, a quem não damos crédito nenhum. Quando vemos: tchans - a surpresa! A pessoa tem um papo que prende a atenção, uma gargalhada alegre, um brilho no olhar que nos faz sentir esperança e uma paz inexplicável só de estar ali em sua companhia. Já as pessoas e cidades "locomotivas", aquelas que captam nosso interesse instantaneamente, podem, elas também, ser verdadeiros presentes. Novos e caros amigos. Mas pode ser também que o tiro saia pela culatra... afinal, combinemos: o glitter uma hora se evapora. Os problemas da cidade começam a brotar do chão e ela passa a não ser mais tão linda como era sob o primeiro olhar seduzido, ao passo que aquela pessoa super-legal-e-interessante pode se tornar pra lá de cansativa, acostumada que está aos focos de luz da ribalta. Egocêntrica? Imagina.

No meio dos extremos, temos aquelas cidades e pessoas que não causam frisson algum, nem tampouco antipatia: as pessoas e cidades mais ou menos. Nas cidades mais ou menos, você chega e até admira a paisagem, mas não consegue assimilar a idéia de permanecer ali por mais tempo que o previsto em sua estadia programada. Falta charme, falta acolhimento, tá tudo muito bom, tudo muito bem, mas é chegado o momento de ir embora, e você pensa: ufa, já estava mais do que na hora! Tem muita gente que nos faz sentir assim também. Gente que é "passável". É gentil, muito limpinha, muito bonitinha. Sorri uma hora sim, outra talvez. Sabe até engrenar uma conversa agradável de quando em vez, mas com uma grave característica a advogar em seu desfavor: no sparkles at all. Faíscas só se forem para fazer o traseiro querer se levantar e dar o fora, quando toda a diplomacia começa a sugerir: tédio.

Pessoas e cidades medianas assim nos servem de termômetro. Cidades e pessoas mais ou menos divertidas, mais ou menos belas, mais ou menos quentes, mais ou menos frias, mais ou menos com história pra contar servem para que a gente conheça o meio-termo. E, principalmente: nos fazem refletir sobre o grau de satisfação que o mais ou menos causa na vida da gente. É como café: se é para vir quente, que venha fervendo. A gente que decide se deve ou não colocar um dedinho de leite frio para tomar um gole.
por Juliana Jacyntho, em 12/14/2005 12:28:14 PM



Sozinho juntos


Términos são como bombas atômicas jogadas lá de cima mirando nenhum outro alvo que não a tranquilidade dos dias que pontuam a vida da gente. De uma hora pra outra, temos que reaprender a ser só. Andar sozinho na rua parece menos confortável do que quando se tinha um braço para se entrelaçar. Sentar para um café e folhear o jornal soa como fuga, não parece tão natural como era ao lado do ex-par. Mal sabemos que sim, podemos continuar a bebericar e ler porque não, de fato ninguém está prestando atenção na gente. O desconforto e a perseguição vêm de dentro. Porque estar ali sozinho sentado, sozinho, assina o atestado de estar ali sozinho. Sozinho. Só, zinho. Pobre zinho. Zinho não se lembra mais como era gostosa a sua própria companhia. Zinho pensa que quem ali passa tem visão raio-x infra-vermelha e consegue enxergar o seu cotovelo doendo, seu coração apertado e o incômodo que a sua única presença na mesa lhe causa. Relaxa, Zinho, você só tem que reaprender a ser só: junto.

Se atentássemos mais para a necessidade e a importância de cultivarmos momentos de solidão e de individualidade; se apreciássemos mais a nossa própria ilustre companhia quando vivemos o amor, não sentiríamos tanta dificuldade de reencontramo-nos quando um relacionamento acaba. O casamento, o namoro, a ficância podem até ruir, mas seus interesses remanescerão intactos: seus hobbies, suas contas, seus compromissos; seu cachorro que precisa fazer xixi de manhã, sua hora no salão para fofocar e se embelezar, sua reunião que lhe renderá lipídios extras no salário mensal, seguida de happy hour divertido com direito a brinde dos amigos, em reconhecimento ao seu sucesso! Seus hábitos diários permaneceriam regados, pronto para serem cultivados; os amigos permaneceriam presentes, não apenas meros nomes listados na poeira do esquecido caderninho de telefone. Você terá saído de uma baque amoroso, mas sua vida estará lá, te esperando cheia de afazeres, agenda lotada, tudo para que você sinta menos dor quanto for possível e recupere-se das feridas deixadas pelo fim daquilo que um dia você acreditava ser para sempre.

Mas não. A maioria quando ama tende a ficar entocada em casa curtindo o seu amor. A maioria quando ama tende a deixar de lado as atividades que costumava desenvolver antes de se apaixonar. A maioria quando ama, esquece-se de agradar a si mesmo, afagar a auto-estima, manter-se interessante e atraente para aquele que, um dia, se apaixonou pelo frescor de suas idéias, pela audácia dos seus atos, pela originalidade de suas palavras. Quando deu por si mesma, a maioria se viu engolida pela despersonalização que o ser casal costuma causar. Perigo que ronda os melhores casais da redondeza. E os piores também. Perigo que ronda. Como para todo perigo existe uma precaução, nunca é demais atentarmos para o fato de que amar a si mesmo e ao outro é possível; cultivar seus interesses e outros em comum é possível; programas separados são saudáveis e, salvo exceções sem-vergonha, nem de longe significam descaso ou egoísmo. Doação de 100% do patrimônio é proibida até pelo Código Civil, então nada de sair doando o conteúdo integral de sua existência a relacionamento algum. Quem sabe disso é feliz. Quem aplica então...

Na vida, quem aprende a aliar o amor próprio ao amor eterno enquanto dure; o chopp amigo ao vinho romântico; a leitura em silêncio ao debate acalorado sobre o programa na tevê que viram juntos; os momentos de ser só aos momentos de ser junto, respeitando os momentos de ser só, seus e do outro, tem grandes chances de viver mais uma longeva história de amor como as das telas de ficção. Linda, louca e apaixonante, só que melhor: em Hollywood, os roteiros açucarados não ensinam a ser só. Na vida de verdade, se você aprendeu a ser só enquanto estava junto, ser sozinho novamente, se a vida impuser, não será tarefa a ser tirada de letra, mas, muito provavelmente, doerá menos.
por Juliana Jacyntho, em 12/6/2005 12:10:13 AM



Muito além do filtro solar...


Tudo bem que já é antigo, for the class of ' 99.
Tudo bem que é veiculado na rede por demais.
Mas vamos combinar que este clipe diz tudo que precisamos saber hoje, 2005. Sempre.
Porque amanhã completo vinte e oito anos (sim, 1977!), dou-me um presente: pensar na vida*, com direito a trilha sonora linda.
Para vocês, reflexões que dizem muito mais que apenas "lambuzemo-nos com uma fina camada de filtro solar..."
E a música... Ah, como eu amo essa música! Everybody's free.
Ou se não é, deve lutar para ser.

*(como se não o fizesse todos os dias...rá!)


por Juliana Jacyntho, em 12/1/2005 03:45:00 PM



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