Posso usar seus ouvidos?
A vida é cheia de aprendizado: toda hora, todo minuto. Todo segundo, mesmo. A gente cresce e passa a ser menos orgulhoso, menos cheio de si, menos umbilical e quer mais é mergulhar no barato da paz interior, do incenso, da cuca fresca. Afinal, são tantos os problemas lá fora... que nos livremos nós dos daqui de dentro. Comigo foi assim. Tive um pai maravilhoso que faleceu aos sessenta e três anos de idade, novo demais eu penso, de enfarte fulminante, há sete anos. Doeu muito, mais com o passar dos dias. Suas lições, seu colo, seu carinho e sua integridade, sempre lá nas lembranças e aqui comigo, tão presentes, me fazem sentir privilegiada. Este pai foi o meu avô. O meu pai biológico, no entanto, nunca pontuou os meus dias. Desde que me entendo por gente, ele nunca esteve presente e, quando estava, me lembro bem: não éramos boas companhias um para o outro. Muito ao contrário. Os agrados eram esparsos demais para conquistar a criança, que se lembra mais do cheiro do cigarro, da bebida e das visitas fora de hora. Também e mais raramente na adolescência. Não tínhamos relacionamento nem de amigos, nem de pai e filha, nem de nada. E para quê cultuar um nada, não é mesmo? Deve ter sido justamente o que ele pensou. E foi o que eu pensei também. E me sentia extremamente confortável com esta decisão. Para ser franca, ela faz parte de mim e do que me acostumei a reconhecer como "história de vida".
Nunca fui dada a hipocrisia, nem falsidades, nem meias verdades. Por conta disso, já quebrei muito a cara; já passei por grossa, mal educada e, porque não dizer, antipática, coisa que, sinceramente, estou muito longe de ser, já que converso até com postes, segundo uma amiga minha. E vamos combinar que uma pessoa que tem capacidade e abstração para travar diálogo com seres inanimados realmente não merece o título de antipática. Mas, enfim, a sinceridade rasgada faz visitas. Não com tanta frequência, hoje. Quando mais jovem não existia filtro sequer entre o cérebro e a língua. De fato, não havia. Hoje, cuido para que meus ânimos não se perturbem e desencadeiem reações extrapoladas que fazem com que eu, cheia de razão, ao final do show passe a não mais tê-la ao meu lado. É a vida, cheia de aprendizado. Toda hora, todo minuto, todo segundo. Nem me atrevo a desperdiçá-lo.
Também nunca fui fácil com perdões. Essa coisa toda de relevar e oferecer a outra face para quem, àquela altura, já havia esbofeteado a primeira que havia sido ofertada, nunca combinou muito comigo, nem com a tal transparência que, conforme disse acima, insiste sempre em habitar os porões, os térreos e também os sótãos da minha consciência. Vim vivendo assim, até aqui. Nada de rancores que formam sulcos no rosto. Nada de mágoas encravadas no coração. Nada disso. Eu apenas tenho uma memória digna de fazer o Sr. Pentium enrubescer a face de tanta vergonha por ser a dele mera fichinha diante da minha. Memória dos desprezos, vacilos, dos foras, das agressões, traições. E, em nome desta memória de elefante, sigo com cautela, pronta para não permitir a volta ao meu convívio de quem, inadvertida ou propositalmente, fora autor ou autora dos desprezos, vacilos, foras, agressões ou traições. Pura tática de jogo. Pura busca de paz. Pura vergonha na cara, enfim.
A primeira vez que senti uma vontade imensa e louca de perdoar foi com este pai, este que contribuiu com seus gametas para minha geração, ao saber que ele estava muito doente. E o fiz. Da maneira mais egoísta e confortável que poderia ser: rezando, quieta, antes de dormir. E o fiz com todas as palavras. Optei por substituir a velada ausência de perdão por clemência absoluta aqui dentro do meu coração, absolvendo o indivíduo para que ele pudesse fazer o que quisesse com esta sentença liberatória. Voar, talvez. Porque é muito mais fácil voar sem o peso denso da consciência carregada de culpas. De minha parte, a ficha ficou limpa. E ele voou. E, ontem, ao saber da notícia, um fiozinho de culpa quis me visitar, e não deixei, pois não há razão para esta visita oportunista. Posso amadurecer, crescer, acender incenso e aprender a perdoar. Rezo muito, por vivos e por mortos, energia positiva que gero e que me conforta. Mas continuo não sendo dada a hipocrisia, nem falsidades, nem meias verdades. Desculpem se reparti verdades inteiras demais nestas linhas. Para mim, foi bom. Obrigada.
por Juliana Jacyntho, em 2/21/2006 07:35:58 PM
O Rio de Janeiro continua lindo. E violento. Mas, acima disso, um charme.
por Juliana Jacyntho, em 2/16/2006 02:42:30 PM
Plágio II - a saga continua versão piorada
Pára tudo, merda à vista! Acabo de encontrar um blog que faz o da tal Graziele, mencionado há três posts atrás, um templo santo.
Trata-se de um blog cuja dona é uma mulher que mora - pasmem - em Macau, na China. O nome do treco é "meu dim sum" - http://meudimsum.blogspot.com/ e tem pra mais de dez textos copiados e/ou alterados lá, nos meses de janeiro e fevereiro deste ano. Ela copia textos do iniciozinho do meu blog e joga lá no dela...
Como vocês podem ver, má-fé, desrespeito e cara de pau são atributos que ultrapassaram as fronteiras, junto à Internet. Esta veio para o bem e para o mal.
E não é só. Tem texto da Patileine lá também, no qual ela discorre sobre "mulheres-porta-copos". Isso é uma vergonha. O mais curioso é que essa chinesa, portuguesa, macauense, enfim, essa blogueira ninja do crime conseguiu copiar o micro-texto que fiz, "Porta na cara", publicado aqui depois que instalei a proteção anti-cópias. Alguém aí tem idéia do que pode ser feito para proteger a minha página???
R: atualizando... 10:47, sexta-feira, 10/02/2006
acabei de receber um e-mail de um amigo expert em PC's que me deu uma notícia desanimadora... estes scripts de proteção anti-cola são violáveis facinho, facinho. Ou seja, o negócio é entubar. E se conformar.
Chega de lamentação, eu mesma não aguento mais este papo de gente usurpadora... isto está parecendo até novela mexicana de quinta categoria.
Pela atenção, mais uma vez, e pela paciência, obrigada. Ah! E falando no que interessa, tem texto novo aí embaixo. E é meu. Meu!
por Juliana Jacyntho, em 2/9/2006 07:24:49 PM
bola de neve, bola de sol
Gula, insatisfação, lipídios extras, baixa auto-estima e acomodação (não necessariamente nesta ordem) são apenas alguns dos fatores que indicam que você está sendo engolido pelo fenômeno bola de neve.
A bola de neve é o acúmulo de coisa ruim: você tem um problema a ser resolvido, se consome de tanta ansiedade e foge do foco; e/ou você está assoberbado de trabalho; e/ou você comeu feito um porco e agora reclama quando enxerga o ponteiro da balança fazendo um looping; e/ou você vem recebendo 487 feedbacks negativos no trabalho embora se esforce para fazer a coisa decolar; e/ou se olha no espelho e conclui que seu melhor jeans não está servindo no seu corpitcho roliço; e/ou acabou de esvaziar uma caixa de especialidades lácteas travestidas de bons bombonzinhos (que propaganda enganosa, não?) para, minutos após, remoer-se de culpa.
Neste "inteirinho", confesse: se você é homem, sua barba está por fazer há, o quê, uns sete dias? Se mulher, bem, apenas responda se está com saudades de sua manicure. Luz no fim do túnel? De fato, há. Não se aflija. De fato, amigo, há fortes indícios de que você esteja enfrentando uma situação típica de acúmulo de uruca, chamada, entre uma roda e outra, de bola de neve. E a boa notícia é: ela passa. Ela passa se você souber quebrar com o quadril para direita (ou para esquerda, vai depender) no momento crucial do atropelamento. Daí ela não passa por cima de você, você é quem desvia dela.
Então voltam as idéias geniais. Com elas, os acertos no escritório: sua chefe te convida para um choppinho happy hour, sinal que a nuvem cinza foi embora, no meio da bola de neve. Voltam a disciplina nos exercícios na academia, a disposição matinal, o sorriso bobo na cara, o sabor inigualável de que você tanto sentia saudades: o da salada de folhas. Folhas verdes, folhas roxas, muitas folhas. Aquele jeans predileto volta a figurar na passarela do seu quarto e entra, enfim, com folga, no seu corpo esbelto e elegante. O ponteiro da balança desce. e desce. e desce, até parar naquela casa que o seu endocrinologista considera o seu peso ideal. Ideal. Você também está cheio de ideais. Um deles é não viver sem saladinhas e agachamento pelo resto dos seus dias. Aliás, e a propósito, você não consegue imaginar como é possível seguir vivendo sem alimentação saudável e sem malhar, pelo menos, umas três vezes por semana (e malhar os outros não entra no cálculo). Fase gostosa, não é mesmo?
É a fase da bola de sol: acúmulo de energias positivérrimas a impulsionar a sua vontade com um só foco: fazer você se sentir bem. Você não quebra o quadril nem para direita, nem para esquerda, afinal, nem você nem ninguém quer se ver livre de tanta disposição e maré de sorte. Mas você também não se esforça para fazer esta massa de ânimo estacionar em seus dias. A bola de sol vem, tá vindo, tá descendo pirambeira abaixo e te atropela. Embevecido com o corpo 'sarado', com as idéias que brotam e com a lindeza da vida, você resolve se dar um desconto: "afinal, que mal há de existir se eu matar a academia por um dia, um diazinho só, considerando que o ano tem outros trezentos e sessenta e quatro? Vou deitar um pouquinho no sofá. Mais, vou pegar uma pacotinho de passatempo recheado, afinal, eu tô podendo, hum, que delícia..."
De fato, deve ter sido mesmo uma delícia, concordo. O problema é que você passou do ponto e ficou deitado no sofá nos outros trezentos e sessenta e quatro dias do ano. Haja pacotinho de passatempo recheado, hein, colega? A bola de sol passou e você não se deu conta, ocupado que estava acariciando o ego de sua vaidade recém-reconquistada. Trabalho perdido. Ansiedade. Tudo de novo. Calça apertada. Auto-recriminação. Insatisfação. Tédio. TV ligada all day long, com snacks ao alcance da mão, e da mão para a boca. Voltam aos seus dias os velhos conhecidos ingredientes da bola de neve. Bola de neve, bola de sol. Elas não avisam quando vêm, elas vêm. E não estão nem aí se chegam sincronizadas com a estação do ano a que pertencem. Lógica antiga demás: mens sana in corpore sano. Como é que pudemos nos esquecer?
por Juliana Jacyntho, em 2/9/2006 11:04:34 AM
Porta na cara
Uma porta se abre enquanto outra se fecha.
E demora a ser reaberta nos meses seguintes.
Porque a vida é assim, cheia de altos e baixos. Pessoais. Profissionais.
Por que a vida é assim?
Porque se fosse tudo muito bom o tempo inteiro, talvez você ficasse entediado. Ou egocêntrico. Ou deslumbrado.
Porque se fosse tudo muito ruim o tempo inteiro, você ficaria entediado, decerto. E infeliz.
A grande maioria recebe das mãos da vida um pacote equilibrado de situações, ora exultantes, ora decepcionantes.
Talvez seja este equilíbrio de momentos e vivências, bons e maus, que faz a gente andar com os pés no chão e não nas nuvens.
Sorrir num dia, mesmo sabendo que pode vir a chorar num outro.
Bem-vindo à vida real.
Mais uma vez.
por Juliana Jacyntho, em 2/3/2006 01:35:53 PM
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