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Tempo: até pouco tempo, o tinha em plenitude e fazia pouco de sua abundância. Agora, mãos atadas diante do relógio espremido pelas cobranças, telefonemas e tarefas que não são vencidas nem com o emprego da melhor disciplina. Mãos atadas, noites mal dormidas, saudades das boas palavras e a pergunta que não cala: como maldizer a rotina esgotante do tempo miúdo se, há semanas atrás, este era o meu pedido principal quando em conferência com a vida? A gente pede, a vida dá. A gente agradece. E se assusta quando constata que brincadeira de adulto é coisa séria e desgastante.
por Juliana Jacyntho, em 6/29/2006 08:22:06 PM



caixa-surpresa


Se a vida tivesse outro nome, provavelmente seria caixinha de surpresas. Surpresa: Estímulos surgem de onde menos esperamos. Surpresa: Aprendizados advindos de uma experiência considerada falida são considerados, hoje, moeda de ouro, e fazem com que a experiência dita falida passe a ser vista como pra lá de válida. Surpresa: Pessoas desprezadas no primeiro aperto de mão viram melhores amigos. Surpresas sérias, drásticas, marcantes, pontuam a vida. E surpresas bobas, leves e simples, também. Que atire a primeira pedra aquele que nunca sentiu o prazer prosaico de descobrir que - eureka! - o restaurante indiano delicioso que você namorava no folhetinho que recebeu na calçada da feira fica a exatamente trinta passos do seu trabalho!

A vida não é monótona. Nunca foi. Nem poderia ser, tamanha a quantidade de cenas cotidianas peculiares que desfilam na frente de nossos olhos, a cada minuto. Monótona poder ser a nossa vista que, às vezes, está cansada e embaçada por demais e tem o foco turvo naquela medida certa e estúpida que impede que enxerguemos que presentes simples e belos estão sendo colocados de bandeja pela vida ali, na nossa frente, prontos para degustação. Mas nem todo mundo enxerga, não da primeira vez.

Surpresa: a vida é uma caixinha de segundas tentativas, de segundas chances, de segundas oportunidades que nos permitem poder enxergar tudo e todos de uma melhor maneira, sob um ângulo mais positivo, sem rebuscagens e rabugices desnecessárias, trazendo para perto o fator surpresa, ingrediente indispensável à existência de algum rebuliço no estômago, algum frio na barriga, algum tom rosado nas faces, que só aparecem quando menos esperamos.

A dinâmica da vida é sábia, muito sábia. No desenrolar dos dias, quem sofre com a poeira nos olhos e a sensação de inércia a descontrolar a paciência, é brindado pelos dias com gotas de chuva bem no meio da íris. E tudo é clareado. O que era insignificante, até então, ganha algum significado. O que era chato, até então, recebe um quê de engraçado. E o que era anônimo na escala de importância da nossa história passa a ser enxergado com mais respeito. Muita gente e muita coisa merece um segundo olhar. E a gente merece se surpreender.
por Juliana Jacyntho, em 6/20/2006 07:54:09 PM



Brasil, sil, sil, sil


É sempre assim: onde há muita expectativa, há também forte probabilidade de grandes decepções. Quanto mais alto o ego sobe, mais dolorida é a queda quando se constata que o "super-homem" é, na verdade, apenas mais um homem. Como nós, feito de carne, osso e falhas. Copa do mundo instrutiva.

por Juliana Jacyntho, em 6/14/2006 09:49:28 AM



Momento Jabá - nº 2 de infinito se Deus quiser, quem sabe?


Amigos leitores do Balanço de Dez em Dez,

É com muita alegria que informo que mais uma crônica minha foi selecionada para publicação em livro. Desta vez, estarei no vol. 3 da coleção "Antologia de Crônicas", uma publicação da CBJE - Câmara Brasileira de Jovens Escritores, como da última vez.

Quem quiser conhecer a CBJE e a variedade de escritores que já publicaram seus trabalhos através desta editora, bem como comprar um livrinho, assim, como quem não quer nada, e ajudar na divulgação do trabalho de todos nós, clica aqui:



E quem quiser ajudar através do veículo boca a boca, ferramenta de divulgação antiga e deveras eficaz - diga-se de passagem - please, feel free, agradecerei muito, muito.

Pela atenção, obrigada!

Abraços,

Juliana
por Juliana Jacyntho, em 6/8/2006 11:26:33 PM



imundice legal


Aos dezessete anos, tive que aprender, nos primórdios da faculdade de Direito, que muitas palavras do meu vocabulário ainda adolescente passariam a receber significado técnico até então desnecessário aos meus dias, então dedicados à praia e à zoação, comuns àquela idade. Legal não mais seria utilizado, apenas, para traduzir, o que era cool, maneiro, divertido, transado, da moda. Legal, um adjetivo recorrente na minha boca e deveras lacônico, concordo, estaria agora, por uma vasta eternidade, intrinsecamente relacionado ao mundo das Leis, que então me eram apresentadas nas cadeiras acadêmicas. Mal sabia eu que estava sendo apresentada também, naquele momento, ao maior antagonismo que presenciaria na vida: o Legal que não é legal.

Dez anos mais tarde. Direto da Alemanha, notícias em massa da copa de futebol nos fazem crer que moramos, neste mês - e apenas neste mês, na filial da disneylândia. Só que na nossa disneylândia tropical também há espaço para o absurdo, para a falta de amor ao próximo, para a cretinice, para a desonestidade, para a impunidade. Estes atributos não combinam com o legal. Muito menos com o Legal. Caso Von Richtofen, músico assassinado no Rio de Janeiro, CPI e mensalão de quem ninguém mais escuta. Ninguém fala ou faz nada, entorpecidos que estamos com a banalização das faces de madeira. Manobras, lobbys, subornos e outras vasilinices passam sorrindo, enquanto a gente fica assim, meio autista, meio surdo, meio mudo, meio sem entender em que momento o mal venceu a batalha e tudo ficou por isso mesmo. Em que momento o mal venceu a batalha e não apareceu nenhum mocinho para salvar a pátria? E não me venha com Ronaldinhos, Robinhos e Cicinhos que não são estes os mocinhos da minha história.

Não é legal, nem Legal, assistir ao juiz de Direito, presidente do Tribunal do Júri designado para sentenciar a conduta de Suzane Von Richtofen e dos Irmãos Cravinhos, autores confessos de um crime brutal, ser desprestigiado pelos advogados dos réus, que abandonaram o julgamento que acontecia, como se o Tribunal fosse uma quitanda e não um poder maior de disciplina de condutas tortas surgidas na sociedade. E ninguém faz nada, ninguém diz nada. A má fé é tão patente; a intenção dos advogados de postergar o julgamento de um réu confesso é tão cristalina e o desejo de que se dane o poder de punição do Estado, de que se dane o Estado, aliás, é tão óbvia... Porque será que não ecoam reações histéricas pelos corredores do Brasil?

A desonestidade acobertada pelas lacunas Legais nem um pouco legais se alastra e faz do Brasil o país da impunidade certa, rasgada, quase institucionalizada. Da cara de pau institucionalizada. Mais institucionalizada que isso só se o Congresso editar a Lei que institui o "Dia comemorativo da cara de pau", para o que falta muito pouco. Vivemos a era do nacionalismo blasée - se for para reclamar, ai, só se for em conversa de bar, acompanhado de um choppinho e um bolinho de bacalhau com azeite, reclamar de política tipo sem compromisso, sem discursos inflamados. Nacionalismo aqui só existe quando é para gritar gol.

Os maus advogados do caso Von Richtofen fizeram o que fizeram porque as Leis nem um pouco legais o permitem. As Leis brasileiras, dizem os entendidos, são de primeiro mundo. Mas o que adianta importar diplomas legais imbuídos de primeiro-mundices se, aqui, no terceiro andar do subsolo, a mundice que reina é a imunda? De perto, nossas Leis Legais não são tão legais assim, pois não funcionam. Nossas Leis são o reflexo dos nossos Legisladores: escorregadias, cheias de lacunas a quem interessar, prontas para serem contornadas com o famoso jeitinho, ou prontas para serem desrespeitadas no carão mesmo: carão, carteirada, sabe com quem está falando, envelope cheio de "cafezinho" jogado na mesa.

É assim que funciona aqui neste mundo. Imbuídos deste clima verde-amarelo de corrupção enraizada que os citados advogados debocharam do Poder Judiciário nesta tarde, em São Paulo. Fiando-se na certeza e eficácia deste deboche que os congressistas participam de mensalão, mensalinho, máfia de ambulância e do que mais vier: somos amigos, amigos do peito, o corporativismo de nossa casa legislativa não nos trairá. E, de fato, não traiu: a maioria dos deputados envolvidos nos recentes escândalos de corrupção na Câmara foi absolvida. E a gente aqui, com cara de otário. No Brasil, os poderes constituídos não têm prestígio perante a sociedade. E a sociedade só é levada em conta nos anos em que seu voto interessa. Não há respeito. Se esta relação fosse um joguinho de batalha naval, estaríamos a escutar: Executivo, água! Judiciário, água! Legislativo, o oceano inteiro! Eles não dão uma dentro. Para utilizar linguajar apropriado à época: eles só dão bola fora, enquanto que, nós, torcida, queremos goleada. Mais um passe errado e bem vindos seremos todos, de volta à barbárie. Isso está muito longe de ser legal. Muito menos Legal. Mas ninguém parece se preocupar com isso, afinal, a copa do mundo é nossa. E o óleo de peroba, também!
por Juliana Jacyntho, em 6/5/2006 04:35:20 PM



pequenas lições de microeconomia


Viver é como guiar um carrinho de supermercado em busca de bens essenciais à sobrevivência humana. Não só de água, coca-cola e bolachas vive o homem. Queremos amor, família, queremos trabalho, reconhecimento, queremos saídas borbulhantes com os amigos, diversão e arte e, às vezes, queremos só silêncio. Tal como as mercadorias dispostas nas prateleiras, tudo isso que queremos tem um preço. Preço baixo, preço alto, um preço a ser pago, e nem sempre em moeda corrente. Às vezes, o desejo pede o preço da despedida. Despedimo-nos de algo que prezamos muito para obter um outro algo, que prezamos mais. Ou de que necessitamos. E vai ser sempre assim.

Há quem tenha largado a rotina estabilizada para viver um grande amor na Turquia. Há quem tenha largado vinte anos de profissão solidificada para priorizar o bem-estar numa viela de beira de praia. Há quem tenha que largar o bebê na creche para comparecer linda, bela e eficiente àquela reunião que marcaram no escritório às oito da manhã.

Quando a dor de ter abandonado o cantinho familiar vier visitar, pense no amor turco que não pára de crescer. Valeu o preço pago. Quando a dúvida sobrevoar os neurônios inquirindo a razão da radical mudança de estilo de vida, pense em como você sofreu com a angina provocada pela rotina estressante daquele hospital no ano passado, e olhe para o mar azul que enfeita a frente do restaurante que você acabou de inaugurar. Valeu o preço pago. Quando, ao fim do dia, você chegar cansada do trabalho, louca para pegar o seu bebê no colo e enchê-lo de carinho, e der com ele já no berço, dormindo o sono tranquilo, e com a tia da creche à soleira da porta, toda animada para te informar que, hoje, o seu filho balbuciou a sua primeira palavrinha - e não foi mamã - pense nas contas no fim do mês que precisam ser honradas e compense as horas de ausência com outras horas de presença intensa e colo de mãe, que é um só. Terá valido o preço pago. E ele é quem te dirá isso daqui a vinte anos.

Como nos supermercados, tudo na vida tem um preço. Às vezes pagamos com mudanças, às vezes pagamos com despedidas. Sempre pagamos com decisões, umas muito bem pensadas e refletidas, outras nem tanto. No fim da jornada, ao passar pelo caixa, a única moeda que não queremos de troco é a culpa. Para tanto, é preciso sacar da carteira a moeda certa para pagamento. Amor com amor se paga. E, se o seu "bem" foi pago com amor, bom-senso e sensatez, relaxe. O troco virá na mesma moeda.

Publicado em 02/06/2006
por Juliana Jacyntho, em 6/2/2006 02:25:36 PM



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