Valsa da saudade de uma cidade
Quando eu tinha uns oito anos, criança precoce que era, adorava cantar, acompanhada por minha mãe - ela, exímia pianista, os versos da canção "Valsa de uma Cidade", de Ismael Netto e Antônio Maria, formando um dueto muito querido: mãe e filha saudando a cidade maravilhosa! Vinte anos mais tarde, não canto mais a valsa de uma cidade ao lado da minha mãe. Cresci para outros cantos. Cantar, só ao volante, para espantar os maus agouros que o estresse e as cobranças diárias insistem em trazer à vida das gentes grandes. Minha mãe, por sua vez, dedilha ao piano outras canções tão belas quanto. E, assim, também, espanta a sua gorda quota de estresse, já que ela já é gente grande há muito mais tempo do que eu. E a cidade maravilhosa, cantada e tocada em verso e prosa, por mim, por minha mãe, por Ismael e Antônio Maria, continua como descrita na letra de outrora: maravilhosa. Rio de Janeiro, gosto de você. Gosto de quem gosta, Deste céu, deste mar, desta gente feliz!
Fora do Rio, hoje, há quase um ano, sinto saudades demais. Saudades do Rio, o melhor e o pior do Brasil, como cantou Fernanda Abreu. Sinto saudades daquela gente que sabe ser feliz, malemolente, esperta, vanguarda na veia. Gente que se vira, dá teu jeito, mata a bola no peito e chuta em direção ao gol, mesmo sem saber ao certo se vai ou não marcar o ponto. O negócio é tocar a bola, dinamismo, movimento. Sinto saudades da gente de pele dourada, da energia da beira de praia, do povo de bem com a vida, de astral lá em cima. Saudades de estar no meio do turbilhão cultural, de estar no olho do furacão, de estar no centro nervoso onde tudo acontece. Tudo de bom, tudo de novo, mas tudo de ruim também.
Quando saí do Rio, há onze meses atrás, a violência sem controle e sem reprimenda me enfastiava, qualquer gritaria na rua me irritava, os desencontros, tão comuns às grandes cidades, me amedrontavam. E achei bom demais sair de lá. Achei delicioso sair do Rio de Janeiro e experimentar a sensação de pseudo-segurança e tranquilidade, em outro estado da federação. E cá estamos nós, supervalorizando o que deixamos para trás, mais uma vez. Ás vezes, é preciso distanciarmo-nos de algo, de alguém, de algum lugar, para notamos que, no fundo, "ele" era mais bonito do que pensávamos que era quando o tínhamos em nossas mãos para imediato desfrute. Nada como uma bela dor de corno para nos dar a exata dimensão de um verdadeiro amor: Rio, eu te amo demais e sinto muito a sua falta!
Sinto falta das ruas de Ipanema e de suas novidades do mundo féshion carioca, moda criada por quem lá mora para quem lá mora. Código de cumplicidade que, quem é de fora, desculpe-me, custaria a compreender. Sinto falta da brisa do mar, que tem o condão de tornar a mais arrepiante e escaldante tarde ensolarada num belo e agradável entardecer, coroado pelo pôr-do-sol atrás do Morro Dois Irmãos, assistido pela menina ali, sentada na canga, estirada na areia do Posto 10 ou do famoso "Buraco da Lacraia", jogando conversa fora com as amigas e tendo como pano de fundo um lindo cenário. Apenas mais um lindo cenário, dentre tantos outros.
Sinto falta, até mesmo, dos corredores mal iluminados e intermináveis do foro central, onde, no batente do dia-a-dia, me batia com tudo e todos na busca do que se apresentava como justo e factível. No foro de agora, os corredores não são mal iluminados, quem dera, estas cavernas carecem de luz, Platão! Mas cá estou eu, no meu aqui e agora, outro lugar, longe do Rio, longe do mar. E nesse longe, brinco com afinco de ser feliz. Elogio, meto o pau, participo, faço valer a pena, faço valer a vinda, tudo para que este pedaço do meu enredo provoque, daqui mais um ano, saudades demais, iguais, ou mais, destas que, hoje, sinto do meu Rio de Janeiro-fevereiro-março-e-o-ano-inteiro, cidade que, mesmo com todos os seus percalços, vai estar sempre gravada na minha trajetória, na minha história e no meu coração.
p.s. De tempos em tempos, a coincidir com a transmissão de cada novela do Manoel Carlos que a TV Globo exibe em seu horário nobre, é verificada uma forte onda de saudosismo de cariocas "expatriados" .
por Juliana Jacyntho, em 7/29/2006 12:33:30 AM
Copo d'água
Assim como copos d'água são válvulas de escape para a sede, escrever é a via canalizadora de todo questionamento que me visita. Posso não, deixar de fazê-lo. Me seca. Me seca como se estivesse deixando de beber mil litros d'água por dia! Deixar de escrever me tira o viço da pele, o brilho dos olhos, a fluidez dos pensamentos, pára tudo. Esgota a minha paciência, perturba meu raciocínio, inflige, dentro do meu peito, a pior espécie de culpa, a merda da culpa, sempre a culpa, culpa por não priorizar, no correr dos meus dias, o que, de fato, me traz plena satisfação.
Alguns litros d'água depois... vem a chuva amenizar a seca que assola a nossa região. Vem a chuva de idéias amenizar a aridez da agenda apertada que não permitia a fertilidade dos meus pensamentos. Não permitia. Ou seja, passado est.
por Juliana Jacyntho, em 7/24/2006 08:16:48 PM
Entalo
Para quem tem por hábito escrever sobre idéias quaisquer,
ricas ou baratas, célebres ou infames,
idéias que fazem cócegas nos neurônios durante o dia
e que povoam a cabeça enquanto a vida acontece
e que, à noite, lhe tiram o sono,
não poder fazê-lo é como suportar uma maçaroca de farinha e água,
estrategicamente estacionada bem ali, no meio da garganta.
Estou assim. Um copo d'água, por favor!
Ou alguém me esbofeteie as costas agora, bem forte!
por Juliana Jacyntho, em 7/24/2006 08:13:24 PM
Desencontro
Durante o dia elas vêm e vão. Entram e saem sem a menor cerimônia, como se o meu cérebro fosse a casa da mãe joana.
Na hora de vir aqui, elas não vêm, venho só. E a solidão de idéias, neste momento, de nada me adianta.
por Juliana Jacyntho, em 7/11/2006 07:01:36 PM
Na direção, com trilha sonora
Se é para o dia ser corrido, que seja ao som de música boa.
Se o deslocamento é inevitável, que cantar descompromissadamente bem alto seja, então, nosso feliz método de desopilação.
Se cruzarem amanhã, no trânsito, com alguém dentro do seu veículo, balbuciando empolgadíssimo versos que parecem ser de música, não riam, respeitem.
Pode parecer bizarro, mas o que é, na verdade, é raro. Respeitem o raro momento de reflexão e relax destes bichos urbanos.
Vilarejo
Composição: Marisa Monte, Pedro Baby, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes
Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão
Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraiso se mudou para lá
Por cima das casas, cal
Frutos em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real
Toda gente cabe lá
Palestina, Shangri-lá
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar
Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos
E essa canção
Tem um verdadeiro amor
Para quando você for
por Juliana Jacyntho, em 7/4/2006 09:32:01 PM
Horóscopo de sábado
Eu posso sentir uma grande mudança dentro de mim e externada em meus atos. Eu sinto. Sinto e compreendo que ela não veio de graça, mas sim através de algumas pitadas de razão, persistência e desprendimento, espalhadas sobre um bowl descontrolado de imaturidade, resultando numa refeição mais "ao ponto". Tudo bem, só uma constatação de uma menina que não é mais menina há tempos... Abro o jornal e leio, ao lado da figurinha do centauro arqueiro: "Você está perto de realizar algum dos grandes objetivos da sua vida. Está acreditando mais em si mesmo, nos seus talentos e capacidades; e ao mesmo tempo não se deixando obcecar pelo resultado final das suas aspirações. Esse é um grande talismã para atrair a boa sorte." Nossa, então é mesmo verdade...! Sorrio. De boba.
Não precisamos de parágrafos prontos, frases feitas ou previsões astrológicas para nos dizerem o que sentimos, como sentimos, se sentimos. Sem sugestionalismos, se é que esta palavra existe. Mas eu não ousaria negar o bem que faz à gente e a tranquilidade que um endosso qualquer de idéias traz ao coração.
por Juliana Jacyntho, em 7/1/2006 08:42:14 AM
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