Maria no país das verdades cruas
Foi preciso cair, estraçalhar o joelho esquerdo, sentir a dor latejando na perna e da perna para o cérebro, para que o comando enviado ao nosso banco de aprendizado fosse o seguinte: às vezes você vai cair, às vezes você vai se machucar. E vai doer. E você vai ter que aguentar. Porque você está aqui no mundo exatamente para isso: para saber o impacto de uma queda, saber a intensidade das consequências, e aprender a suportar o que incomoda, e aprender a olhar para cima, impulsionar-se utilizando o chão como aliado e reerguer-se. Ponto para quem aprendeu tudo isso nas primeiras lições. Quem ficou de repetência cairá quantas vezes mais for necessário até que, enfim, se compreenda que ficar de pé e andar na linha reta, atentando ao desvio dos obstáculos que brotam do chão, na sua frente, pode até parecer tarefa infantilmente fácil, mas talvez não seja. E você só vai enxergar esta verdade depois de cair e aprender a levantar algumas boas vezes, bem pra lá, longe da infância.
Foi preciso uma, duas, três, dez, dez mil palavras mal entonadas, mal escolhidas, mal pensadas, para que reconhecessem que gastaram bons anos de suas vidas dedicados à perda do amor, do tato, do respeito, do bom humor, e de todos os atributos que fazem da comunicação a arte de autoconhecer-se, a arte de bem relacionar-se, a arte de viver com gente. Passaram a perceber a alegria no simples bate-papo cotidiano. Passaram a perceber a paz num minuto de silêncio tranquilo que cabe dentro de um abraço sincero. E puseram-se a observar como ainda tem gente que precisa de cem, cem mil, um milhão talvez, um milhão de palavras enviesadas e embuídas de rancor e sentimentos mais rasos para se sentirem vivas. Mas eles não mais engrossam este patético rol.
Foi preciso chutar uma ótima oportunidade de trabalho, e aquela outra também, e mais a segunda oferecida no ano passado, até que se compreendesse que, muito prazer, boa tarde, você não é a última cocada preta do tabuleiro. Você pode ser competente, comprometido, dono de um injevável portfólio. Mas isso não faz de você uma pessoa melhor nem pior que ninguém, nem te credencia a torcer o nariz para tudo o que se apresenta diante dos seus olhos. Foi preciso declinar de muito, por utopia e capricho para que, enfim, aprendesse a se render a pouco por necessidade. Bem-vinda ao mundo real. Boa noite, deixa que eu te apresente a ti mesmo: muito prazer, Maria, seu nome não é Alice. E no seu país pode até ter maravilhas, mas não conte com elas o tempo inteiro.
Maria se olhou no espelho e viu que, de fato, estava equivocada sobre si mesma, sobre seu mundo, sobre todas as coisas e pessoas à sua volta. Estas, as pessoas à sua volta, à volta de Maria, continuavam insistindo em cair no mesmo buraco de ontem, agora estraçalhando o joelho direito, já que o esquerdo, àquela altura, já havia estragado; insistiam em continuar proferindo uma dúzia de palavras infames e idiotas, da boca pra fora, de forma leviana e mecanicamente programada, no melhor estilo "boneca-diz-merdinha-da-estrela"; permaneciam fugindo dos desafios e provações de crescimento a que eram instados a ultrapassar, empacando no conforto experimentado nas situações familiares e dominadas. Para eles, será preciso talvez uma vida inteira para aprender a andar, cair e levantar, para aprender a dizer uma só palavra doce, para aprender a domar o mais pobre dos seus instintos: a soberba. Tem gente que faz o que bem entende com a sua vida inteira. Maria preferiu acordar.
P.S: "boneca-diz-merdinha-da-estrela" by Raffles, amiga querida.
por Juliana Jacyntho, em 8/26/2006 02:39:44 PM
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