Cirandinha
Não tem jeito. É tênue demais a linha que separa o marketing pessoal do exibicionismo. Ponto negativo para quem se passa, passa da medida, fala e se expõe demais, fala demais e se expôe além do que o bom senso prega ser razoável.
Não sei de onde vem esta necessidade de holofotes, de ribalta, de platéia, de atenção. No geral, quem requer palco geralmente não o teve na época em que precisava ter - na infância. Quando crianças, necessitamos de muitos mimos tal como a planta necessita d'água, necessitamos estar no olho do furacão, no foco do universo, no centro do mundo, mundinho tão nosso, tão egocêntrico. Mas será que alguém se esqueceu de dar um tapinha nas costas da gente e nos avisar que crescemos? Ei, você aí. Você é um homem criado, uma mulher feita, pois pare de requerer tanta dedicação, ora pois. E a gente aqui, nem percebe.
A gente não percebe quando a língua ultrapassa as fronteiras da boca, a gente não percebe os sorrisos constrangidos que brotam à volta do discurso egoísta enfadonho, a gente não se dá conta. A gente não se dá conta quando paga o ridículo, nem depois, nem durante, a gente só paga e passa a nota. E depois do ridículo, a Inês é morta. E a paciência de quem nos rodeia também. Rodeio. Sem rodeios, quanta pretensão de novo, quem foi que disse que você estava no centro desta roda? Diga um verso bem bonito, diga adeus e vá-se embora.
Eu sempre estendi as mãos para as borboletas... Abria os braços para o passado saudoso... para o futuro sonhado... mas nunca tocaram em mim. Hoje, fiquei imóvel e uma pousou no meu pé.
por Juliana Jacyntho, em 12/14/2006 11:17:53 PM
Balanço de 29 anos
Amanhã, completo vinte e nove anos. E o que isto significa além do decurso do tempo em si, este senhor que insistiu em correr depressa demais?
Significa que sou uma pessoa mais experiente que aos dezenove, ou pelo menos deveria ser. Significa que estou há vinte nove anos convivendo com o melhor e o pior de mim, ainda que querendo desvencilhar-me deste último, a cada dia. Significa que os trinta estão chegando no ano que vem, e que com ele aprenderei a lidar com mais uma cobrança em minha rotina - a de administrar o estigma da pseudo-infertilidade, da desaceleração da capacidade reprodutiva, do metabolismo que diminui a olhos e medidas vistos e que pede combate, e do folclórico encalhamento da mulher solteira. Ufa, pelo menos desta chateação já me livrei no ano passado, quando uni-me ao senhor meu amado marido. Menos uma tragédia da maturidade feminina a ocupar meus neurônios, a afetar o meu fígado - que já é ruim desde os dez, aliás - a vincar a pele do rosto, que vincada seja! [sorrisos demais]. Todos os estigmas: todos muitas besteiras.
Posso escutar o hino ecoando.. Parabéns, Juliana! Você hoje completa vinte e nove anos, cara, que legal! Legal é compreender que a sabedoria dos meus vinte e nove anos é ingênua perante a que me aguarda daqui a uma década, mais legal é não querer trocá-la pela inconstância que me perseguia há dez anos atrás. Legal é saber que eu encontrei um amor verdadeiro aos vinte e seis, mas que este encontro bem poderia ter acontecido aos trinta e seis e que, em qualquer momento, só diria respeito a mim, a ele, à gente, e a mais ninguém. Mais legal ainda é enxergar que, na vida, não há tempo certo para encontrar um grande amor. Há olho certo. E é você quem percebe em que momento o olho está treinado para enxergar príncipes sim, e não rivais, ameaças ou algozes.
Legal é poder decidir quando trazer alguém ao mundo, ou simplesmente decidir não trazer. Trazer, não por inexperiência ou pela pressa imposta por desejos alheios, nem tampouco pelo temor anunciado pela escassez de óvulos e espermatozóides atletas e sarados, mas sim porque se chegou num momento da vida em que o amor nutrido é maior que vocês dois juntos e por isso necessita de um espacinho a mais para se acomodar com conforto. Este amor maior de três pode vir aos quinze, aos vinte e cinco, aos trinta e aos trinta e cinco. Há quem o experimente aos cinquenta e cinco e ainda lamba os beiços. Escolher lamber os beiços é que é legal. Chorar sobre o leite derramado é que não soa tão legal assim.
Amanhã, completo vinte e nove anos. E o que isto significa além do decurso do tempo em si, este senhor que insistiu em correr depressa demais? Significa que Chapeuzinho virou o Lobo Bom: aguçou o olhar, para observar mais; podou a língua e abriu menos a boca para ferir menos e se expor menos ainda; trocou as mil palavras desconcatenadas por um só período bem construído. Resolveu crescer numa rotatividade sem fim, no melhor estilo kaizen. Amanhã, completo vinte e nove anos. E o que isto significa além do decurso do tempo em si, este senhor que insistiu em correr depressa demais? Significa que corri junto com ele, que não fiquei parada feito poste vendo a vida passar enquanto a minha própria pedia por movimento e solidificação. Significa que aprendi a entender e a gostar cada vez mais desta história chamada bom-senso, chamada 'escolha', chamada segurança, chamada maturidade. Pela estrada afora, nos interessa o que tem de bom neste pacotão etário, bônus ainda que com ônus: que venham os cabelos brancos pois eles não vêm sozinhos.
por Juliana Jacyntho, em 12/1/2006 12:09:54 AM
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