Bye, mês
Faltam quarenta e cinco minutos para janeiro bater a porta e sair sem destino certo, cheio de liberdade, com a pretensão de voltar aqui, apenas, no ano que vem. Enquanto ele esbanja agenda livre, onze meses de férias e um milhão de possibilidades, venho eu aqui correndo para constatar que, mais uma vez, não consegui escrever as much as I wanted. Mas eu volto. E com calma. Sem sol. Afinal, nesta última quinzena, senti as cócegas que anunciavam que era para ter escrito sobre a patética contradição existente no encontro dos ditos líderes vermelhos da América em cenário tão cheio de pompas e circunstãncias - o Copa. A nós, pompas e circunstâncias, ao povo, o discurso. Era para ter escrito sobre prepotência, principalmente aquela sua versão que denuncia rastros de insegurança e desconfiança indubitáveis no próprio taco, era para ter escrito sobre a tal pobreza de espírito que ronda por aí em vários cantos do mundo. É, tenho esbarrado em espécimes pra lá de bizarros assim. Era para ter escrito. E não o fiz. Mas eu volto. Bem sei que não devemos deixar para amanhã o que podemos fazer hoje, mas é justamente aí que mora o meu porquê: faz sol demais, é janeiro, quero ver o mar, me queimar até arder, descascar e recascar e voltar, para sentar mais tempo aqui, depois desta temporada. Mas não posso esconder que, mesmo sob o sol escaldante, escaldante aqui em terras frias, a vontade de escrever sussurra baixinho e pede espaço nestas horas que reservo para ficar de pé.
por Juliana Jacyntho, em 1/31/2007 11:22:59 PM
"O tempo é um rato roedor das cousas, que as diminuí ou altera no sentido de lhes dar outro aspeto."
Machado de Assis
por Juliana Jacyntho, em 1/16/2007 07:12:02 PM
Resoluções de Ano Novo
Mais um ano. Bem que este poderia abrir mão de ser apenas mais um ano, abrir mão de ser apenas mais uma retrospectiva ao final de dezembro, mesinho repleto de festinhas de confraternização em que pontuam emoções engessadas, plásticas, improvisadas, tudo com muito pouca sinceridade, bem pouca aliás (não há como a pobre da emoção ser sincera, já que foi a ela a escolhida como cristo para expressar o descontentamento disfarçado e sem jeito de seu dono, que teve o azar de sortear aquele colega mala no amigo secreto). Se o cara é mala ou não, vá saber, mas a impressão continuará se remoendo nos porões da sinceridade abafada pela cordialidade trazida pelas festinhas de fim de ano de dezembro. Afe.
O ano é novo, mas fora a indumentária da virada, do vestidinho à calcinha amarela, parece que os sentimentos, de novos, nada têm. E isso não combina com o slogan da vida toda: ano novo, tudo novo, menos o slogan patético. Dormimos em 2006, acordamos em 2007, mas ainda somos os mesmos e vivemos não só como nossos pais, mas como nós mesmos, ali, logo ali atrás, na semana retrasada. Fizemos tudo correndo, com muita, muita pressa. Adiamos algumas atividades 'pra depois dos festejos'. Entramos na garrafa e enfiamos o pé na jaca, no kiwi, na lichia, no lombinho, no salmão, na torta de limão, tudo como se o mundo fosse acabar, mas não, ele não acabou, foi só um ano que passou dando lugar a outro igualzinho - ou não. Igualzinho ou não, os excessos vieram conosco, o que foi adiado terá que ser encarado, a pressa terá que ceder à organização da agenda: bem-vindos de volta à vida.
Esse novo período de 364 dias que seguirá a partir de amanhã poderá ser diferente, a começar pela disposição da gente. O que será de nós em 2008 se não nos dermos conta - agora - de que alguma coisa está fora da ordem? Que momento seria mais adequado para que, além de desejar prosperidade, saúde, paz e amor, nos organizássemos para combater os nossos males internos e pessoais que impedem a proliferação destes sentimentos caros? Saúde e paz não caem do céu, não vêm em rifa, não aparecem embrulhados para presente embaixo da árvore natalina, nem tampouco materializam-se diante da gente no minuto seguinte à entonação das saudações de amigos e familiares na hora da virada. Saúde e paz e todo amor que houver nessa vida vêm de onde não brota a intolerância. Comigo, contigo, com eles, os outros. Vocês viram a foto do ex-ditador do Iraque, Saddam Hussein, após ser enforcado, estampada nos jornais? Feliz ano novo, amigo, mesmo assim.
A intolerância é o grande mal do século vinte e um. E não falo de George W. Bush, mas de nós mesmos, simples mortais. Pratiquei a intolerância hoje como se fosse uma religião. Torci a cara para a criança que veio berrando e esbarrando em mim, no ônibus que me rebocou de volta à cidade, torci a cara para o engarrafamento indecente e previsível que duplicou o tempo gasto na estrada, torci a cara, se bobear, para o mosquitinho que sobrevoava a condução. Se espelho ali houvesse, teria eu torcido a cara para a minha cara retorcida. Salvo a ginástica facial, que benefícios esta postura me trouxe? Nenhum, e nem poderia. As cãimbras me proporcionaram acordar a tempo de distorcer a única cara que a natureza me deu e enxergar o ridículo que reside nestes atos pré-ordenados que disparamos por aí, pelas ruas, pelas calçadas, pelas estradas, sem nos darmos a mínima conta. Que o ano novo traga o frescor nascido da quebra destes atos pré-ordenados, destes vícios posturais esvaziados, que de nada servem e que nos sugam, nos queimam por dentro e por fora, nos fazem perder a chance de fazer o dia e a nossa passagem por ele mais leve e mais bonita.
Nem entrar na academia, nem prosperar na carreira, nem nenhum outro sonho de consumo: minha resolução-mor de ano novo consiste em empenhar-me, de forma sincera, em ser uma pessoa melhor. Todo o pacote de coisas boas que desejamos tanto e com tanta força virá atrás, atraído pelo bem. Faça feliz o seu Ano Novo.
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por Juliana Jacyntho, em 1/1/2007 11:45:39 PM
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