Louca de Botas
No inverno rigoroso, vestido floral rodado e sandália rasteira não têm lugar. Sol até tem, mas só se gelado, tentando, em vão, derreter o céu azul polar salteado de nuvens fofinhas. No inverno rigoroso, nada de liberdade de movimentos aos robozinhos imobilizados pelos ticidos uns sobre os outros ou pelas botas que envolvem os tornozelos. Tornozelos? Nada de liberdade de idéias, eis que também estas sentem-se presas pelas ceroulas, leggings e meias-calças sobrepostas que, em conjunto com as três blusas e mais casaco e cachecol envidam todos os seus esforços em engessar membros e neurônios. Época de preguiça e letargia. Dor de cotovelo e saudades do edredon que chora e da caminha quente, recém-abandonados naquela gélida manhã.
Uma camada, duas camadas, três. Sobreposições. A gente se cobre, se tampa, se esconde. O inverno é lá fora, ele é aqui dentro. A gente se cobre, se tampa, se esconde da gente, do outro, da vida, do inverno. Nunca um cachecol fora tão útil: envolve o bolo na garganta. Nunca o gorro serviu-nos tão bem: tapa os ouvidos para belas verdades. Nunca o sobretudo fora tão estrategicamente utilizado: nos torna invisíveis, diante de uma cena que demanda solidez e presença. Um sobrenada. Braços encolhidos negam o abraço a quem chega. E provocam cãibras. Mãos cerradas nos bolsos negam o aperto de mão a quem passa. E ironizam a cordialidade. O vento gelado desvia nosso olhar antes focado para o alto - e avante! para o chão, ignorando amigos, antagonistas, todo o redor.
No inverno rigoroso, a gente se recolhe, se protege, se esquiva. Se recolhe para uma viagem muito íntima e fria, daquelas em que uma só companhia é admitida: a nossa. E sem camadas protetoras. É no frio que vêm os momentos de introspecção profunda, o embate do ceticismo com orgulhos exacerbados e excessos de confiança, a negociação estabelecida entre a vontade imensa de trocar de estação e as inseguranças infantis ou covardias de outrora. Constatações essenciais que só esta frieza invernal traz.
Somos inconstantes sim, passionais sim, imprevisíveis, uns mais que outros, todos sasonais demais. Sofremos com a frieza do olhar que fulmina o espelho, com o gelo que rasga as narinas, com a dormência do queixo, com o silêncio em todo canto que só será dissipado um outro dia. Hoje não. Somos dependentes do que gira, do que roda, do que dá voltas. Dessa força contínua que vai e vem e avisa o que está fora do lugar, o que precisa ser aprimorado, quais ações são necessárias para a mudança, e que ativa o controle dos gênios maus. PDCA na vida de relação. Roda mundo, roda-gigante, roda-moinho, roda pião, vivemos na roda viva, um ovo, mas sem clara nem gema, e sim com primavera, verão, outono e inverno. Lá fora. E aqui dentro.
por Juliana Jacyntho, em 7/27/2007 12:33:36 AM
Copyright © 2008 Balanço de Dez em Dez - desde 05'2004. Todos os direitos reservados. Lei Federal 9.610/98 - Lei de Direitos Autorais |