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Loopings Existenciais


Já nem me lembro mais por quantas e quantas vezes escutei dizerem por aí que o homem não sabe do que é capaz, até que é obrigado a tentar algo novo, e então surpreende-se com sua capacidade. Eu acho isso muito bonito. Bacana mesmo. Se tivéssemos uma provinha, um tiquinho de nada que fosse desse ânimo voraz comum às constatações de superação em cada atividade prosaica do dia-a-dia tudo seria mais colorido, as caras seriam menos rabugentas e os discursos de insatisfação - pessoal, profissional, individual, banal, seja qual fosse - estes seriam menos frequentes e menos repetitivos.

Os dias seriam pontuados por desafios dignos de causar frio na barriga, na espinha, e calor nas bochechas e no coração. Na regra deste jogo poliano-moço, não valeria desistir, nem adiar para amanhã ou depois, tampouco passar a incumbência para o colega ao lado ou delegar para subordinado qualquer, como sói acontecer com tarefas menos atraentes aos nossos olhos entorpecidos pela mesmice. A vida seria uma gincana transloucada de tirar o fôlego, dar mais prazer e instigar-nos a fazer acordar a criança inquieta e ávida por novidades, aprendizado e reconhecimento que um dia tivemos morando em alguma viela aqui por dentro 24/7.

Ninguém falou que crescer implicava em alternar os botões do tédio e da empolgação com periodicidade prazer, sou bipolar. Não, ninguém avisou que um dia eu dormiria contente por um contrato fechado por uma executiva de tailleur e saltinho para, na noite seguinte, desejar com força vender bijuteria na praia, no melhor estilo sou hippie mas sou limpinha de ser. Ninguém cochichou ao pé do meu ouvido, tipo fofoca da boa, que amadurecer envolveria sensações assim tão contraditórias e ainda mais: traria uma serenidade qualquer que bloquearia esta nóia, espantaria esta ansiedade e afugentaria com um sonoro BU a frustração instaurada pelo que ainda não veio. Tudo para dar lugar a uma risada moleca que acenaria para a vida sonhada e lhe diria que ela não passa de um desabafo utópico, tal como a hippie que escolhi cinco linhas atrás. Serenidade que não vem. Ansiedade que me rói toda por dentro. E é por ser dotada desta ignorância que ainda me dou o direito de sonhar como seria se real fosse a utopia.
por Juliana Jacyntho, em 8/22/2007 11:43:10 PM



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