Opinião Pessoal: O sol, o Rio, o mar e o Sul.
Em outubro próximo, completo dois anos de Curitiba. Dois anos de frio, de cidade urbanizada, de namoro com casacos e cachecóis novos, visitas a restaurantes deliciosos e confesso: também de ociosidade, sedentarismo, saca? Nada de exercício físico, salvo o caminhar diário: casa - trabalho - saídas. A gente fica mais introspectivo no frio sim, mas eu ainda não havia atentado, nestes dois anos, para a falta que o sol me faz. E como essa falta me afeta tanto.
Falo do sol. Aquela coisa quente na pele, amarela no desenho de criança, aquela bola de luz que enfeita o meio do céu azul. Falo do maravilhoso, invasor e acolhedor sol. Do sol do Rio, da Barra, de Ipanema. Do sol de Floripa, sob o qual estou agora, em plena areia mole. Homesickness total: praia gostosa de setembro, canga verde velha de guerra estirada na areia e a mesma menina de sempre sobre ela esparramada escuta Sergio Mendes e Funk Como Le Gusta achando que vai levantar dali e almoçar no Delírio Tropical, tomar um chopp no Informal e combinar um saída na Lapa pra mais tarde. Volto pra Mole. Cinco minutos atrás, respirei fundo como há muito não respirava. Aquela inalação lenta e intensa, digna de momentos de mais pura contemplação, que enchem o peito de emoção e alegria só por estar diante do mar, do calor, do colorido de todos na praia e da democracia que é este lugar: no Rio, aqui na Mole, em qualquer praça que beira o oceano. À beira mar, a mim me parece, a vida é mais leve e as gentes são mais felizes e mais bem dispostas, já diria Pero Vaz de Caminha.
Se ao fim da semana a gente pode se deleitar com o azul do mar, com a liberdade proporcionada por calções e biquínis confortáveis e ultracoloridos, com o aconchego do sol que vem rachando lá de cima e com a sensação de gratidão à vida que todo esse conjunto traz, que mal há em envergar terno, tailleur, escutar reclamação de cliente ou fornecedor; que mal há em treinar mais dez estagiários, mesmo sabendo que eles darão no pé daqui a um mês; que mal existe em aturar as agruras do dia-a-dia na fábrica ou no escritório se, ao fim, você será recompensado com dois dias inteirinhos de verde, azul e amarelo, quase uma bandeira do Brasil se não fosse pelo biquíni de bolinhas preto e branco e tantas outras cores e estampas que vêm junto neste pacote praiano? Pensa. Reze desde a segunda para não chover no sábado e no domingo e então tudo será perdoado.
A vida que se passa em cidades com praia é mais contente. Sinto isso aqui agora, agora em contato com este habitat tão familiar cuja importância eu simplesmente andei negligenciando nestes anos de Sul. Tá, e no Rio também, mas com a diferença de que lá, mesmo sem pisar na areia, eu sabia que ela estava cumprindo o nosso pacto: a praia. A praia que me acompanhava na ida para o Centro e me entretia no engarrafamento cruel e monstro da volta pra casa. A cumplicidade entre a gente residia no fato de que eu podia até não ir ao mar, mas sabia que ele estava ao alcance dos pés para quando eu sentisse vontade. Aquela vontade de me nutrir de luz, de calor, de mergulhar n'água gelada limítrofe para um choque térmico e acordar para a vida, cheia de ânimo para seguir em frente com bravura, com bom humor, pele mais viva e dentes mais brancos sem laser. Sem falar nas impagáveis fofoca e risadaria postas em dia, quando com amigas.
Curitiba me acolheu com seus braços branquinhos e roliços bem abertos, não quero ser injusta, mas não posso, não quero, não devo me curvar à acomodação mofada que o frio traz e faz com que esqueçamos que um biquíni existe de março a dezembro. Quero não. Esta tarde de hoje aqui na Mole, sozinha, eu comigo na companhia do sol, do som, da minha canga verde e desta caneta rosa radiante, tal como este oito de setembro ensolarado, me faz concluir que é com o iodo do banho de mar e com o suor do banho de sol que sacudimos a insatisfação e as teias empoeiradas de um inverno conservador, guloso, encasacado e introspectivo demais. Vamos para fora! Dedico este texto ao meu marido velejador, homem do mar, e às minhas amigas de praia e suas cangas coloridas, meninas do sol, assim como eu.
por Juliana Jacyntho, em 9/10/2007 08:55:06 PM
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