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Wanted: Vergonha na Cara


Meu mundo ruiu. A corrupção não está mais lá longe, lá nos confins do planalto. Os meandros oleosos não convivem apenas no submundo das grandes rodas de poder. Os corvos estão azucrinando a razão do homem de bem aqui, aqui bem perto, aqui bem do meu lado, do outro lado do telefone, e via e-mail também. Uma passada de perna séria no trabalho, adulteração de documento anteriormente chancelado por quem trapaceou e propostas indecorosas de superfaturar um reles acordo para custear um jantar gordo em churrascaria mediana para um velho advogado velho. E isto não é filme de terror não, isso é acontecimento aqui na terra do nunca, e o pior: Peter Pan não veio, só o Capitão Gancho. Isso não é chamada do jornal nacional, é a vida, ora rugindo feito leão emputecido, ora miando agudo e irritante ao pé do ouvido, feito gatinho no desmame. Essa semana me atropelou, sexta-feira. Aqui é o céu?

Violência. Em meio ao tiroteio de propostas indecorosas, discursos ensebados, e desejo por ouro, muito ouro, essas turquinhas descontroladas que habitam dentro das pessoas ditas 'ilibadas' estão perdendo a linha. Já foi a época em que tentavam corromper o outro na surdina. Hoje é na cara dura, a ferro e fogo, doa a quem doer, aceite o mais incauto ou o menos ético. Também já foi o tempo em que as trapaças eram arquitetadas com algum grau de sutileza ou humor, hoje é na base do fiz mesmo, por quê, vai encarar? Em meio a tanta belezura, só consigo pensar que mamãe não investiu em tanto estudo para que filhinha convivesse neste front, junto a tanto meliante. E vem então aquela vontade louca de sumir ou me desintegrar... purpurina, curry, páprica ativar, forma de um cubo de gelo! Mas não dá. O que corre aqui é quente, é sangue, é brio de quem ainda tem alguma vergonha na cara e ainda se enrubesce diante do ridículo absurdo a que chegou o homem.

Basta desta ética do favor, do jeitinho, da corrupção deslavada, desmedida e impune. Ela não habita apenas os porões do poder, ela também acampa nas calçadas onde a mão do guarda é molhada. E essa água não cai do céu, sai do bolso de gente como o seu vizinho de porta, seu colega de sala, do seu chefe, da menina que entrega a cartela de consumo no self-service em que você almoça todo o santo dia. Basta. Basta dessa cultura que prega que passar a perna no outro é crime perdoável desde que seja em seu próprio proveito. Chega, não dá mais. Com tanta gente boa acendendo incenso, escutando enya, fazendo massagem para desopilar e o que mais vier, posso não conviver calada e resignada diante de tanta falcatrua e desamor. Posso não continuar repetindo que tem muita gente ruim nesse mundo e acreditar que é para ser assim. Até ontem, era só na televisão, na CPI, no mensalão, sem incômodo imediato diante do meu civismo preguiçoso e hipócrita. Agora, os porcos e ratos querem sair do reality show trash e vir para a vida real, pra minha vida real. Acontece que nessa novela mando eu. Nela, eu garanto, eles serão vilões atrapalhados tipo a Naza, daqueles que tomam surra do mocinho, criam arapucas para os seus próprios tropeços, se dão mal durante toda a história e, no fim, ainda conseguem acabar em pior situação que a pindaíba em que estavam no primeiro capítulo. Gersons do meu Brasil, tremei! Não sabiam vocês que o crime não compensa? Pois então. A rasteira, a vantagem e o chuncho também não. E ainda vou viver para ver isso virar mania, coca-cola, faixa de avião no domingo de praia, cultura, passeata, febre, coqueluche nacional.
por Juliana Jacyntho, em 10/5/2007 10:58:05 PM



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