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À procura da matilha perfeita


Lealdade é atributo mais dado aos cães que aos homens. Uma pena. Descendemos dos macacos. Está no gene sermos engraçados, inteligentes e farristas, mas ao que a atualidade sugere, o código genético que determina a lealdade do bem - olhar no olho, ser franco e verdadeiro - veio para alguns mortais por acidente de percurso.

Infelizmente, ser leal não é a tônica dos dias de muita gente, a começar por ser leal com ele próprio, que dirá em sê-lo com os demais. Há quem morra leal ao lado negro da força, ao crime e aos seus comparsas, mas falo de outra faceta. Falo da lealdade que é a causa da consequência 'colocar a cabeça no travesseiro e conseguir dormir em paz'.

Ser leal é termos um compromisso com nossas verdades, com nossa ética, com todo o conjunto de valores e referências que arregimentamos vida afora, nesta estrada já trilhada e, mais ainda, um compromisso com o que está por vir. Ser leal é ser prudente e verdadeiro, consigo e com os outros, é rechaçar a leviandade e o furar de olhos, escurraçar o puxar de tapetes, não fomentar a discórdia nem a fofoca com mentirinhas sórdidas, disparadas pelo simples prazer cruel de plantar a pulga na orelha alheia.

Ser leal relaciona-se com ser generoso e solidário, é vencer e chegar onde se deseja sem macular o direito de quem te rodeia, pisando só no chão, não em pessoas ou corações. A lealdade humana em nada lembra a lealdade volúvel do cachorrinho servil, lambão e desprovido de opinião própria, companhia fácil para egos inflados e intolerantes. A lealdade humana não nega as suas origens. Viemos do macaco, bicho inteligente. Quando admiramos uma causa, uma pessoa, uma idéia, somos leais da nossa maneira: não abanando o rabinho, mas aplaudindo, batendo palmas e mostrando os dentes num largo sorriso.
por Juliana Jacyntho, em 1/28/2008 04:34:01 PM





Turbilhão de início de ano


Todo início de ano é assim: muitas promessas, muita disposição, muitos projetos, tudo isso impulsionado pelo calor do verão, pela disposição que esta estação mais despojada traz às gentes, pelas mil e uma possibilidades que o nosso cérebrozinho vislumbra para os próximos onze meses e tal que se anunciam. Uns se matriculam na academia, outros na universidade. Malhar o cérebro ou o abdômen, não importa, importa é se mexer. E por se mexer entenda-se: tirar de dentro do armário da vida aquele emprego chato e trocar por outro que seja motivador; dar um pé naquele namoro que se arrasta como se fosse um morto-vivo e trocá-lo por outro no melhor estilo butterflies in my stomach; cortar o cabelo, mudar a cor do batom, usar um novo aroma de perfume para ser o seu cheiro do ano novo. Quanta energia nova. E isso é o que nos mantém vivos. É esta animação veranil que faz de nós o que somos: uma gente boa e alegre.

Como seríamos nós brasileiros se, ao invés dos trópicos, tivéssemos os pólos como lar? Como seria iniciar as atividades do ano novo, ano bom, sob o frio de dezessete graus negativos novaiorquino ou canadense? Como seria? Teríamos nós a mesma fugacidade, ardor, esta urgência de implementar sonhos durante todo o resto do ano? Ou seríamos mais reservados, pessimistas e blasés neste janeiro que se despede, se acaso vivêssemos sob o fog londrino? Não penso em outra resposta que não seja a de que, de fato, a instrospecção do frio, no início do ano, traria um ceticismo, uma prudência, um pé atrás que são os antagonistas do clima de "já ganhou" que vivemos nos janeiros ensolarados brasileiros, fazendo com que planejássemos estrategicamente nossos passos e executássemos mais meticulosamente as implementações de nossos desejos, ao invés de sonhar e prometer tanto olhando o mar e esquecermo-nos da prática quando já esturricados - miolos amolecidos - sob o sol de quarenta graus. Sei não. Algo assim se relaciona com a constatação de que longe da linha do Equador as economias são mais desenvolvidas e os povos têm mais oportunidades do que perto do fogo? Sei não. Além do oba-oba da estação ainda temos o carnaval. Corta pro ano começando lá pra março. (Do que, em 2008, estamos salvos).

Estou em Curitiba hoje. Aqui, a temperatura ronda os quinze graus e a garoa fininha lembra o inverno. Inverno em Janeiro. Blusinha cinza de cashmere no trabalho, biquini não. Lendo as notícias, me apavoro com a quantidade de mortes inesperadas das ditas celebridades nos últimos dias: Luis Carlos Tourinho, de aneurisma; Heath Ledger, de superdosagem de pílulas anti-insônia, e Dora Bria, de acidente de carro. Todos muito jovens. Não é só a minha blusinha que é cinza em janeiro. O céu de Curitiba também e o fim trágico de algumas bonitas histórias de vida. 2008 começa diferente assim com cara de inverno reflexivo. Nem bom, nem mal, mas diferente. Dentro de mim, confesso, instala-se aquele desejo louco, incontrolável, voraz, selvagem quase, de ficar o dia inteirinho de biquíni e canga na beira da praia, sob o céu azul de cegar as vistas, curtindo o couro sob o sol (com filto solar, sim senhores, pois ainda não perdi o juízo), planejando mil e uma conquistas para o ano bom, e agradecendo à vida por morar no meu, no seu, no nosso Brasil tropical. Seja lá o que isto significa para o nosso povo - o verão e seus sabores, o sol e suas cores, o início de ano otimista demais - prefiro este colorido terceiro-mundista ao cinzinha dito desenvolvido que quase flerta com o bege sem graça e com a tragicidade do noir. Vem chegando o verão, um calor no coração, esta magia proibida, coisas da vida, aqui no nosso Brasil.
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Curitiba é Brasil? Brincadeira.
por Juliana Jacyntho, em 1/23/2008 05:13:41 PM



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