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sobre cartela de cores e de pessoas


Sou franca, sincera e transparente tal como um copo d'água. Não sei sorrir para o que desprezo, não sei endossar aquilo com o que não concordo, não consigo mesmo aplaudir o que me causa repulsa. Não sei como fazer para esconder ou disfarçar quando me decepciono, quando estou triste eu murcho. Ou choro. Quando estou alegre, eu brinco. Ou pulo. E ponho-me a fazer palhaçadas e desfiar tolices só para que outros sorriam comigo - minha alegria é generosa, ela quer sempre companhia.

Talvez por tudo isso eu não consiga conviver com gente bege. Gente que, ao te olhar, não sabe o que é travar um franco eye contact. Gente que não se esforça para entender o que você diz. Gente que não se importa se quem está à frente é você ou uma samambaia, nem nota a diferença. Gente bege que não diz a que vem, onde vai, gente que parece não saber até hoje por que razão veio ao mundo. Gente que com esta mesma cara de "não sei o que estou fazendo aqui" acorda, levanta, passa o dia inteirinho, volta pra casa e dorme, tudo com a tal da mesma cara. Nem um sorriso, nem uma levantada de sombrancelha. Nem um berro, nem um grito. Nem um abraço, nem uma risada, quiçá um aperto de mão. Gente que traz na testa não um ponto de exclamação, mas sim uma interrogação em negrito. Nada fácil conviver com esta gente.

Não é fácil ter que interagir com quem não age, mas se arrasta. Não é fácil jogar uma piada ou conversa fora com quem não se esforça para compreender, nem o óbvio. Não é fácil contra-argumentar determinado assunto com aquele que, de tão enclausurado no seu bege mundinho, acha mesmo que, em tudo, 'o problema são os outros'. Gente assim tem que aprender a se colorir. De preto, de azul, verde ou vermelho, de qualquer cor que o valha. Mesmo de branco, quem sabe, muito mais cor na paz do seu vazio que o bege neutro e entediado que ilustra a face daqueles que se escondem em vão.

Gente assim tem que se permitir viver em sentido lato, dar a cara a tapa, participar. Bater e afagar, posicionar-se e recuar, pois é assim que a gente escreve e colore a nossa história. É assim que a gente se colore e se diferencia da horda bege, que segue engrossando quantitativamente o coro dos insignificantes de espírito e enfraquecendo qualitativamente as relações humanas, tirando do sério os copos d'água do nosso mundo de meu Deus. Ergo meu copo d'água transparente e proponho um brinde. Um brinde às diferenças e ao quanto elas nos ajudam a amadurecer. Outro brinde ao poder existente em cada um de nós que permite o impulso, a virada de jogo e o direito de se reinventar se assim desejarmos. Que este poder conduza os beges a se transformarem em pessoas amarelas de bolinha turquesa, ou alguma outra feliz mistura. E que este mesmo poder nos municie de paciência, enquanto a tal coloração alheia não vem.
por Juliana Jacyntho, em 4/11/2008 10:06:26 PM



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