arquivos
links
fotos

online

Busque um texto no Balanço por assunto:

Pesquisa personalizada





com quantos paus de canela se faz um lar


Uma casa se constrói com cimento, tijolos e bons braços obreiros. Um orçamento apertado, um cronograma apertado, um coração apertado pela ansiedade de querer ver tudo pronto. Pó, barulho, bagunça. Cheiros nada aprazíveis de cigarro, argamassa, suor e até a ansiedade de querer ver tudo pronto exala um odor qualquer que também não agrada. Um tijolinho sobre o outro. Longilíneas estruturas metálicas. Carrinho que sobe e desce cheio de entulho que sai e volta com mais tijolinho. Piso assentado. Azulejo no banheiro. Água correndo. Chave na mão. Chaves na mão, pé direito à frente, dá licença, seu porteiro, é hora de recomeçar.

Quem se muda estranha a nova atmosfera que envolve, cercada de um quê de mistério, o invólucro novo que apelidamos de minha casa, minha nova casa. Uma sensação freak qualquer sugere abandono: minha casa não é mais minha, eu agora pertenço a esse lugar com cheirinho de construção e demão de tinta? Quadradinho amado e esperado por meses, gestação sofrida, cadê o acalento? Cadê o cantinho preferido, os cheiros familiares? Cadê minha revista predileta, meu RG, meu talão de cheques? Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: - Em que espelho ficou perdida a minha face? - Em qual das vinte malas ficou perdida minha camisola mais confortável? Em qual das cem caixas espalhadas pelo chão da sala ficou perdido o saca-rolhas para o desabrochar do vinho de comemoração?

Pão para quem tem fome. Quem casa quer casa. Mas não só. Um casa, tal como descrita no parágrafo que inicia esta breve prosa, é apenas um exemplar do bom trabalho daqueles que se dedicam à engenharia civil, à empreitada, à arquitetura. Um casa lato sensu, uma casa de verdade se constrói com muito mais paus que aqueles previstos nos cálculos aritméticos de quem bolou a fundação do prédio que aqui foi erigido. Cheiros, lembranças afetuosas, experiências sensoriais, isso sim constrói uma casa de verdade - Lar doce Lar.

Pode ser doce ou salgado, com cheiro de alecrim, hortelã, sândalo ou alfazema. A verdade é que uma casa não passa a existir tão somente com a obra acabada. Sem que se asse um bolo, sem que se queime um incenso, sem que se tome um bom banho de espuma e de perfume; sem que se faça uma faxina da boa, daquelas que a flanela e o álcool lavam até a alma; sem que se ponha as almofadas e os travesseiros ao sol para espantar os males da inércia do 'guardado'; sem que se molhe uma planta, sem que se coloque a tocar um bom disco, sem que se cante bem alto; sem tudo isso, amigo, não tem casa não. Sem um brinde, sem um vinho, sem um queijo, sem um beijo, sem uma oração, não se sentirás em casa. Por isso, irmão, assine o termo de entrega das chaves e se entregue, sem medo, à árdua e deliciosa tarefa de dar ao quadrado de concreto a sua cara, o seu jeito, plantando nele os seus pés, suas memórias e mais um belo pedaço da sua história.
por Juliana Jacyntho, em 5/26/2008 11:37:55 PM



Page copy protected against web site content infringement by Copyscape


Copyright © 2008 Balanço de Dez em Dez - desde 05'2004. Todos os direitos reservados. Lei Federal 9.610/98 - Lei de Direitos Autorais