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a bola da discórdia



De onde você acaba de chegar caro amigo blogueiro, caro leitor assíduo, caro internauta que caiu aqui por acaso? Pois eu acabo de chegar de uma reunião de condomínio. Você sabe exatamente o que isto significa? Significa que gastei as últimas duas horas sentada numa cadeirinha de plástico branca em meio a um bando de desconhecidos que tentavam até ser simpáticos, simplesmente porque ocupamos o mesmo teto. Uns, de fato, devem ser simpáticos de verdade. Outros, contudo, até tentavam praticar a arte da cordialidade com os demais, mas o sorrisinho nervoso entregava com força a falta de intimidade com o cortado: como eu, eles também estavam bem contrariados por estarem ali, perdendo algumas horas do descanso noturno que nós, aquela raça que costuma praticar o esporte de trabalhar, endeusa e roga a Deus para que logo chegue: é a hora da taça de vinho na mão, revista ao lado, novela na TV e o amor entrelaçado. Ai, que desperdício.

E a pauta foi variada. Pode ter animais de estimação, cães, gatos, aves barulhentas? Cão de grande porte não pode. Mas o que é cão de grande porte? Ah, maior que um labrador. Sorry? É importante padronizarmos as lanternas da varanda. Claro, concordo plenamente, deve ser tudo padronizado. Então. Tem até um apartamento que colocou uma bola enorme na varanda! Não pode. Êpa, mas é o meu. A bola é minha. Na minha varanda. Pause. Tudo bem, retiro a bola, sem briga, sem choro, sem vela. Problemas deixo para o dia que corre até as 19h. Chego em casa e quero não. Retiro sim a bola. Mas a pulga não se cala.

Retiro sim a bola. Mas ora bolas. Sou brasileira, casada, advogada, vacinada sou também, embora me falte na carteira a estrelinha anti-Rubéola, e eis que não tenho o reles direito de decorar a minha varanda a meu bel e exclusivo prazer? Soa ou não estranha esta ingerência da coletividade sobre a minha esfera de direitos de exercer a minha porção personal-decorator Tabajara? É invasão demais, é confusão demais, é cafonice demais. Em quê uma pobre luminária japonesa de papel de arroz agride tanto os meus queridos vizinhos recém-adquiridos? Talvez ela os faça lembrar que na varanda deles falta um pouco de bom gosto?

Não, talvez não. A minha bola japonesa da varanda, que amanhã terá que procurar um novo abrigo na minha nova casa, incomoda simplesmente porque é diferente. Ser diferente não é tarefa fácil. Ser carioca em Curitiba, ser paulista no Rio de Janeiro, ser negro na Virginia, ser branco em Uganda, ser advogado no IME, ser engenheiro no Fórum, ser diferente requer diplomacia, gentileza, jogo de cintura. Mas minha bola é redonda, ela não tem cintura.

Padronizar é uma maravilha, desde que seja para melhoria. Padronizar nivelando por baixo é que me causa uma repulsa incontrolável. Tolhir a liberdade e a criatividade alheias debaixo do próprio teto é cafona demais. Gosto não se discute, mau gosto menos ainda. Intolerância, então, a gente simplesmente ignora e tenta não medir esforços. Mas cafonice, ah, a cafonice... A cafonice a gente chega bem perto, constata, e simplesmente dá risada. Dá risada por saber que, ainda hoje, apesar de esdrúxulo, há gente no mundo que acha que tem o poder de opinar sobre a porcaria da lanterna da varanda do vizinho. E até tem, ninguém mandou viver em regime de co-domínio. Mas o pior: faz desse poder a razão de viver, o grande evento de sua semana, o elixir do seu mês. E essa falta de ter o que fazer é cafona demais.

A retirada da minha bola japonesa da minha varanda não me afeta para além do que registro aqui nestas linhas, lamento porque a fachada será menos bela a partir de amanhã. Mas não é este o problema. Me assusta a futilidade, o provincianismo e a banalidade que ronda os espíritos humanos. E a um bom punhado destes bons espíritos eu hoje chamo de queridos vizinhos e desejo-lhes bom dia, boa tarde e boa noite. Boa Noite. Durma com um barulho desses. Durmam com o barulho da cafonice que reside no fato de espreitar a vida alheia e achar que isso é uma postura bacana. Afe, onde é que foi parar a elegância e o bom senso? Talvez não estejam por aqui nesta vizinhança. Incomodado que se mude.

Oh, yeah. Lessons learnt. A incomodada aqui se mudará um dia. Só que, da próxima vez, vou para uma casa onde eu ossa plantar não só meus amigos, meus discos e livros, como também a minha bola japonesa de papel de arroz na varanda, iluminando a minha liberdade de poder colocar exatamente o que eu bem entender nas tais quatro paredes que são, afinal de contas, minhas. Minhas. Abaixo à intolerância.
por Juliana Jacyntho, em 7/25/2008 12:21:19 AM



circulando a ignorância



Millôr Fernandes curiosa e ironicamente escreveu na Veja de 28 de maio: quanto mais lemos, mais estudamos, mais nos informamos, mais ignorantes ficamos. Nossa ignorância é alimentada pelo nosso grau de informação. Eu sei o que não sei, ele diz. Bacana quando ele descreve o descarte de livros que não deseja mais guardar: joga-os fora, no lixo, certo de que muitos que pelo lixo passam resgatarão o livro antes mesmo do lixeiro aparecer para recolhê-lo e que então, aí, se dá a mágica do acaso da circulação das mensagens que aquele livro traz. O livro irá engrossar a 'ignorância' de quem ali no lixo o escolheu e sorrateiramente catou-o do limbo. Como estou de mudança, dia desses me peguei diante do dilema sobre o quê fazer com alguns livros que não queria mais guardar. Uns porque não me interessavam mais - ou nem chegaram a, outros porque não me marcaram e que poderiam dar espaço a outros recém-adquiridos. Fui pega por um pudor danado que me impediu, com força, de jogá-los no lixo.

Sempre escutei que jogar livro no lixo é ignorância, um pecado, com tanta gente precisando de instrução e cultura por aí... Tem hábitos na vida que trazemos conosco desde todo o sempre: vêm da criação, vêm da nossa história, eles não querem saber, eles vêm vindo com a gente. Ei-nos aqui. Acabei doando os livros para uma instituição de caridade. Sei não se as criancinhas e idosos lá assistidos irão interessar-se por regras de felicidade no trabalho ou formas inteligentes de enriquecer casado. Talvez seguir a dica do Millôr seria uma forma mais sincera de descarte e mais generosa com o conhecimento e com a graça que reside no acaso de ser escolhido por quem realmente se interessa por mim - em sendo eu o livro. Cliquem na figura para ler Millôr. Descartem com sinceridade os livros que já não caibam no espaço afetuoso que existe entre o alcance da mão e o canto da estante. Juro que, da próxima vez, eu tentarei.
por Juliana Jacyntho, em 7/22/2008 10:41:15 PM



W A N T E D !



Une touche de Naf Naf: Criado em 1991 pela Naf-Naf, grife francesa casual wear em parceria com a L'Oreal, usei muito esse perfume quando tinha uns quinze anos. Por curiosidade, fui procurar na net para ver se encontrava um frasquinho. E não é que encontrei?. No E-Bay por cerca de US$ 150.00. Pelo que vi, é vintage, coisa rara de achar. Mas confesso que amarelei de comprar pelo e-bay. Mercado livre eu até encaro, mas leilão no estrangeiro... sei não, vai que o perfuminho não chega? Minha porção roda-presa falou mais alto que a shopper compulsiva saudosista... Salvei a foto para posteridade, e também pra ver se a frouxa aqui cria coragem e dá o 'lanço'. Aliás: a embalagem, eu já não me lembrava, tem polka-dots e letrinhas coloridas, tal como este humilde blog. Freud explica. =) Boa semana!!!
por Juliana Jacyntho, em 7/21/2008 01:31:11 AM



quando o amor mora ao lado


Casou-se muito cedo. Entediou-se tão cedo quanto. Mas seguiu e saiu por aí destilando um mix desvairado de tédio e ódio. Tédio pela sem graceira suportada em casa, todo santo dia. Ódio por não conseguir virar a mesa, virar a página, virar uma pessoa simplesmente feliz. E satisfeita. Foi quando sofreu um terrível ataque cardíaco. Ódio demais + Tédio demais = mistura letal. Almost. Faltava-lhe leveza, paz. Faltava-lhe gentileza e cor. Faltava-lhe uma vida boa, só boa e pra chamar de sua, dissociada da falência caseira que experimentava e que lhe consumia as paciências... e o seu coração então colapsou. Mas não lhe faltou sorte.

Recuperando-se, recobrou a razão: em casa, conversou. Decidiu que não poderia mais arrastar a história de paixão adolescente vida madura afora, pediu a conta e deu com o mundo pela frente. Nights, porres homéricos, amores de minuto. Curtiu não. Achou aquilo tudo meio, assim, meio pesado, meio barbárie, meio não era seu estilo. Estilo? Resolveu tentar outras fórmulas. Agências. Pessoas estranhamente encalhadas a procura do par perfeito. How Bizarre. Curtiu não. Achou aquilo tudo meio demodé, meio delator da falta de traquejo pra tal da pegação, falta esta regada por anos e anos de inércia [in]voluntária ante a velha e boa paquera, que ao engessado matrimônio não resistiu. Paquera. [Deve existir algum termo mais moderno para isso hoje] - pensou. Pensou em recorrer aos amigos. Blind dates. Muitos. Jantares, happy hours, almoços, até chá das cinco. Gente chata, gente interessante até a terceira dose, gente que lhe instigava a ter pensamentos cruéis: se você é tudo isso mesmo, porque está diante de mim vendendo-se com tamanha eloquência, tal como se fosse a última fatia do último abacaxi suculento da feira? Curtiu não. Começou a surtar e achar que, sabe-se lá, talvez a idéia do novo eu não era assim tão boa...

No apartamento alugado, com o conforto que a grana dos quarenta e tal enfim, ao menos, lhe propiciava, pôs-se a pensar sobre o que faria dali em diante. Sentiu solidão, medo, ansiedade. Sentiu saudades, um misto de culpa e arrependimento. E a tal sensação de liberdade, que merda, por que não deu as caras? Repensou o rompimento, repisou seus sentimentos, repartiu com seu novo eu a angústia de querer revelar que sentia saudades da dita prisão em que vivia. Quis o tédio de volta, que fosse, o ódio, que voltasse, quis de volta tudo o que conhecia e o que lhe era familiar. Arrumou a mala com as poucas roupas que tinha trazido, pegou as chaves do carro e na escolha do caminho não pestanejou: voltou pra casa, de onde não deveria ter saído, refletiu ao volante. Lá chegando, qual não foi sua surpresa: seu ex-par bailava, contente e feliz, nos braços de outro alguém. Diante da cena, pôs-se a chorar, copiosamente.

A sintonia do par era impecável, a feição de alegria de ambos era invejável, a atmosfera do ambiente era leve e perfumada. Super harmonia. Sem que o casal percebesse, entrou na sala. Diante do susto, a dança foi interrompida e os três ali, diante da lareira, se entreolharam sem saber ao certo o que dizer. Não havia o que dizer, só sentir: ainda chorando, ele abraçou sua mulher e também o seu filho, o mais velho, de dez anos, o belo rapaz que, segundos antes, conduzia a mãe com muita destreza e charme naquela melodia doce do bolero que tocava. Destreza e charme estes herdados do seu pai, que enfim acabara de voltar pra casa com a certeza de que, não importa quão dura possa ser a rotina de décadas a fio com a mesma pessoa, não importa se tudo ao redor parecer acinzentado pela mesmice: ele agora tinha a certeza de que se empenharia com todo o afinco para não deixar nunca mais morrer o encanto daquele fim de tarde em que pôde rever o sorriso mais reluzente de toda a sua vida brilhar novamente: o da sua mulher. Era ela. Sempre foi. Sempre ali tão perto. Era ele. Sempre deixava de ser. Sempre tão distante. Nosso amigo resolveu, naquele dia, nunca mais ausentar-se da sua própria vida.
por Juliana Jacyntho, em 7/14/2008 12:21:48 AM



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