arquivos
links
fotos

online

Busque um texto no Balanço por assunto:

Pesquisa personalizada





amor com solução de continuidade

Reaprender a ser só não é tarefa das mais naturais, embora devesse. Nascemos todos pelados, carecas e banguelas, devíamos achar a coisa mais prosaica do mundo caminhar sozinho. Mas não. Acostumamo-nos a ser casal. Quem é, sabe do estou falando: os olhares que dizem mais que mil palavras, o colo que encaixa ao acalento sem precisar pedir, as histórias vividas, as risadas e brigas que, juntas, escrevem toda uma história de vida comum que, para quem a protagoniza, passa a ser a história de vida de cada um desde o primeiro dia em que algo falou mais alto e deu-se o encontro. Contudo, nem todo mundo tem vocação para Barbie, Princesa da Ilha, e assim muita história linda de amor acaba com um final menos cor de rosa. Diz Rodrigo Amarante em "O vento" - que eu amo demais - que se a gente já não sabe mais rir um do outro, meu bem, então o que resta é chorar. Chorar é uma boa. Lava tudo, expurga a dor e ensina a recomeçar. Limpa o caminho, a íris e ajuda a enxergar lá na frente, pois, sim, há de haver um "lá na frente".

Reaprender a ser só não é tarefa das mais fáceis. Vejo gente aí se atrapalhando um bocado a conviver na sua exclusiva companhia depois da quebra. Pudera. Rompem-se relações e quebram-se sonhos. Quebram-se sonhos e o chão desparece debaixo dos pés. Caminhar sozinho e sem chão. Nada, nada fácil. Quem tem que ensaiar a caminhar sozinho enfrenta desafio de peixe grande: olhar-se no espelho sem o par não é apenas constatar que o amor foi embora, que a paixão se esgotou, que o encanto acabou. Olhar-se sozinho diante do espelho e ter que respirar fundo para recomeçar sem a mão dada de sempre é também ter que encarar a incapacidade e a falta de aptidão de cada um para o conjunto, para a concessão, para a generosidade que reside no tal ceder, tônica da convivência entre duas pessoas. E quando a questão cinge-se em reconhecer que você fracassou, amigo, ah, isso não é nem um pouco legal, nem no escuro, nem debaixo da cama, tampouco diante do espelho.

Reaprender a ser só não é mesmo tarefa das mais simples. Tem a cama que passa a ser grande demais, o lugar à mesa vazio impondo-se como um fantasma toda noite, o buraco desocupado do porta-escova de dentes te encarando toda manhã a debochar da tua incompetência. Ela se foi, ele se foi. E você ficou. Ficou sozinho e sem chão. Sozinho, sem chão e com uma baita vontade de chorar. Pois chore. Chorar é uma boa. Lava tudo, expurga a dor e ensina a recomeçar. Limpa o caminho, a íris e ajuda a enxergar com mais clareza o caminho a ser traçado, só que agora sem mão dada a ninguém. Convenhamos que, pra quem nasceu pelado, careca, banguela e aprendeu a andar de joelhos e depois, já bípede, levou muitos tombos até erguer-se totalmente, voltar a caminhar só, de braço solto, é desafio perfeitamente transponível.
por Juliana Jacyntho, em 8/23/2008 12:49:59 AM



notícia non grata



Chove, o céu é cinza e o dia da semana é domingo. O telefone toca e anuncia que um conhecido, rapaz jovem, talentoso e esportista, foi embora dessa vida após um atropelamento. O rapaz nem era muito próximo de mim, mas uma notícia assim me engasga e muito. Uma vida boa brutalmente interrompida. Interrogações. Incertezas. Dó. Angústia pelo vazio que fica diante da constatação de quão vulneráveis somos nós.

Na Rede, leio a notícia de que o acidente foi causado por um outro rapaz, embriagado, ainda mais jovem que o meu conhecido que partira. Outra vida desperdiçada, cujos sóis serão contemplados, daqui em diante, muito provavelmente, se justiça houver, sob um prisma quadrado.

Chove, o céu é cinza e o dia da semana é domingo. O entalo na garganta remanesce, mesmo não sendo o rapaz tão amigo meu assim. Além do entalo, do susto, do choque, me vem à cabeça um punhado de orações à vida, à família de quem se foi e uma vontade grande e forte de mandar às favas toda a banalidade de problemas rasos que cercam o nosso dia-a-dia, pois problema é sentir a dor de perder alguém amado demais rasgando a carne e afastando pra bem longe a paz, é enxergar que os momentos alegres não voltam mais e que somente ficarão na memória. Deste problema confesso querer muita, muita, mas muita distância. Quem ousaria discordar... mas não nos é dado o privilégio de ter esta certeza na vida. E então vem o medo, a perplexidade, o silêncio.

Se outro jeito não há, se a certeza é a de que um dia, uma hora, de algum jeito, todos vamos embora, cito aqui Mark Twain, para finalizar este desabafo, e conclamo a todos: "tentemos viver de tal modo que, quando morrermos, até o homem da agência funerária lamente a nossa morte".

Se é para acabar um dia, que seja depois de momentos muito bem vividos. De palavras muito bem ditas e escritas. De abraços fortes e sinceros. De beijos apaixonantes e acalorados. De amores francos. E olhares e sorrisos abertos e felizes demais. Nem ter esta meta em mente me conforta, confesso, mas temos que seguir em frente, ainda que com medo. Tenho medo sim. Não de ir, mas de ficar. Não de ir, mas de deixar rastros de dor e sofrimento. Não de simplesmente ir, mas ir de forma brusca e violenta. Não de ir, mas simplesmente ir e nada deixar para contar história.

Viver é uma arte. Sabe-se que a arte sempre conviveu com certas doses de insanidade. Pois, para mim, confrontar-se com a morte, mesmo que de longe, é a loucura do artista. Hoje, a obra posta é uma tela pintada com muitas interrogações diante de mais uma baixa no exército dos bons, de forma brusca demais, a desafiar a minha limitada compreensão. Como se não bastasse a densidade de tudo isso, ainda chove, o céu é cinza e o dia da semana é domingo. Mas não me sinto confortável para reclamar por um sábado de céu azul ensolarado. A morte me encabula.
por Juliana Jacyntho, em 8/3/2008 12:55:23 PM



Page copy protected against web site content infringement by Copyscape


Copyright © 2008 Balanço de Dez em Dez - desde 05'2004. Todos os direitos reservados. Lei Federal 9.610/98 - Lei de Direitos Autorais